Trabalho com bicicleta dá nova vida a refugiado venezuelano

Francisco di Salvatore deixou seu país, onde passava fome, e ganhou oportunidade na Courrieros

Ana Paula Franzoia Cristiano Cipriano Pombo
São Paulo

A vida do venezuelano Francisco di Salvatore, 29, mudou completamente nos últimos meses. Por causa da situação política e econômica de sua terra natal, teve que deixar a capital Caracas.

Ao fugir, colocou em ação o que tinha planejado: tentar a vida em São Paulo. Tanto foi assim que, mesmo magro e com a saúde frágil, atravessou a fronteira a Boa Vista e, dois dias depois, já estava na capital paulista.

Francisco di Salvatore, 29, entregador sustentável da Ecolivery Courrieros
Francisco di Salvatore, 29, entregador sustentável da Ecolivery Courrieros - Renato Stockler

De acordo com ele, foi na cidade que escolheu para tentar uma nova chance de vida que ele se sentiu abraçado. "Conhecia dois amigos, que me receberam aqui. E, o mais legal, foi que eu procurava algo mais saudável para fazer, como andar de bicicleta, quando descobri a Courrieros", diz ele, que atua como entregador na empresa e ainda dá aulas de espanhol.

Para Di Salvatore, foi uma das melhores coisas que aconteceu em sua vida conhecer André Biselli, 28, e Victor Castello Branco, 29, criadores da Ecolivery Courrieros, negócio social que realiza delivery com bikes em São Paulo e é uma das iniciativas finalistas do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2018.

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Eu tinha uma loja de iPhones em Caracas, com meu irmão, e tinha uma boa condição de vida. Mas inevitavelmente, por causa da política do governo, o negócio foi fechado e a situação ficou difícil.

Minha situação foi ficando ruim, porque não tínhamos o que comer. Não tinha emprego. E eu sei o que o significa sentir fome de verdade, por causa de um controle social de querer o poder e mentir para o povo. A situação na Venezuela está muito triste, porque está se perdendo o valor humano, da vida.

Teve dia que eu, um jovem, que estava acostumado com uma evolução de estudos, economia, trabalho e família, teve que passar com um pedaço de pão. Eu emagreci muito, estava desnutrido e estava morrendo.

Eu sabia que tinha que sair de lá. Tentar algo diferente. Eu queria uma vida diferente. E tinha estudado vir para São Paulo, que era um local conhecido pelo trabalho.

Eu cheguei pelo Brasil por terra, no dia 15 de agosto [de 2017], atravessando por Roraima, chegando a Boa Vista. De lá, peguei um voo e cheguei a São Paulo no dia 17.

Quando cheguei aqui, eu queria algo que pudesse melhorar minha vida, algo saudável, e um trabalho que aceitasse a minha condição de refugiado. Procurei por lojas de bicicleta. E a primeira que apareceu foi a Courrieros.

Fiz contato pelo Instagram, para marcar uma entrevista, explicando minha condição de refugiado, que não tinha muitos documentos. E aí conheci o André Biselli e o Victor Castello Branco, que me acolheram com uma família.

E eu estou trabalhando no que gosto, e gosto muito, porque, quando eu pedalo, observo a cidade, penso, bato um papo comigo mesmo, me conheço mais. 

Aqui as pessoas estão em um movimento muito rápido, de respeito ao trabalho, de chegar rápido ao trabalho, que muitas vezes não enxerga o pedestre, o ciclista e a cidade. A bicicleta leva um estilo de vida mais saudável para a cidade.

Por isso é muito legal o que o André e o Victor criaram Eles começaram do zero, conhecem o esforço e o suor na rua para conseguir crescer. Está sendo bem importante, especialmente para alguém como eu. Uma pessoa nova, que por problema de documentação não consegue ter um trabalho um pouco mais forte e mais estável.

Eles precisam saber só que você gosta de trabalhar, que gosta de ser uma essência diferente na rua. É ser um biker. Eu gosto muito do conceito que eles dão pras pessoas e seu trabalho. Eles têm uma visão tanto pessoal quanto de negócio muito positiva.

O mais difícil, para mim, não é pedalar no trânsito de São Paulo. Eu acho que, mais que o problema da língua, o mais difícil é o preconceito que vem pela ignorância pelas pessoas, é lutar contra esse preconceito e tentar que as pessoas não olhem para os refugiados como uma bactéria, como uma coisa que incomoda.

Acho que se tem que ter um pouco mais de consciência, de educação. Um pouco mais de tato com a pessoa, e escutar. Ouvir a pessoa porque é uma história que pode acontecer com todo mundo. Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo, mas aconteceu.

E não importa o que eu ganho. Porque, quando se conhece outra economia, é possível pensar de outro jeito. Então R$ 50, R$ 100, R$ 20, por mais que aqui não parece muito aqui, na Venezuela é muito dinheiro. E hoje consigo ajudar a minha família, os meus pais, que ficaram na Venezuela. Por isso não importa se eu ganho muito ou pouco, o que importa é que estou trabalhando.

E pouco a pouco as portas vão se abrir, fechar, mas isso é o que importa, que você sempre esteja pesquisando uma porta com uma saída, e com saídas positivas. Acho legal que se essa porta seja aberta com uma bike.

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