Descrição de chapéu Dias Melhores

Startup faz 'match' de empresas e projetos para moralizar uso da Lei Rouanet

Mathieu Anduze e Raphael Mayer fazem da Simbiose Social uma plataforma de dados públicos

Patricia Pamplona
São Paulo

Na viagem de formatura do ensino médio para Cancún, Raphael Mayer, 24, embarcou como empreendedor. Mathieu Anduze, 25, foi um dos cerca de 80 clientes de um pacote que seu colega de classe negociou com uma agência de turismo.

A trajetória dos dois voltaria a convergir anos depois, quando deixaram seus empregos em multinacionais para empreender com propósito.

Desde cedo e em meio à separação dos pais, Raphael canalizava sua veia de mercador: aos sete anos, na 1ª série do ensino fundamental, vendia para os coleguinhas de classe lápis de cor que customizava com gesso e tinta, emprestados da mãe arquiteta. “Era o rei da cantina”, conta ele sobre o dinheiro que descolava para suas pequenas vontades.

Não foi diferente no ensino médio, quando acertou com a agência de turismo que, se conseguisse engajar mais alunos, sua comissão seria a viagem de formatura. “Eles iam com panfletos na escola, e aquilo não ia vender nunca. Gravei um DVD e teve recorde de vendas.”

Foi o passaporte para curtir as águas caribenhas não só na com sua turma de formatura, mas nos dois anos seguintes.


Mathieu também é inquieto, traço que vem do avô argelino. “Ele viajou muito, sempre se desafiou.” O patriarca trouxe a família ao vir trabalhar como engenheiro no Brasil.

Apesar de ter sangue francês pelo lado do pai, também engenheiro, e da mãe, designer, o jovem nascido e criado em São Paulo trocou o Lycée Pasteur pelo colégio São Luís, onde conheceu o futuro sócio.

A Simbiose Social foi fundada em 2017 para democratizar o acesso aos recursos de leis de incentivo com uma plataforma que permite às empresas encontrarem projetos alinhados com suas demandas.

Foi ainda na escola que Mathieu se deu conta de como as injustiças o incomodam. “Minha ficha caiu.” Incentivado a sair da bolha pelos pais, ele e outros adolescentes da escola de elite paulistana foram voluntários em projeto para triar lixo na periferia.

Na faculdade, tanto Mathieu, na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), quanto Raphael, no curso de administração na FGV (Fundação Getúlio Vargas), cultivaram o espírito empreendedor. Um fazia consultoria para ONGs na ESPM Social; o outro prestava serviço em uma Empresa Júnior.

Sempre em contato, os jovens acabaram escolhendo a Inglaterra para um intercâmbio em 2014. No início daquele ano, Raphael partiu para fazer um curso de inglês e outro na London Business School.

Ao final, quis permanecer por lá nas férias e viu uma oportunidade na Copa do Mundo do Brasil. Decidiu oferecer um acordo ao dono de uma boate: fazer promoções para atrair torcedores para assistir aos jogos.

Apresentou o conceito de oferecer torres de chope e montou uma proposta que incluía uma dose de tequila grátis a cada gol. 

“Vendia cada mesa para dez pessoas por 100 libras (R$ 525). Depois que vendi um jogo da Bósnia, vendia qualquer um”, conta o brasileiro.

Enquanto Raphael retornava ao Brasil, Mathieu partia para Londres para fazer um estágio. Corintiano apaixonado, foi conhecer o Corinthians Casuals, que originou o clube paulistano e está na oitava divisão inglesa. Acabou voluntário por seis meses.

O brasileiro ajudou a promover a vinda do Casuals ao Brasil para um amistoso em São Paulo.

“Arrecadamos R$ 200 mil com patrocinadores em um dia”, conta Mathieu. Bombou o evento em um programa esportivo na TV, ao lado do ídolo Netto.

TEIA DE PROPÓSITOS

De volta ao Brasil, os dois entraram em programas de trainees: Raphael, na Ambev, e Mathieu, na Unilever.
Por coincidência, foram trabalhar em áreas que se ocupavam do recurso para leis de incentivo fiscal.

Logo se deram conta de que queriam empreender, e o aprendizado no mundo corporativo veio a calhar.

Raphael convidou Mathieu para montar um negócio. A ideia surgiu quando Helena Miguel, prima de Raphael, pediu ajuda para inscrever um projeto para captar recursos via Lei Rouanet. “Ela fundou o Pronto Sorrir, que atua com humanização hospitalar com crianças”, diz Raphael.

A dupla sabia que as verbas de renúncia fiscal muitas vezes eram definidas quase no prazo limite e sem critérios claros.

“Pela primeira vez usei a minha habilidade em vendas para fazer recurso com um propósito maior”, afirma o administrador de empresas,sobre o desafio de conseguir o aporte de R$ 438 mil e levar o Pronto Sorrir para hospitais públicos. “Isso virou uma chave dentro de mim.”

Diante da insistência para auxiliar outros empreendedores sociais a vencer entraves, os universitários viram nisso um potencial de mercado.

O modelo de negócio da futura startup social foi tema do trabalho de conclusão de curso de  Raphael na FGV, com ajuda de  Mathieu, que se formava na ESPM. Trabalharam a quatro mãos para avaliar o mercado de leis de incentivo fiscal e propuseram uma solução inovadora para empresas e captadores.

“Todo mundo falava que aprovar o projeto era fácil, mas captar recurso era impossível”, lembra o administrador.

No âmbito federal, 71% dos projetos aprovados não saem do papel; e dos R$ 3 bilhões disponíveis para a renúncia fiscal em 2016, cerca de R$ 1,6 bilhão, quase metade, não foram utilizados.

Chegar às informações não foi fácil. “Ao ligar na Receita Federal para pedir o histórico de investimento de todas as empresas do país, só faltaram rir.” Como são dados públicos, usaram a Lei de Acesso à Informação. Foi quando ganharam outro sócio, o ex-programador da IBM Tadeu Silva, 28, que desenvolveu robôs para baixar os dados públicos.

Horas depois de começar a coleta das informações, os sitemas dos ministérios e da Receita Federal ficaram fora do ar. “Achei que o Japonês da Federal ia aparecer na minha porta”, brinca Mathieu.

Após ajustar o robô, que era mais rápido do que o sistema do governo permitia, a Simbiose Social tinha em mãos um banco de dados de mais de 182 mil projetos sociais, culturais e ambientais do país.

“Temos na nossa base o histórico do que cada empresa fez com recursos de renúncia fiscal no país nos últimos 25 anos e para onde foi cada centavo”, diz Raphael. “São mais de R$ 80 bilhões mapeados e 60 mil CNPJs.”

Em parceria com o FGVCenn (Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV), estão criando um ranking nacional. O I3C (Índice de Investimento Incentivado em Cultura) pontua os projetos a partir do impacto social que geram e como as as empresas investem na área.

“Além de apoiar as empresas para investir melhor, é uma forma de mostrar para a sociedade como elas estão evoluindo na democratização do investimento sociocultural”, explica Edgard Barki, coordenador do FGVCenn.
 
O índice está previsto para ser lançado em março de 2019. “É para valorizar quem faz bem”, afirma Mathieu.

Lição que os sócios da Simbiose Social aprenderam com Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, empreendedor cansado da guerra de captar recursos.

Pioneiro em se travestir de palhaço para levar alegria aos hospitais, Nogueira inspirou o Pronto Sorrir, ONG que contou com ajuda primordial dos futuros sócios da Simbiose.

Helena, quando criança, assistia aos ensaios do Doutores da Alegria ao lado de pai, médico que abriu as portas do Hospital das Clínicas, em São Paulo, para a trupe de palhaços. “A teia da vida é uma coisa linda”, afirma Nogueira. “E esta se formou e se traduz como simbiose, quando a mágica acontece.”

 

Simbiose Social

Fundação
2017

Área de atuação 
Gestão de recursos de leis de incentivo para área sociocultural e ambiental

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