Projeto de vídeos 360º muda a vida de jovens e leva curta brasileiro até Nova York

Cineastas 360º, parceria entre Recode e Facebook inserida em escolas públicas, produziu 53 filmes, um deles exibido na ONU

São Paulo

Gean Guilherme Santos Lopes, 19, sempre teve uma paixão: o skate. Mas vivia um dos momentos mais delicados e indecisos de sua vida quando foi descoberto, em agosto de 2018, pela Recode, organização social que trabalha com o empoderamento digital, e pelo Facebook.

"Eu já tinha praticamente abandonado a escola. Não tinha nada lá que me despertava interesse", afirma.

Morador do morro Santo Amaro, na Glória, zona sul do Rio de Janeiro, um dos locais mais violentos do Rio, Gean explica que tinha abandonado a Escola Estadual Souza Aguiar devido aos problemas com os quais tinha que conviver lá. "Não tinha ventilação boa na sala, muitas vezes faltava comida. Eram muitos os problemas."

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Dessa forma ele chegou a ficar dois anos afastado da escola, quando descobriu em 2018 o projeto Cineasta 360º, parceria da Recode e do Facebook que visa usar a tecnologia para transformar a vida de jovens.

Gean Guilherme Santos Lopes discursa, ao lado de amigas, após o filme 360º "Lollapallango - Santo Amaro" vencer disputa regional
Gean Guilherme Santos Lopes discursa, ao lado de amigas, após o filme 360º "Lollapallango - Santo Amaro" vencer disputa regional - Ana Gonzalez/Recode

"Eu tinha voltado para a escola porque minha mãe pediu, mas estava levando em banho-maria. Quando o pessoal do projeto chegou, eu quase não acreditei, não botei fé. Mas percebi que eu tinha que abraçar aquilo, dar o meu melhor."

E foi no "Cineastas 360º - Realidade virtual para impacto social", projeto educativo da Recode e do Facebook, que Gean se descobriu. "Eu já tinha perdido muitos amigos de infância. E, com o projeto, aprendi que a tecnologia pode salvar vidas, pode mudar realidades."

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A primeira realidade que alterou foi a visão que ele tinha da escola e, consequentemente, a que a escola tinha dele. "Passei a me relacionar muito melhor com os professores e com os colegas. Pude conhecer melhor as pessoas, o ambiente."

O jovem diz que, como skatista, poucos o enxergavam com respeito, mas, após gravar o vídeo, em 360º, "Lollapallango - Santo Amaro", onde buscou mostrar o trabalho social realizado no morro, passou a ser visto como referência.

O estudante Gean Guilherme Santos Lopes, idealizador do filme "Lollapallango - Santo Amaro"
O estudante Gean Guilherme Santos Lopes, idealizador do filme "Lollapallango - Santo Amaro" - Ana Gonzalez/Recode

"Poucos pensam a comunicação e a tecnologia como forma de viver ou que a programação tem valor. A gente já realizava, com os skatistas do coletivo Ademafia, um evento social. Então colocamos ele no vídeo, ouvimos as pessoas da comunidade. Isso permitiu uma troca gigantesca, deu voz a quem precisava. Posso dizer que transformou mesmo."

Além do respeito das crianças, que agora sempre perguntam a Gean quando será que ele trará um novo filme 360º para a comunidade, o "Lollapallango - Santo Amaro", em alusão ao festival de música Lollapalooza, venceu um festival regional, na região Sudeste. "Eu fui chamado para contar a história do filme, a minha história, em outros locais. Você vê o poder que a tecnologia, as artes e a comunicação têm de unir as pessoas e dar visibilidade a elas."

Além de Gean Lopes, que produziu o vídeo com Beatriz Padilha, Bruna de Almeida e Vitoria Xavier, outros seis filmes foram criados só no colégio Souza Aguiar.

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A vida de Gean mudou tanto que ele foi contratado pela Recode como estagiário de audiovisual. E continua indeciso, só que agora sobre o que escolher para seguir com os estudos.

Filme brasileiro em Nova York

Também no segundo semestre de 2018, o Cineastas 360º foi implantado em outras nove escolas, de oito estados diferentes do Brasil, totalizando 367 alunos e 63 professores que participaram dos treinamentos e da consolidação do projeto, com 53 filmes produzidos.

Um desses filmes, o curta "Francisca", sobre uma líder comunitária em Goiânia (GO), inclusive, foi um dos seis selecionados —entre 200 vídeos 360º de diferentes países— para serem exibidos na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no final do ano passado. O vídeo brasileiro foi apresentado, juntamente com um alemão e quatro americanos, no My World 306º, programa de realidade virtual das Nações Unidas, em parceria com Digital Promise e Oculus, que busca identificar questões que afetam jovens no mundo.

"O Cineastas 360° tem como premissa apresentar a realidade virtual enquanto recurso audiovisual para a transformação social, e a seleção de 'Francisca' para representar o Brasil no My World 360° demonstra na prática como a tecnologia pode impulsionar e mudar a vida de estudantes de escolas públicas no Brasil", diz Andrea Leal, gerente de Programas de Políticas Públicas do Facebook. 

"Francisca, a luz na Terra do Sol" foi realizado pelos alunos Beatriz Kellen da Silva, Sabrina Rodrigues Vieira, Gabriela Cristina Vieira de Aguiar e Yan Ítalo da Silva Borges, do Colégio Estadual Carlos Alberto de Deus, Goiânia (GO).

A professora Layla Rocha e os alunos Gabriela Cristina Vieira de Aguiar, Yan Ítalo da Silva Borges, Beatriz Kellen da Silva e Sabrina Rodrigues Vieira, que criaram o curta "Francisca, a luz da Terra do Sol"
A professora Layla Rocha e os alunos Gabriela Cristina Vieira de Aguiar, Yan Ítalo da Silva Borges, Beatriz Kellen da Silva e Sabrina Rodrigues Vieira, que criaram o curta "Francisca, a luz da Terra do Sol" - Divulgação/Facebook

"A verdadeira vitória do documentário 'Francisca' é conseguir mostrar para o mundo inteiro como, independentemente do lugar em que estamos, podemos sempre ajudar o próximo", diz Beatriz, uma das alunas responsáveis pela produção do documentário. 

Para Rodrigo Baggio, presidente da Recode e integrante da Rede Schwab de Empreendedores Sociais, outro aspecto interessante é que o Cinestas 360º, que leva metodologia e equipamentos às escolas, acaba despertando outras ações. 

“O empoderamento digital por meio do audiovisual é um poderoso caminho de aproximação e empatia desses jovens com seu entorno. Os realizadores de Francisca, por exemplo, agora estão mobilizados para iniciar um projeto de arrecadação de roupas, brinquedos e alimentos para crianças da comunidade retratada no documentário.” 

Cartaz do filme "Francisca, a luz na Terra do Sol", produzido por alunos do projeto Cineastas 360º
Cartaz do filme "Francisca, a luz na Terra do Sol", produzido por alunos do projeto Cineastas 360º - Divulgação/Facebook

Neste ano, o projeto ocorrerá nas escolas Escola de Educação Básica Mater Dolorum (Capinzal-SC), Instituto Federal da Paraíba (Campina Grande-PB), Escola Estadual Lino Villachá (Campo Grande-MS), Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus (São Félix do Tocantins-TO) e Escola Estadual Culto à Ciência (Campinas-SP). 


Escolas que participaram do Cineastas 360º em 2018

  • Escola Estadual Tiradentes, em Macapá (AP). Projeto: Moradias em áreas de risco
  • Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Professora Maria Celeste do Nascimento, em Zabelê (PB). Projeto: "Encontro com um nordestino"
  • Colégio Estadual Carlos Alberto de Deus, em Goiânia (GO). Projeto: "Francisca, a luz na Terra do Sol"
  • Escola Estadual Sanico Teles, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Projetos: "Vale da Eletrônica -  cenário de méritos, desigualdades e diferenças sociais" e "De Manoela a Penha".
  • Colégio Estadual José Pavan, em Jacarezinho (PR). Projeto: "Ser ou não ser - isso não é uma questão"
  • Escola Maria Elizete Fona Nunes, em Breves (PA). Projeto: "Ribeirinhos: a luta de um povo"
  • Colégio Estadual Prof. Magalhães Neto, em Ruy Barbosa (BA). Projeto: "Leonayde e seus irmãos"
  • Escola Estadual Souza Aguiar, em Rio de Janeiro (RJ). Projeto: “Lollapallango”
  • Colégio Estadual Cianorte, em Cianorte (PR). Projetos: "Medo Real" e "Um lar para se amar"
  • Escola Estadual Presidente Costa e Silva, em São Luís de Montes Belos (GO). Projeto: "Um lugar de amor"




 

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