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Rodrigo Brito

Movimentos transformadores: a anatomia dos coletivos de impacto

Série de artigos trata de iniciativas que integram atores em torno de objetivos comuns

Rodrigo Brito

Ao longo destes cerca de 15 anos de atuação no setor de desenvolvimento, já vi quase de tudo em termos de hipóteses e modelos para impacto.

Sejam eles filantrópicos, de negócios ou mistos, de tudo o que já vi até agora nada supera (em tamanho e relevância) o impacto e mudanças geradas do que aquilo que chamo de “movimentos transformadores”, iniciativas formadas por um conjunto crescente de pessoas e/ou organizações que compartilham uma mesma causa e perseguem coletivamente objetivos comuns. 

Diferentemente de redes soltas ou campanhas pontuais, os movimentos transformadores levam anos para serem formados e fortalecidos. Eles ganham tração e maturidade à medida que suas identidades coletivas vão sendo forjadas e refinadas a partir da soma de experiências e símbolos construídos por seus membros.

No Brasil, temos vários exemplos de movimentos que têm transformado seus contextos. Mesmo que uns sejam mais conhecidos ou estruturados do que outros, todos demonstram resultados muito expressivos em termos de números, conquistas, abrangência e repercussões, superando de longe o impacto gerado por quaisquer organizações individuais ou iniciativas isoladas.

Como exemplo do tamanho e da escala de alguns deles, hoje o Movimento Empresa Júnior (iniciado em 1988 no Brasil por um pequeno grupo de universitários) conta com mais de 800 empresas juniores nos 27 estados, realizando cerca de 11 mil projetos com micro e pequenas empresas e integrando aproximadamente 20 mil estudantes por ano em suas bases.

Já nas periferias urbanas, o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (formado no início dos anos 2000) hoje tem representantes em todos os estados, atua em prol de mais de 500 associações e cooperativas de catadores no país e influenciou uma série de políticas públicas e leis municipais, estaduais e federal, tendo ainda estabelecido parcerias com uma série de empresas, governos e ONGs.

Mais recentemente, é crescente o movimento em prol do acesso a água e saneamento em áreas rurais do Brasil, em que pessoas, organizações e comunidades têm se integrado para melhorar as condições dos 67,5% dos domicílios (ou 20 milhões de brasileiros) sem água tratada em suas casas (IBGE). 

Ao se organizar em torno de modelos de acesso, tratamento e gestão comunitária da água de forma descentralizada e autossustentável, esse movimento já conta com representantes e parceiros em dez estados brasileiros, atua desde meados dos anos 1990 e hoje atende mais de 2.000 comunidades e 1 milhão de pessoas diariamente, tendo cada vez mais se organizado, integrado e fortalecido com a realização de encontros nacionais e estaduais, parcerias e intercâmbios para aprimorar práticas e fortalecer sua identidade. 

Como tive a felicidade de participar ativamente do Movimento Empresa Júnior, acompanhar de perto o crescimento do movimento dos catadores e por hoje contribuir para fortalecer o movimento de acesso a água e saneamento em áreas rurais do país por meio do Instituto Coca-Cola Brasil e da Aliança Água+Acesso, compartilho o que considero um conjunto de aprendizados e elementos comuns (para o sucesso ou fracasso) de movimentos transformadores.

CONECTANDO OS ISOLADOS

Uma das principais características que distinguem os movimentos transformadores de redes, coalizões ou de iniciativas criadas por uma única organização é que, de certa forma, eles nascem, crescem e se desenvolvem inicialmente de forma fragmentada e orgânica antes de se reconhecer e estruturar como movimentos.

Eles não nascem de uma grande ambição, plano ou visão coletiva, mas de atores e grupos inicialmente isolados, com objetivos individuais e rotinas ou experiências semelhantes.

Antes de existir um “Movimento Empresa Júnior”, existiram grupos de universitários que localmente se uniram para, no dia a dia, prestar serviços a micro e pequenas empresas como forma de aplicar na prática o que estavam aprendendo em sala de aula, desenvolvendo habilidades e melhorando seus currículos para acelerar suas carreiras.

Antes de existir um movimento nacional de catadores, localmente estes passaram a formar associações, cooperativas e grupos com o objetivo de ampliar o volume de material que coletam e comercializam diariamente visando obter melhores preços e não tendo que depender de atravessadores.

Antes de qualquer movimento para ampliar acesso a água e saneamento rural, moradores dessas comunidades isoladas passaram a se organizar para eles mesmos viabilizarem a captação, tratamento e distribuição de água nas suas casas e assim terem mais conforto e saúde no seu dia a dia.

Perceba que em todos estes casos, além de serem núcleos e bases individuais que se formam e colaboram para beneficiar seus próprios membros, cada núcleo ou base é individualmente autossustentável, ou seja, não depende de doações ou terceiros por operarem com modelos econômicos que os viabilizam localmente. 

Sendo assim, cada associação e sistema comunitário rural de água “se paga” e se mantém pelas pequenas mensalidades (cerca de R$ 11 a R$ 18 por 10 m³ de água/mês) que cada família paga para a sua associação e o seu operador local.

Cada cooperativa ou associação de catadores é viável pela venda dos materiais recicláveis que coletam, e cada empresa júnior é viável economicamente pelos serviços que os universitários que as integram prestam à micro e pequenas empresas.

Essa viabilidade e independência econômica de cada núcleo/base é parte do sucesso e da resiliência dos movimentos transformadores, já que estes geralmente levam anos ou décadas para se desenvolverem.

Resumindo, em todos esses casos vemos quatro elementos presentes: a) objetivos e benefícios individuais claros e concretos; b) bons motivos para iniciar uma colaboração entre pares; c) dinâmicas ou modelos que são localmente autossustentáveis; d) esses grupos de indivíduos, ao se unir, acabam por vivenciar e compartilhar experiências e rotinas comuns.

Quando esses pequenos grupos que convivem e colaboram em seu próprio benefício passam a ter bons resultados, começam a ser exemplos e inspirar outros a fazer o mesmo em outras localidades. 

Identificar e conectar estes públicos e grupos (inicialmente isolados) com objetivos e rotinas comuns para algo maior é o primeiro passo dos movimentos transformadores. 

Nas próximas semanas, em outros dois textos em colaboração para o Empreendedor Social, vou aprofundar sobre como estes movimentos passam a se integrar, ampliar sua atuação e influenciar a sociedade. 

Rodrigo Brito

Empreendedor social, é gerente de Acesso à Água do Instituto Coca-Cola Brasil, cofundador e conselheiro da Aliança Empreendedora e da Iniciativa Emerge

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