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Rodrigo Brito

Movimentos transformadores: a soma que potencializa as partes

Como núcleos locais e instâncias regionais ampliam abrangência, influência e impacto

Rodrigo Brito

No primeiro texto, publicado nesta seção da Folha, destaquei alguns números e características comuns de movimentos que estão transformando a realidade de catadores de materiais recicláveis, universitários e comunidades rurais sem acesso a água no país. 

Neste segundo artigo (de uma série de três), veremos como bases e núcleos individuais passam a se organizar, integrar e fortalecer em direção à objetivos maiores.

ATUAÇÃO EM MICRO E MACROAMBIENTES 

Como já vimos, em todos os casos de movimentos transformadores temos quatro elementos presentes: a) objetivos e benefícios individuais claros e concretos; b) bons motivos para iniciar uma colaboração entre pares; c) modelos localmente autossustentáveis e; d) um conjunto de experiências e rotinas comuns.

A partir de um determinado número de bases ou núcleos locais (ex: empresas juniores, cooperativas de catadores ou associações comunitárias de água) e do grau de maturidade destes movimentos, passa a fazer sentido estruturar instâncias regionais ou nacionais, formalizadas ou não, com o objetivo de ampliar a visibilidade, representatividade e abrangência de ação e influência.

Diferentemente de cada grupo ou núcleo individual cujas atividades e impacto são essencialmente locais – o que chamo de atuação nos “microambientes”– essas estruturas e instâncias regionais ou nacionais têm como papéis representar, articular parcerias, fortalecer e ampliar a influência de seus movimentos na sociedade buscando melhorar condições e oportunidades para o conjunto de seus núcleos. Seu campo de atuação não é local, acontece naquilo que chamo de “macroambientes”.

Um efeito muito interessante da dinâmica dos movimentos transformadores é que suas ações em micro e macro ambientes são complementares e produzem um reforço mútuo e positivo. 

Enquanto núcleos e bases que atuam localmente geram impacto, conhecimento e legitimidade “na ponta” (ou “microambientes”),  as instâncias de representação, apoio e articulação atuam em “macroambientes” por meio de eventos, estudos, parcerias e campanhas influenciando setores, tomadores de decisão e a sociedade em temas chave de interesse que geram novas oportunidades e melhores condições para o conjunto das suas bases e núcleos locais.

Como exemplos desse modelo, podemos citar a ASA (Articulação do Semiárido Brasileiro), uma coalizão iniciada na década de 1990 que atualmente integra mais de 2.000 organizações da sociedade civil (ex: sindicatos rurais, associações de agricultores, cooperativas, ONGs, etc) para articular ações e políticas públicas relacionadas a convivência com a seca e o acesso à água no semiárido brasileiro.

Um exemplo de resultado desta articulação é o Programa Um Milhão de Cisternas, que já atendeu mais de 1,2 milhão de famílias.

Já as empresas juniores se organizam por meio de federações estaduais e uma confederação nacional, a Brasil Júnior, parceira do Prêmio Empreendedor Social. 

Em 2016, o movimento conseguiu aprovar, em tempo recorde de tramitação no Congresso, a lei 13.267/16, a Lei das Empresas Juniores, que regulamenta e legitima essas organizações nas universidades de todo o Brasil.

Quando em um momento do processo de tramitação houve o risco e ameaça de um importante artigo do texto ser vetado, todo o movimento se mobilizou e em menos de 12 horas foram obtidas mais de 30 cartas assinadas por reitores de universidades públicas e privadas de todas as regiões do Brasil em apoio ao projeto. Resultado: o projeto foi aprovado na íntegra, sem veto ou qualquer outra alteração.

E em relação aos catadores, a atuação do Movimento Nacional dos Catadores (MNCR), tanto mobilizando suas bases regionais como articulando com ONGs e empresas contribuiu para a aprovação da lei 12.305/10, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Outros avanços conquistados foram a inclusão da categoria de catadores como profissão na Classificação Brasileira de Ocupações, a dispensa de licitações para prefeituras contratarem diretamente associações e cooperativas de catadores, assim como parcerias estabelecidas com uma série de empresas como Coca-Cola Brasil, Ambev, Danone, dentre tantas outras. 

Assim como empresas devem estar sempre em contato próximo com seus clientes e stakeholders para se manterem vivas e atualizadas, também os movimentos devem ser a soma e representação de suas bases locais para se manterem relevantes, legítimos e renovados perante seus membros e a sociedade.

ARTE DO ENCONTRO

Outro aspecto chave para a formação dos movimentos transformadores é a construção e o fortalecimento de uma identidade comum e coletiva.

Essa identidade nasce primeiro pelo reconhecimento de cada núcleo de que existem outras pessoas e grupos com histórias, experiências, desafios e objetivos semelhantes que justificam a colaboração. 

Em alguns públicos, este reconhecimento e a formação de uma identidade coletiva é algo mais simples ou quase óbvia (por exemplo, professores, homossexuais, torcedores de um time ou fãs de uma banda).

Em outros casos, esse processo pode levar mais tempo, seja para a formação de um vocabulário e conceitos comuns como de experiências que produzam e reforcem este reconhecimento e identidade coletiva (ex: públicos atingidos por barragens, microempreendedores, organizações comunitárias de água, negócios sociais, investidores-anjos etc.).

Uma das formas mais potentes para acelerar este reconhecimento e promover o fortalecimento da identidade coletiva entre indivíduos e grupos é promover encontros e oportunidades de troca. São nesses momentos que as histórias, desafios e experiências são compartilhadas, conhecimento é gerado, cooperações e objetivos comuns são estabelecidos.

Na história de praticamente todos os movimentos transformadores veremos eventos e encontros como marcos-chaves e divisores de águas para avanços significativos.

No caso dos catadores, por exemplo, para além de encontros nacionais e estaduais, por vários anos o MNCR realizou a Expocatadores, um grande evento anual que também unia empresas, governos, universidades e fundações de todo o país para novas parcerias.

No Movimento Empresa Júnior, todos os estados contam com encontros anuais com 400 a 800 participamtes por evento. Já o ENEJ (Encontro Nacional de Empresas Juniores) é o maior e principal evento do movimento, tendo reunido cerca de 5.000 participantes por ano em cada edição. Detalhe, mesmo com inscrições pagas, as vagas para o ENEJ se esgotam na semana em que são lançadas.

No movimento para acesso à água em áreas rurais, também vemos um número crescente de encontros estaduais e nacionais promovidos por redes e organizações como ABES (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária), ASA, SISARs e Centrais. De 2017 para cá, os Encontros Nacionais de Gestão Comunitária de Água têm reunido por ano cerca de 300 participantes de 15 estados vindos de comunidades, ONGs, governos e empresas.

São esses encontros que permitem a interação, o olho no olho, os compromissos e o sentimento de pertencimento ao compartilhar histórias, aprendizados, sonhos e objetivos comuns. Neles que conquistas são celebradas, desafios comuns são tratados e o conhecimento é acelerado. 

Com o tempo, novos rituais e símbolos destes coletivos (bandeiras, hinos, gritos de guerra etc.) vão sendo criados e disseminados nos eventos, unindo e reforçando ainda mais suas identidades.

Nesse sentido, manter a consistência e periodicidade de encontros contribui para ampliar o tamanho, fortalecer a “cola” da identidade e a maturidade coletiva dos movimentos transformadores. 

A cada novo encontro seus membros têm a oportunidade de renovar sua missão e refinar suas estratégias com mais e novos integrantes, atualizando seu DNA cultural e coletivo. 

No terceiro e último texto sobre os a anatomia dos movimentos transformadores, veremos mais sobre o perfil e processo de formação de lideranças destes movimentos, assim como tendências e motivos para se investir nestes modelos como estratégias para gerar impacto. Fique ligado e até a próxima!

Rodrigo Brito

Empreendedor social, é gerente de Acesso à Água do Instituto Coca-Cola Brasil, cofundador e conselheiro da Aliança Empreendedora e da Iniciativa Emerge

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