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Marcus Nakagawa

Hoje é o dia do déficit ambiental mundial!

Marcus Nakagawa

Dia 29 de julho de 2019 é o dia em que nós entramos no “cheque especial” dos recursos ambientais do Planeta Terra. Você sabe o que isso significa?

O dia da Sobrecarga da Terra é um movimento realizado pela Global Footprint Network (GFN). Esta organização internacional mede a pegada ecológica das atividades humanas do mundo. No cálculo, entra a mensuração da área biologicamente produtiva necessária para suportar as necessidades de um indivíduo ou a população de uma dada região em termos de alimentação, fibras, produtos florestais, sequestração de carbono e área para infraestruturas. Neste cálculo, segundo a GFN, as emissões de carbono representam 60% da Pegada Ecológica da humanidade.

Ou seja, estamos falando do quanto estamos consumindo do meio ambiente e ele não está conseguindo repor. Imaginem uma prateleira de supermercado ou a caixa d’água da sua casa; você passa o tempo com uma determinada quantidade de produtos nesta prateleira ou de água; ao longo do ano, as empresas repõem os produtos, porém, você acaba consumindo ou desperdiçando mais rápido do que a empresa consegue repor. Então, chegará um dia em que sua prateleira ou a sua caixa d’água ficarão vazias. Se colocarmos esse exemplo fictício em um cronograma de um ano, a partir de 29 de julho de 2019, você ficaria sem o produto até o final do ano. No ano seguinte, a empresa começa a repor, mas se você continuar consumindo ou desperdiçando do mesmo jeito, este dia da sobrecarga chegará mais cedo.

O exemplo do cheque especial, que já citei em outro artigo, é importante mostrar que, a partir do momento em que a sua conta fica negativa, não haveria ninguém para repor o dinheiro nela. Neste caso, os bancos têm lastro e repõem cobrando altos juros por esta sua gestão.

O site do Overshooting Day apresenta as datas da sobrecarga conforme cada país, pois as necessidades, as culturas e a área biologicamente produtivas são diferentes. No caso do Brasil, a data desse ano é muito próxima à data mundial: 31 de julho. Mas, por exemplo, nos Estados Unidos essa data foi 15 de março e no Japão 13 de maio. Em países com a Indonésia será 18 de dezembro e no Uruguai 6 de novembro. E existem alguns países que não têm essa data da sobrecarga. Na figura é possível ver alguns países e suas datas.

Global Footprint Network/Divulgação

Segundo o GFN, desde 1970 existe a sobrecarga. Antes disso, conseguíamos “consumir” somente um planeta, com tempo para ele se regenerar e fornecer insumos ambientais para a sobrevivência e também éramos bem menos habitantes nesta época. Talvez aí esteja a grande dificuldade de entender o que é necessário e o que talvez seja demasiado.

Este pensamento varia culturalmente de país para país, de região para região. Mas o comum é que estamos usando mais planeta do que ele consegue repor. Este gráfico mostra este histórico mundial.

Global Footprint Network/Divulgação

Estamos precisando mais de uma Terra para poder atender as demandas de algumas sociedades, lembrando que existe muitas desigualdades sociais, econômicas, territoriais, tecnológicas etc. nos agrupamentos de pessoas dentro do planeta. E tem países e sociedades com muito e outros com nada ou quase nada.

Mas não só de divulgar catástrofe vive a GFN, ela sugere que conseguimos inverter a direção do cronograma realizando ações e atitudes mais sustentáveis. A organização comenta que se reduzíssemos 50% da emissão dos gases de efeito estufa a data caminhará para frente em 93 dias, por exemplo. Uma matéria da The Guardian de julho de 2017 mostrou que apenas 100 empresas são responsáveis por 70% das emissões do efeito estufa no planeta desde 1988. Neste texto são listadas as empresas e seus segmentos de mercado. Ou seja, se estas empresas se comprometessem, de verdade, com esta mudança já teríamos muito menos dias no nosso cronograma.

A Global FootprintNetwork e os seus parceiros chamam a população para mover a data (#MoveTheDate) e sugerem a mudança em cinco grandes soluções: energia, alimentação, cidades, população e planeta. E tem um site com algumas sugestões com base nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. 

No nosso Brasil, temos uma pesquisa de 2018, feita com 1.090 pessoas em 12 capitais e/ou regiões, pelo Instituto Akatu. Trata-se do Teste do Consumo Consciente (TCC), que verifica 13 comportamentos e atitudes dos consumidores mais ou menos conscientes. O estudo mostrou que houve um crescimento significativo no segmento de consumidor “consciente” saindo de 32% (2012) para 38% (2018). Mas ainda os mais conscientes, segundo a metodologia do Instituto, são ainda 24% desta amostra. Temos muito o que aprender com novos hábitos mais conscientes e sustentáveis.

No meu livro 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis, coloco alguns destes hábitos testados pela pesquisa e sugiro muitas outras ações de mudança de comportamento para que as pessoas tomem suas decisões e busquem atividades que levem em consideração o meio ambiente e a sociedade.

Muitos criticam as pequenas ações, pois talvez para mudarmos este cronograma da sobrecarga precisamos de políticas e programas mais estruturantes. Porém, as pessoas como consumidoras ou como tomadoras de decisões do seu dia a dia precisam deste conhecimento para reivindicar ou até escolher empresas e produtos mais sustentáveis e menos impactantes no meio ambiente.

Alguns negócios estão sendo criados exatamente para solucionar alguns destes problemas ambientais e sociais. Empreendedores de impacto socioambiental desenvolvem produtos e serviços para minimizar mitigar e, quem sabe um dia, terminar com este processo de agressão ao nosso ecossistema.

Entretanto, é necessário mudar o paradigma em todos as áreas das empresas, dos governos e das sociedades existentes. Mas antes precisamos sensibilizar e educar as pessoas juntas diminuam a sobrecarga deste planeta. E você, o que faz para diminuir a sobrecarga do planeta?

Marcus Nakagawa

Professor da ESPM e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (Ceds), é idealizador e diretor da Abraps e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida

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