Trajetórias de impacto em violência doméstica, proteção indígena e prevenção de suicídio vencem Prêmio Espírito Público

Premiação reconhece bons exemplos para inspirar um serviço público acessível, universal e de qualidade

Giovanna Reis
São Paulo

Um ex-seringueiro que atua na proteção de povos indígenas isolados na floresta, um médico idealizador de um movimento de conscientização sobre o suicídio e uma juíza dedicada a enfrentar o grave problema da violência doméstica no país.

Essas são apenas três de 18 trajetórias de dedicação ao serviço público selecionadas para o Prêmio Espírito Público 2019, que anuncia nesta segunda-feira (19) os vencedores de sua segunda edição.

Cada vencedor recebe o prêmio de R$ 10 mil e a oportunidade de participar de uma imersão internacional de aprendizagem e contato com o serviço público da Alemanha. Em setembro, os selecionados viajarão juntos a Hertie School of Governance, universidade de políticas públicas em Berlim.

As histórias premiadas, embora divididas em seis diferentes categorias, têm em comum a inovação e o impacto social, e transformam positivamente a vida de outros indivíduos. 

Dedicação e proteção à causa indigenista

Jair Candor, 59, trabalha há mais de 30 anos na proteção da floresta amazônica e de povos nativos que vivem sem contato com a chamada civilização. Enquanto seringueiro, tornou-se experiente na identificação de vestígios de indígenas isolados. 

Por conta de sua experiência, Candor foi promovido para coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena, que atua em duas áreas aterrorizadas por conflitos agrários na região noroeste do Mato Grosso. 

Embora pessimista em relação ao futuro da política indigenista brasileira, como disse em janeiro do ano passado à Folha, o vencedor do Espírito Público é referência internacional na causa de proteção dos nativos. Graças ao seu trabalho, foram salvos os últimos três Piripkura, impedindo a extinção completa do povo.

A sobrevivência dos Kawahiva do Rio Pardo, um grupo maior, também foi garantida pela atuação da equipe de mateiros coordenada por Jair. Foi possível também, durante as expedições, filmar os Kawahiva do Rio Pardo e comprovar sua existência, algo essencial à demarcação da área.

Foto de indígena Kawahiva, no Brasil, tirada em raro encontro com a Funai
Foto de indígena Kawahiva, no Brasil, tirada em raro encontro com a Funai - Funai

Assistência gratuita para combater a depressão

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é responsável por cerca de 1 milhão das mortes anuais. No Brasil, foram registrados 4.900 casos de adolescentes que tiraram a própria vida entre 2011 e 2016.

Sabendo do tamanho desse problema mundial de saúde pública, o professor e psiquiatra Fabio Gomes de Matos, 64, decidiu expandir seu trabalho e criar um programa que oferecesse ajuda gratuita para impedir suicídios.

Assim nasceu o PRAVIDA (Programa de Apoio à Vida), serviço gratuito que auxilia pessoas com transtornos psicológicos por meio da assistência terapêutica. 

Pioneiro no Brasil, o projeto —assim como seu idealizador— tornou-se referência nacional na área de prevenção à segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Educação como solução para a violência estrutural

Assim como o psiquiatra, a juíza Jacqueline Machado, 47, opta por ir além das atribuições do trabalho e demonstra uma perspectiva orgânica e sistêmica sobre a lei e a justiça brasileiras.

Ao perceber que apenas emitir sentenças punitivas a agressores que desrespeitam a Lei Maria da Penha não resolveria o problema estrutural e crescente da violência contra a mulher, ela buscou formas de solucionar a problemática do ponto de vista educacional e social.

Jacqueline passou a fazer parte do Projeto Mulheres Inspiradoras, estabelecendo parcerias com ONGs, institutos e órgãos públicos para que o programa chegasse a mais escolas.

Além disso, construiu uma parceria que oferece formação a mulheres vítimas de violência doméstica, o que as ajuda a atingir a independência financeira e, consequentemente, juntar forças para insurgir à repressão dentro de casa e permanecer vivas.

Um dos projetos destaque da juíza foi o Mãos EmPENHAdas Contra a Violência, que em 2018 ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. A iniciativa visa capacitar e transformar profissionais da área de estética e beleza em agentes multiplicadores de informação no combate à violência contra a mulher.

Mulher segura flor durante protesto contra violência doméstica em frente ao Ministério do Interior da Romênia, em Bucareste - Daniel Mihailescu/AFP

Com mais de mil inscrições, o processo seletivo organizado por Agenda Brasil do Futuro e Aliança —parceria entre Fundação Brava, Fundção Lemann, Instituto Humanize e República.org— precisou de um júri composto por 160 representantes dos setores público e privado, academia e terceiro setor para definir quais trajetórias de impacto positivo levariam o prêmio. 

Para Eloy Oliveira, diretor executivo da República.org, a premiação busca enaltecer trajetórias importantes ao serviço público que, muitas vezes, ficam invisíveis para grande parte da população.

"Visibilizar essas histórias é aproximar a população do serviço público, incentivar novos talentos a entrar na administração pública e inspirar os atuais profissionais públicos a fortalecer seu protagonismo na busca de soluções para os desafios do país."

Além dos R$ 10 mil para cada vencedor, no dia 28 de outubro —data da cerimônia de premiação— serão entregues R$ 20 mil adicionais para as trajetórias destaque, uma em cada categoria.

A lista completa dos servidores públicos ganhadores do Espírito Público pode ser conferida no site oficial do concurso. 

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