Três 'mosqueteiros' da cosmética criaram multinacional brasileira da beleza

Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, sócios da Natura, celebram trajetória de 50 anos de negócio que sobreviveu a 16 planos econômicos

Eliane Trindade
São Paulo

"Todo início tem sua força, independentemente dos recursos materiais e do sonho." É assim que Luiz Seabra, 77, resume o começo da história da Natura, nascida sob a sua batuta e inspiração há 50 anos.

Em agosto de 1969, era inaugurada a primeira loja na Oscar Freire, em São Paulo, onde os clientes eram recebidos por Seabra com uma rosa branca.

Após cinco décadas, a marca de produtos de higiene e cosméticos se tornou uma multinacional, com aquisição de ícones internacionais do setor como The Body Shop e Aesop, e faturamento de R$ 13,4 bilhões em 2018. 

Trajetória de sucesso trilhada ao lado de outros dois sócios, Guilherme Leal, 69, e Pedro Passos, 68, e celebrada com vários encontros e eventos ao longo do mês passado.

Na manhã de sexta-feira (30), o trio de fundadores falou sobre a construção e valores da marca, a sustentabilidade do negócio, inovação e futuro, antes da abertura da exposição "Rede de Afeto: os 50 Anos da Natura".

Com seus cabelos brancos, os "três mosqueteiros" da indústria da beleza no Brasil destacaram desafios e conquistas, revelando diferenças de personalidade e perfis complementares.

"Luiz é o filósofo. Guilherme é o ambiental. Pedro é o que sabe fazer, coloca de pé o negócio", resume Leal, durante bate-papo regado a brincadeiras e a nostalgia. Em seguida, no entanto, ele deixar claro que os sócios foram desconstruindo essa fragmentação de estilos em busca de um "pensar coletivo".

Leal chegou à Natura dez anos depois da abertura da primeira loja, a convite de Seabra. "Já existia a ideia poderosa de que a beleza é direito de todos", lembra.

A façanha da primeira década de vida, diz ele, era o negócio estar vivo no dia seguinte. "Já estava tudo pronto quando eu cheguei em 1983", brinca Passos. "O sonho já estava estabelecido. O modelo de negócio, também."

No tom festivo do encontro, ele diz que a dupla precisava de um engenheiro, no caso ele, que chegou com a missão de fazer a fusão de cinco empresas distintas e dar ao negócio sua feição atual, em meio a instabilidades econômicas e políticas de todos os tipos. "Foram 16 planos econômicos", elenca.

Entre 1994 e 1997, o tamanho da companhia quintuplicou. 

Nas primeiras décadas, a Natura crescia embalada pela força do empreendedorismo de seus líderes e de uma rede de consultoras que hoje são um exército de 1,7 milhões, uma potência da chamada venda direta.

Na década de 1990, a indústria de higiene e cosmético "made in Brazil" entra em sintonia com o movimento de uma sociedade civil que se organiza. Vem a Rio 92, quando sustentabilidade entra na pauta global.

"Agenda que se casa com nossas crenças de que o negócio tem que ser agente de transformação para além do lucro. Temos que cuidar da comunidade, do país e do planeta", diz Leal. "O mundo está derretendo."

Em 2014, a Natura se tornou a primeira companhia de capital aberto a receber a certificação B Corp, movimento global que reúne negócios que aliam o econômico ao social e ao ambiental com o compromisso de gerar impacto positivo no planeta. 

"Temos valores globais, mas a nossa origem é brasileira, ligada ao nosso patrimônio natural. Queremos ser universais contribuindo para a preservação da biodiversidade e da Amazônia", afirma Leal.

Segundo ele, um compromisso ainda mais firme diante das ameaças de retrocesso no Brasil. "Há maneiras de gerar riqueza e produzir protegendo a natureza e de maneira responsável."

NOVAS GEOGRAFIAS

Ao celebrar o jubileu, João Paulo Ferreira, presidente da Natura, ressaltou que a marca brasileira de expressão global, presente em mais de 70 países, precisa seguir inovando. "Iniciamos na última semana nossa operação na Malásia. A The Body Shop e a Aesop nos ajudam a entrar em outras geografias."

Uma história que foi traduzida em forma de teias na exposição "Rede de Afeto", que tem a curadoria de Marcello Dantas. Jogos de cordões, que remetem a redes e trapézios, passam a ideia de conexão e de alçar voos mais altos, explica o idealizador da mostra interativa em exibição na Fábrica da Natura Cajamar.

"Por favor, toquem em tudo. A exposição é um convite a brincar, a voos para o desconhecido, assim como fizeram esses visionários que criaram a Natura há 50 anos", diz o curador. 

Rede de afeto: 50 Anos da Natura - Fábrica Natura Cajamar - rodovia Anhanguera, km 30,5 - Cajamar - SP. Seg. a Qui.: 9h às 15h30 e Sex.: 9h às 12h. Necessário agendar visita pelo email visitas@natura.net. GRÁTIS.

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