Descrição de chapéu Dias Melhores

'Chuva é medo', diz moradora da zona leste de SP que sofre com enchentes há 28 anos

Região passa a contar com sensores da Pluvi.On, que vão dar alertas para minimizar perdas em razão dos alagamentos na área

Cristiano Cipriano Pombo Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

Moradora do Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo que sofre constantemente com as chuvas, Eliana Manotti, 57, está desanimada. Há 28 anos, ela convive com os alagamentos provocados pelas enchentes.

Sem perspectivas de melhoria na região, localizada em área da várzea do rio Tietê, a moradora relata teve que construir em cima da antiga casa e vive sem acesso à rede de esgoto.

Quando o céu escurece, o seu desespero aumenta. Se estiver fora de casa, tenta voltar correndo para tentar minimizar os danos que as águas sempre provocam. 

“Um dia, não consegui chegar em casa em tempo. Minha filha pequenininha, de sete anos, falou: ‘Mãe, a água tomou conta de tudo’", recorda-se. 

A região, próxima do Jardim Pantanal e da Vila Itaim, bairro que ficou submerso por 65 dias em 2018, passou a contar com uma estação meteorológica da startup Pluvi.on, fundada por Diogo Tolezano, 35, finalista do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2019.

Os sensores registram os dados e conseguem fazer a previsão mais específica para a área. Serão instalados mais 19 até o final do ano.  

O objetivo é avisar os moradores da previsão do tempo, com alertas mais precisos e com maior tempo de antecedência, em mensagens enviadas gratuitamente via aplicativo em celulares, tablets ou computadores.

Leia a seguir o depoimento de Eliana Manotti. 

A Escolha do Leitor está com votações abertas; conheça os finalistas e participe

Chuva, para mim, é medo. Enquanto outros dizem ‘Graças a Deus, vai chover’, aqui a gente chora, ainda mais se estiver longe de casa e ver que não é possível salvar nada.

Já perdi casa, móveis, sonhos, fotos e até hoje tenho um problema na perna, uma coceira que não passa e que eu sei que foi do contato com a água de chuva e esgoto. 

Ninguém sabe a sensação de acordar com a água invadindo sua casa, vindo por todos os lados, subindo mais de um metro. Nem sair de casa a gente consegue. 

Se eu soubesse quando iria acontecer, com antecedência, não teria perdido o que perdi, nem teria permitido que meus filhos tivessem sofrido tanto. 

[Com o aplicativo com a previsão sobre as chuvas], você, pelo menos, se previne. Eu mexo no celular, sei usar o computador, gosto de buscar informação. Por isso, sei que um recurso desse vai me ajudar muito. 

Minha história se perdeu aqui. Nasci e me criei nesse lugar. Hoje em dia, está ficando difícil  viver aqui. Qualquer chuva alaga tudo.  Por eu ter perdido minha casa, hoje não tem esgoto.

Não podemos ficar nessa situação. Vivemos em pleno século 21, mas antes tinha a fossa. Hoje, vou deixar o esgoto a céu aberto? 

Está cada vez pior. Estou desanimada, porque trabalhei tanto para conquistar um canto e, chegando perto da velhice, fiquei nessa situação.

Você está dormindo e, de repente, acorda com água na altura do joelho. Já tive que prender a geladeira na porta para que a água não a levasse nem a virasse.  

Não sabemos o que fazer com a casa antiga.  Quem vai querer comprar? Ninguém. E teve a nossa luta. Não foi fácil Eu até filmei... [Eliana começa a chorar].

A gente  tem de começar tudo de novo. Passei a ter pressão alta, tenho que tomar as aplicações na perna porque coça muito. Tenho que entrar na água [quando há enchente]. Usar bota não adianta nada. 

Na hora [do alagamento], é impressionante. A água sobe pelo ralo. Você não sabe para onde correr. Você tenta tirar uma coisa, tenta tirar outra. 

Quando você vê o céu escurecer, começa a correr. Onde você estiver, tem que vir embora. Um dia, não cheguei em casa em tempo. Minha filha pequenininha, de sete anos, falou: ‘Mãe, a água tomou conta de tudo’. Meu vizinho me ajudou.

Já enfrentei muitas enchentes. A primeira que eu me lembro de ter pegado deve ter ocorrido há uns 28 anos. Todo ano é esse sofrimento. E está piorando. Acho que nós não temos mais saída. Mexe, remexe, faz, monta, mas não adianta.

A chuva representa medo. Quantos daqui não dormem à noite? Quantos vão perder tudo? Quantos não vão poder trabalhar? E é isso direto.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.