'Foi um susto ver água correndo no vaso sanitário', diz sertaneja

Após perder filhos recém-nascidos, Maria Bezerra vê futuro melhor com casa doada pelos Amigos do Bem e primogênita na faculdade

Cristiano Cipriano Pombo Eliane Trindade Rodolfo Stipp Martino
Buíque (PE)

Quando Maria Bezerra Cavalcanti, 52, viu o grupo dos Amigos do Bem —que promove ações de inclusão e desenvolvimento social— chegar para ajudá-la em Muquém, um dos povoados rurais mais pobres do município de Buíque (PE), ela desconfiou e ficou bastante assustada. 

“De repente chega aquele monte de gente, vestido de branco, cantando. Nunca ninguém aparecia ali. Só político, vez por outra, em tempo de eleição. Mas não era época de votar”, recorda-se.

O estranhamento estava ligado a uma lenda urbana contada nos vilarejos mais pobres do interior de Pernambuco, que dizia que pessoas da cidade viriam ao sertão atrás de órgãos humanos e, por isso, poderiam raptar crianças e pessoas saudáveis.

“Nós pensávamos que era um papa-figo [ladrões de fígado] ou, então, era o pessoal da besta-fera. Mas não. Eles eram, realmente, anjos que Deus mandou para nós."

Agricultora como o marido, passavam fome junto aos filhos, não tinham água ou saneamento em casa e, para piorar, o pouco que plantavam muitas vezes se perdia devido ao clima da região, marcado por calor extremo, chuvas e muito frio.

“Para pegar água e encontrar um bom lugar para plantar, a gente andava 6 léguas, uma distância de 15 km a 20 km. A gente pegava o cavalo para ajudar a carregar a cabaça com 20 litros de água.”

A herança da seca e da miséria a fizeram perder quatro filhos recém-nascidos. “A gente não tinha médico, nem remédio. Então, qualquer febre era terrível.”

Maria foi convidada pelos Amigos do Bem para morar na Cidade do Bem, vila construída pela empreendedora social Alcione Albanesi, fundadora dos Amigos do Bem e finalista do Prêmio Empreendedor Social 2019.

A vida de Maria se transformou. Tanto que, depois de acessar a casa nova, voltar a estudar, ter acesso a médicos, ela é hoje responsável pelas famílias que vivem na Cidade do Bem do Catimbau, em Buíque (PE).

Abaixo, a sertaneja relembra sua trajetória antes, durante e depois das ações da ONG de geração de renda, educação de qualidade, promoção de saúde, substituição de moradias insalubres e oferta de água.

Trabalhar na roça é como um jogo, não se sabe se vai ganhar ou perder. A gente planta  e fica esperando Deus. Se chover, vai dar certo, e vamos ter o que colher. Se não chover, vamos perder tudo. 

Já passei fome. Houve um tempo em que eu chegava em casa e a comida que tinha era feijão com um pouquinho de farinha. Se bebesse água antes, não sobrava para tomar depois de almoço. 

É muito triste ver seu filho dizendo ‘Mãe, eu estou com fome’ e não ter o que dar para ele. Não tem coisa pior nesse mundo. Só quem já passou sabe como é. Toda mãe quer ver seu filho bem alimentado, cuidado. 

Eu perdi dois filhos gêmeos. Eu tinha que ficar de repouso para que eles vingassem. Mas não tinha condições financeiras. Não tinha como me alimentar direito. A comida era pouca. Estava uma seca muito grande, e eu terminei perdendo meus dois meninos por causa de necessidade e por fome.  Depois, morreu uma com quatro meses.

Hoje, tenho quatro filhos vivos. Posso dizer que tive uma gravidez digna da minha pequenininha, que está com oito anos. Eu soube o que era fazer um pré-natal, tomei as vacinas certinhas, e fui ganhá-la em um hospital, tudo da maneira certa.

No passado, muitas crianças nasciam, mas muitas morriam também. Hoje, nasce menos, mas elas sobrevivem. Antes, não tinha o medicamento, as crianças pegavam gripes pesadas e pneumonias.

Quando uma mãe via a crianças com febre alta, desnutrida, sem mais possibilidade de viver, já forrava um cantinho no chão. Colocava ela deitadinha e ficava esperando a hora de falecer. 

A morte ronda o sertão e onde há muita pobreza.

a casa nova

Antes, chovia dentro da casa, que era de barro, taipa. A primeira vez que eu vim para a casa nova, foi um sonho.  Estava bem arrumadinha, com cama forrada, sofá, TV, geladeira, fogão, panela de pressão, banheiro... Eu não sabia me movimentar dentro da casa nem usar as coisas que tinham.

Explicaram onde era a cama que eu iria dormir, mostraram o banheiro, como ligar o chuveiro, como puxar a descarga. Nós nos assustamos, com aquela água toda caindo no vaso. Vivemos tanto tempo numa seca e chega aqui com tanta água só naquele negócio.

A gente levou um tempo para acostumar com tudo aquilo. A panela de pressão também me assustava. Antes, tinha um foguinho de lenha e cozinhava em panela de barro. A cama era de vara e o colchão de palha. 

Por mais que eu fale, só Deus sabe o quanto os Amigos do Bem mudaram a nossa vida. Pude passar no médico pela primeira vez, vi meus filhos estudarem. 

Minha filha mais velha está terminando agora a faculdade. Isso é uma coisa que faz o meu coração disparar de alegria.

Eu também fui para a escola, aprendi a ler. Hoje eu pego um livrinho, já leio uma história. É maravilhoso. A assinatura na minha identidade era feita com o meu dedo. Eu queria assinar e consegui. Hoje até mando mensagens por WhatsApp.

Tenho o meu salário, meu esposo também trabalha. A minha vida e a de todos os moradores da Cidade do Bem mudaram  com os  Amigos do Bem. É uma transformação completa. 

Por isso a gente dá muito valor. Por isso montamos um museu aqui, e cada família trouxe um elemento da casa antiga. Isso nos lembra o quanto fomos fortes e o quanto podemos ajudar os outros, como fizeram com a gente.

Ainda ficamos assim com um apertinho por dentro, porque quem vive aqui tem familiares que ainda moram em povoados pobres e rurais. Por isso lutamos junto com os Amigos do Bem, que sempre levam uma feirinha [cesta básica de alimentos do mês], médico, dentista, oculista... Ao chegar lá, a gente revive tudo aquilo. 
 

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