'Nosso sucesso é um farol', diz dona de marca de produtos para cabelo afro

Sheila Makeda encontrou na Feira Preta, iniciativa finalista do Troféu Grão, a chance de se firmar como mulher de negócio negra e da periferia

Cristiano Cipriano Pombo Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

Para vender cosméticos para cabelos crespos e cacheados, Sheila Makeda, 42, diz ter encontrado uma chance de ouro em 2012: a Feira Preta.

O evento, que começou como uma feira de produtos de empreendedores negros, em 2002, virou um grande festival. Há produtos, serviços e conteúdos em diferentes segmentos do empreendedorismo, como tecnologia e literatura. E mais: motivou a empreendedora social Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e que concorre ao Troféu Grão, a criar o PretaHub, um plataforma que acelera, dá mentorias, organiza jornadas do autoconhecimento, realiza advocacy e trabalha para fazer o mercado, as grandes empresas e os consumidores enxergarem empreendimentos criados por negros. 

“Na Feira Preta, a gente pôde expor os nossos produtos para um público que era exatamente o nosso. Foi como um casamento perfeito”, afirma Sheila Makeda.

Seu empreendimento, a Makeda Cosméticos  —cuja irmã Shirley Leela, 45, é sócia— também participou do programa de aceleração AfroHub, um dos braços do PretaHub.

Assim, após ter entrado na feira com dois produtos (ativador e desumidificador) e uma cadeira para que o público pudesse experimentar o jeito Makeda de tratar os cabelos, a empresa de Sheila e Shirley tem 17 produtos de linha corporal e para cabelos, consolidou um público fiel e agora busca nova maneiras de se firmar ainda mais como um negócio indispensável e também atraente para quem trabalha com ele e o consome. 

“A gente brinca e até fala que somos as vegetarianas capilares, por não usarmos química agressiva, somente óleos vegetais. Makeda vem da Etiópia e é nome de uma rainha africana [a Rainha de Sabá]. Isso parecia impensável para duas negras, da zona leste de São Paulo, mas a gente sente que o nosso sucesso pode ser um farol para muitas mulheres que estão lutando para empreender e conseguir uma renda melhor para sua família.”

Abaixo, leia o depoimento de Sheila Makeda sobre como seu negócio mudou após a Feira Preta e o AfroHub.

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No Brasil, ser empreendedora, mulher, negra e periférica é um grande desafio. É realmente usar da força que nossos ancestrais tiveram para atravessar o mar grande.

Você vai ao banco e é olhada de um jeito diferente, como se não tivesse condições de ter uma conta lá. Você vai a uma feira de artigos e não é convidada para se sentar nos estandes, como ocorreu comigo e com minha irmã, que é minha sócia.

É estar em um ambiente e não sentir que pertence a ele, por não ter realmente acolhimento. É receber, em seu espaço, uma pessoa dizendo que gostaria de falar com a dona da loja. 

Todos os dias, então, você acorda e fala: “Hoje eu tenho que matar mais um leão”. 

A Makeda é uma empresa de cosméticos capilares para, principalmente, cabelos crespos, ondulados e cacheados de mulheres, homens e crianças.

O diferencial do nosso produto é ter uma maior quantidade de óleos vegetais. Antes de criar a Makeda, a gente pesquisou outros produtos e via que tinha um grande problema para encontrar algum que desse para o nosso cabelo o que ele realmente precisa. 

Não era só colocar um rótulo e vender. Queríamos que o cliente realmente gostasse. E é isso o que temos feito, propiciar uma experiência no uso de nossos produtos, um cuidado.

A Makeda nasceu em 2012 e naquele ano não havia mais vagas para a Feira Preta. Porém, depois, abriu uma, e a gente conseguiu participar. Foi tudo muito em cima da hora, mas não poderia ter sido melhor.

Lá, a gente pôde expor os produtos para um público que era exatamente o nosso, homens e mulheres negros de cabelos crespos. Então, foi o lugar certo na hora certa.

Naquele momento, na Feira Preta, pudemos trabalhar como a gente sempre quis, que era proporcionar uma experiência ao cliente. A gente o convidava para se sentar em uma cadeira e passava o produto. Ali, ele falava que tinha gostado e que era isso que ele queria.

Em uma feira assim, existe essa possibilidade de estar pesquisando o seu cliente de uma forma diferenciada, de ter contato com ele, de trocar experiências. Tinham tantos empreendedores negros lá. Tudo muito lindo.

Essa feira é de extrema importância. E, para nós, como empreendedoras negras, nos traz representatividade. Temos outros amigos e amigas empreendedores, e lá a gente faz networking. Conversamos sobre os nossos desafios, trocamos experiências e dicas de como acessar determinado serviços ou resolver uma questão.

E não é só a Feira Preta. Eu participei da aceleração do AfroHub, e foi incrível e enriquecedor. Nossa rede social melhorou, e a gente entendeu muito mais como é que se faz para chegar ao nosso público, além de nos trazer outros ensinamentos.

Tivemos a possibilidade de irmos ao Facebook, conhecer a plataforma de uma outra maneira e entender como fazer com que ela nos beneficie muito mais. Foram dadas aulas de como usar a ferramenta de forma muito mais eficaz. Nós usamos a plataforma a nosso favor, nos beneficiando com a tecnologia e a aproveitando para chegar mais rapidamente ao cliente final. 

O AfroHub nos empodera. Você vê outras mulheres lá também e há uma troca, uma conexão. Ele faz isso de despertar o nosso poder, e a gente o utiliza para crescer cada vez mais.

Uma coisa fenomenal que a equipe do AfroHub trouxe para a gente foi a questão do autoconhecimento, da história que não é contada, da riqueza do continente africano e de nossos ancestrais. Acho que isso é uma coisa que nós, principalmente negros, temos que trabalhar muito.

Nossa história é muito bonita. Nós passamos por muitas dificuldades, fomos criadas apenas pela nossa mãe [Sandra Silva de Oliveira] e fomos parar na rua quando meu pai deixou minha mãe.

Uma família nos acolheu, em Perdizes, e isso foi fundamental para nos dar uma base, por ter um lugar bom para morar. Mas já com 10, 13 anos, a gente já trabalhava, vendendo bolo, em fábricas e empresas de Perdizes [zona oeste da capital].

Temos uma fé muito forte, que vem da minha mãe. Ela olhava um lugar e falava que ali seria o salão dela. E batalhava e isso se tornava realidade. Então acreditamos que tudo é possível e não temos medo de enfrentar as dificuldades.

Foi assim que criamos o salão de belezas Arte Axé, em que atendemos a mais de 30 mil mulheres. Foi assim que saímos de Perdizes e fomos morar no Patriarca, na zona leste. A realidade é diferente, mas lá vimos muitas mulheres empreendedoras, buscando independência financeira.

E aí a gente se reconectou com toda a nossa história e a dos nossos ancestrais, da coisa do carinho, do cuidado. Como a Adriana Barbosa fala muito, do sankofa, do pássaro que voa para frente com a cabeça virada para trás, como que se reconectando com o nosso passado, nossa história. Isso causa um efeito cascata em nossas ações.

O salão surgiu de uma necessidade. Minha mãe tinha sido contratada para trabalhar numa empresa americana de cosméticos, e eu e minha irmã fomos contratadas também. Só que a empresa fechou. E foi aí que decidiu abrir o salão.

A gente abriu um salão na Itinguçú, na Vila Ré [zona leste de São Paulo]. Começou ali, com um espelho, uma cadeira. A gente queria crescer, mas tínhamos o desafio financeiro. Quando fechamos o salão, a gente teve que se reinventar.

Por isso digo que sempre fomos criativas para nos reinventar. Passamos pela Feira Preta, pelas acelerações, pelo Facebook, pelo Itaú, pela FGV, aprendemos muito, sobre nós e sobre os negócios, e agora mesmo estamos pensando em como expandir mais nosso empreendimento.

Vamos lançar uma plataforma digital e colocar no mercado as Makeda Terapeutas, que atenderão aos clientes em casa. Será uma operação em que todas ganham, cliente, prestadora de serviço e empresa, com empoderamento, empreendedorismo e impacto positivo.

E, ainda assim, esse é só mais um passo. Ainda vamos dar muitos outros.

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