Descrição de chapéu Minha História Dias Melhores

'O que o povo preto fez em 131 anos é revolucionário'

A designer e youtuber Ana Paula Xongani expõe na Feira Preta e integra movimento liderado por Adriana Barbosa, finalista do Troféu Grão

Naief Haddad Cristiano Cipriano Pombo Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

Ao comentar o atual movimento de empreendedorismo feito por mulheres negras no Brasil, a designer, empresária, youtuber e apresentadora de TV Ana Paula Xongani, 31, faz questão de lembrar a trajetória das gerações passadas.

Ela se mostra otimista e diz acreditar que sua filha viverá em país com mais possibilidades do que ela, sua mãe e sua avó tiveram. 

“Eu tive uma vida com mais oportunidades que a minha mãe, que teve mais que a minha avó, que teve mais que a minha tataravó. Se a gente for parar para pensar, a minha tataravó foi escravizada”, afirma.

Ana Paula, que é sócia com a mãe do ateliê de moda Xongani, na zona leste de São Paulo, participa desde 2010 como empreendedora da Feira Preta, festival de cultura negra, que apresenta conteúdos, produtos e serviços em diferentes áreas do empreendedorismo para incentivar e dar luz ao protagonismo negro.

Ela destaca que desde criança já frequentava a feira, que teve a sua primeira edição em 2002, capitaneada pela empreendedora social Adriana Barbosa —finalista do Troféu Grão no Prêmio Empreendedor Social 2019.  Segundo Ana Paula,  a iniciativa foi fundamental para o desenvolvimento do ateliê e continua sendo muito importante ainda hoje.

A Escolha do Leitor está com votações abertas; conheça os finalistas e participe

As negras sempre foram empreendedoras no Brasil, desde as quituteiras. Falar hoje sobre o grande momento do empreendedorismo negro e feminino no país é um reconhecimento dessa trajetória.

A gente vem discutindo e pensando como que essas mulheres estão empreendendo e os motivos, que são vários. E vou levantar dois deles.

O primeiro é que somos extremamente criativas e o potencial é muito grande. Fazemos isso há muito tempo.

O segundo é por necessidade. O país não nos absorve por causa do racismo estrutural, não absorve essas mulheres negras no mercado de trabalho.

Então, como alternativa, a gente empreende. Cria grandes negócios, muitas vezes com pouco recursos, estimulando a criatividade, inovando de formas absurdas.

Ser uma mulher preta e empreendedora no Brasil hoje é se opor ao racismo estrutural e, principalmente, fazer o reconhecimento da força de trabalho que sempre esteve presente na construção do país.

Sou otimista. Eu acredito que minha filha vai ter uma vida de mais oportunidades do que eu tenho. Eu tive mais do que minha mãe, que teve mais do que a minha avó, que teve mais do que a minha tataravó.

Se a gente for parar para pensar, a minha tataravó foi escravizada. Tem uma coisa que eu gosto de dizer que é: a escravidão “acabou” [Ana Paula destaca que são muitas as aspas] no papel há só 131 anos. É tudo muito recente. Eu ainda sofro com racismo. Minha filha também.

Mas o que esse povo preto fez em 131 anos é revolucionário. É inovação atrás de inovação. Eu consigo olhar as minhas gerações anteriores e ver, em cada uma delas, grandes saltos.

Eu sou filha de pais ativistas, superligados aos movimentos sociais. A primeira vez que eu fui à Feira Preta eu tinha uns 12 ou 13 anos. Acho que era na edição de abertura. Lembro-me de que minha primeira boneca preta foi comprada na feira.

Já fui acompanhada da minha avó, que hoje é uma senhora de 85 anos, e da minha mãe, que é uma sexagenária, como ela gosta de falar.

Essas três gerações já participaram e foram impactadas. Só que eu já sou mãe e cheguei a ir grávida para a Feira Preta. Fui com um barrigão. E, nos cinco anos seguintes, a minha filha foi comigo.

Costumo dizer que, para mim, é regra: Feira Preta, Natal e Ano-Novo fazem parte do meu encerramento de ano.

Minha primeira participação como empreendedora na feira foi em 2010. Lá, a gente entendeu que existia um mercado que estava carente, e que a gente poderia cobrir. Ali foi um estouro, até chegar ao Lázaro Ramos, que usou roupas que criamos no Mister Brau.

Hoje eu tenho duas empresas. Uma é o Ateliê Xongani, onde tudo começou, junto com a minha sócia, que é a minha mãe. É um lugar onde a gente, a partir da moda, promove conscientização racial, discussões, conversas. 

A outra empresa que eu tenho é a Ana Paula Xongani, que é de comunicação, de criação de conteúdos para a internet e muito mais.

A Feira Preta foi fundamental para o início da Xongani e é fundamental todos os anos para a gente entender o mercado em que a gente trabalha. Para compreendermos quem é nosso público consumidor, que o Brasil é vasto e que tem pessoas para consumir em diversos lugares. A feira faz essa reunião, essa união de pessoas.

Também é uma oportunidade de conhecer outros empreendedores e fazer colaborações, encontros entre as marcas. É um lugar de experimentação, de lançamentos de coleções, onde podemos conhecer, de pertinho, o público para quem a gente trabalha.

Em 2015, nós realizamos um evento só com youtubers negros na feira e foi um baita sucesso. É como se a feira recarregasse as baterias para encarar um ano de lutas.

Muitas vezes já me perguntaram quem é uma mulher negra que me inspira além da minha mãe. Eu sempre falo da Adriana [Barbosa, presidente do Instituto Feira Preta], porque acho incrivelmente lindo como ela é potente, como consegue articular e dar oportunidade para que tantas pessoas empreendam, e também o quanto ela é vanguarda nesse assunto. Ela parece uma maga na feira, sempre discreta, mas nunca vi ninguém falar e organizar como ela.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.