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'Sou uma pequena revolução no mercado de TI', diz programador da periferia

Jovem tecnólogo do Capão Redondo tem a primeira oportunidade de trabalho na área com a Carambola, finalista do Empreendedor Social de Futuro

Cristiano Cipriano Pombo Eliane Trindade Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

Israel de Souza Barbosa, 26, conhece bem a periferia de São Paulo. Ou melhor, as periferias da maior cidade do país.

Morador da região do Capão Redondo (zona sul), ele já viveu no Jardim Santo André (zona leste) e também em Guarulhos (na Grande São Paulo).

À parte de toda a violência que sempre rondou sua vida —tendo uma casa queimada e outra próxima do local onde criminosos exibiam "cabeças penduradas no poste”—, Israel sempre acreditou que os estudos o levariam para longe da criminalidade.

Assim, tornou-se tecnólogo em análise e desenvolvimento de sistemas, mas não conseguia trabalhar na área. Nem oportunidade de estágio lhe foi dada. 

Continuou a se virar em outros empregos braçais, mas sem desistir do sonho de trabalhar com TI (Tecnologia da Informação). 

A chance chegou com a Carambola, empresa de educação e tecnologia que inclui minorias no mercado de trabalho de TI. O negócio social é liderado por Gustavo Glasser, 35, que concorre ao Prêmio Empreendedor Social de Futuro.

Israel foi selecionado para fazer parte de uma equipe formada por três desenvolvedores. O trio se ocupa de um projeto real de um cliente corporativo por um período de seis meses e ao final pode ser contratado pelo cliente da Carambola.

Um dos desenvolvedores do trio é sempre de uma minoria —negros, LGBTs e pessoas portadoras de deficiência—, pois assim podem levar diversidade para empresas que contratam a metodologia criada por Glasser, a partir da própria experiência de homem transexual, vindo da periferia. 

“O que a Carambola está fazendo é algo muito importante para a sociedade. E está me proporcionando participar dessa pequena revolução no mercado”, afirma Israel. 

A seguir, leia o depoimento do tecnólogo.

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Eu nasci em Fortaleza, no Ceará, e vim para São Paulo com quatro anos. Já rodei por um monte de periferia, e atualmente moro no Capão. 

Sou formado em análise e desenvolvimento de sistemas e sou tecnólogo pela Uninove, mas nunca havia trabalhado na área de TI. 

Quando eu comecei a estudar, a ir para a faculdade, eu já corria atrás de estágio. Só que estava muito difícil, porque pediam por experiências mesmo eu sendo estudante.

Eu me formei e, ao longo de três anos, continuei tentando arranjar emprego na área, mas só consegui trabalhar em outros lugares, como auxiliar de produção, ajudante de caminhão ou atendente.

É difícil, porque o crime está presente o todo todo. E, até para resistir a esse assédio, eu trabalhei carregando caixa, limpando ambientes. Eram trabalhos braçais, de força, em que eu tinha que obedecer apenas. Não podia falar muita coisa.

E tinha que manter minha cabeça focada. Mas foi difícil. Minha primeira casa em São Paulo foi queimada e, depois de passar de casa em casa, fui morar num lugar ("Morro do Sabão") em que a casa era de barro e abaixo do nível da rua, insalubre. E tinha um poste que quase sempre tinha uma cabeça de alguém pendurada. Foi uma época dura.

O que é comum nas periferias, além da violência, é a falta de oportunidade. E, ainda que insista, você ouve o tempo que não vai conseguir, como se sua visão não pudesse ser ampliada, como seu fosse a viseira de um cavalo.

Eu estava desempregado fazia seis meses quando mandei currículo para a Carambola. Eu tinha em mente que deveria encontrar uma empresa que me proporcionasse a oportunidade de aprender trabalhando.

Eles me chamaram, eu vim no workshop e o Gustavo [Glasser, fundador da Carambola] falou sobre a vaga, sobre o mercado e como é que iria ser esse programa de seis meses.

O primeiro contato que eu tive com a Carambola me abriu a mente. Foi tudo o que eu estava esperando, o que eu sonhava para mim.

Todo dia eu tenho contato com alguma coisa novo. Já aprendi a ter mais empatia com as pessoas, a me comunicar melhor, a me portar melhor numa reunião, a me organizar.

Participo do primeiro trio da Carambola, sou front-end [programador], que trabalha com a parte visual e de design do site.

A Carambola está engatinhando, mas está no caminho certo, o de praticar diversidade e inclusão, porque na periferia falta muita oportunidade. Nas empresas em que trabalhei antes, eu não tinha expectativa de crescimento.  

Na periferia, a gente convive mais com a violência, tem um contato próximo com o crime, com o tráfico. É como se existisse uma bolha. Se você falar que quer estudar, parece que é ruim. Você tem é que trabalhar. Muitas vezes, sustentar a família, cuidar dos irmãos.

A Carambola está fazendo com que eu me torne uma pessoa melhor e, assim, consigo mostrar minhas experiências. 

Eu sei que minha história pode servir de inspiração para outros jovens, e eu quero muito poder dar palestras, dizer para as pessoas que é possível chegar ao topo, basta ter força e dedicação.

A Carambola está me proporcionando participar dessa pequena revolução que queremos fazer no mercado de tecnologia.

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