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Luís Fernando Guedes Pinto

As lições da pandemia para o desenvolvimento sustentável

O coronavírus escancara uma crise do planeta e da humanidade. Os impactos na saúde, na vida, na economia e nas emoções são brutais. No entanto, a pandemia nos faz recordar velhas lições, muitas esquecidas na rotina da vida e do trabalho. Algumas são básicas. Outras, tabu. São muitas e cada uma merece uma longa análise. Mas aqui resumo algumas que me chamam a atenção.

O mundo globalizado, conectado, interdependente. Um espirro na China reverbera em todo o mundo, concretizando a Teoria de Gaia. O mundo não tem barreiras, nossas fronteiras e limites são artificiais. Somos unidos pela natureza, pela internet e pelas pessoas; tudo em movimento.

Rios e biomas atravessam e conectam países e continentes. O oceano e a atmosfera são um só. Isso nos faz entender que o isolamento é inatingível e irreal e a cooperação, a colaboração e a multilateralidade são inevitáveis e necessidades para enfrentar questões globais comuns.

O papel do Estado, grande tabu. Na hora da crise, fica evidente a dimensão pública. Os interesses coletivos estão acima dos individuais e alguém tem que arbitrar esse jogo, garantindo direitos e oportunidades iguais para todos. A crise da gripe escancara este falso drama. Exemplo simples: quem sair da quarentena coloca em risco a saúde de todos. E aflora que são vários os papéis do Estado. Garantir saúde, educação, segurança, alimentos, emprego, renda, moradia, ordenar cidades, saneamento, transporte, etc. E como se paga esta conta? Vem o próximo assunto.

A gripe desnuda uma vez mais a desigualdade e a diversidade. As pessoas e populações mais vulneráveis precisam de mecanismos de inclusão e proteção permanente e em grande escala com urgência ou vão sempre pagar a conta. No caso do corona, idosos, indígenas e pessoas com saúde frágil precisam de proteção especial. Não é necessário falar muito dos pobres e daqueles que vivem em condições precárias de alimentação, higiene e saneamento.

Além disso, a garantia de emprego e renda é essencial não somente para a dignidade, mas para a segurança das famílias. A crise nos dá a chance de repensar coisas “fora de moda”, como as várias consequências sociais e emocionais da informalidade do emprego. Ao mesmo tempo, pode ser aceitável que pessoas acumulem bilhões e que bancos e certas empresas tenham lucros estratosféricos, mas se torna cada vez mais inconcebível que uma grande parte dessas fortunas não seja redistribuída para os desprotegidos da humanidade. ​

A ciência e a razão devem sustentar a tomada de decisão e as políticas públicas. E o avanço do conhecimento é um processo contínuo, permanente e de longo prazo. Não adianta lembrar-se da ciência quando o problema surge e pedir uma solução imediata.

A ciência deveria prever e evitar crises. E tem cumprido este papel, mas nem sempre é ouvida. As pandemias e a crise climática não são novidades. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) tem alertado sobre o clima faz décadas, mas ainda temos líderes globais que preferem não acreditar.

E a abertura de dados públicos e a transparência das informações são uma condição para a ciência funcionar. Conseguiremos combater a Covid-19 sem os dados da doença no mundo? Pois saibam que não conseguimos avançar em muitas áreas do conhecimento e das políticas públicas pela falta de abertura de dados e transparência de governos e empresas.

A destruição da natureza, a mega extinção de espécies, a redução da biodiversidade, as monoculturas e os confinamentos de animais colocam o mundo biológico em risco, aumentando a possibilidade de doenças que ameaçam a produção de alimentos e a saúde e a vida humana e de outras espécies. Isto foi muito bem exposto pelo meu colega e brilhante médico epidemiologista Eugenio Scannavino neste espaço dias atrás.

A crise também nos faz recordar da escassez dos recursos naturais e dos limites planetários. E nisso a quarentena pode nos ajudar, mostrando que podemos consumir menos, viver com menos coisas e tentando entender a origem e a qualidade do que comemos, vestimos, usamos.

O crescimento econômico prevalece em relação ao desenvolvimento nas políticas públicas e corporativas. A discussão sobre a gripe deságua na preocupação com o PIB, que ainda é o principal indicador dos humanos, mas que representa muito pouco da vida das pessoas na Terra. Enquanto estamos trancados em casa, pensamos sobre como desfrutamos da nossa vida, usamos o nosso tempo e quanto nos dedicamos às coisas que realmente importam.

O atual governo brasileiro está na contramão de tudo isso e deixa cada vez mais claro o seu descomprometimento com a dimensão pública, com a solidariedade e com a fraternidade, tão desejadas e necessitadas em um momento de aguda crise coletiva.

O constante enfraquecimento do Estado e das políticas públicas brasileiras de inclusão social e garantia de direitos sociais e ambientais ameaçam gravemente o nosso país. A lista de exemplos exige um novo artigo.

Luís Fernando Guedes Pinto

Engenheiro agrônomo do Imaflora, é doutor em produção de plantas pela Esalq-USP e membro da Rede Folha de Empreendedores Sociais

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