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Rodrigo Brito

Empresas e intraempreendedorismo atuando em prol da água

As lições de um empreendedor social na construção e ampliação de um programa de impacto social numa grande corporação como a Coca-Coca Brasil

Rio de Janeiro

Era Janeiro de 2017 e eu havia acabado de me mudar para um Rio de Janeiro que marcava 40° nos termômetros. Para quem morava em São Paulo e nasceu no frio de Curitiba tudo parecia derreter.
Além da mudança de temperatura, era a primeira vez que eu tinha um crachá corporativo, uma mesa com cadeira ergonômica e um ramal telefônico que até hoje não entendo.

Estava começando uma história junto à uma das empresas mais admiradas do mundo! Até então, sempre havia atuado como um empreendedor apaixonado e dedicado às causas do desenvolvimento e inovação através de organizações que co-fundei como Aliança Empreendedora, INK e Emerge. Organizações estas que atuam até hoje, cresceram e já impactaram mais de 130 mil pessoas no Brasil.

Se como empreendedor havia contribuído para o nascimento e crescimento de organizações de três a 110 colaboradores, em 2017 eu estava entrando na Coca-Cola, com 75 anos de atuação no Brasil e mais de 60 mil colaboradores no país. O desafio surgiu através de um diálogo com um parceiro diretor na empresa, e consistia em criar e implantar um novo programa para ampliar o acesso à água para comunidades em todo o país, um direito que ainda não é realidade para 35 milhões de brasileiros.

Se por um lado era incrível a experiência e aprendizado de empreender criando organizações, era enorme a curiosidade de fazer isto em maior escala a partir de uma grande empresa. Nesta época, a Coca-Cola Brasil já era referência em eficiência hídrica e devolvia 100% da água que utiliza em suas fábricas para o meio ambiente através de projetos ambientais. Atuar com acesso à água para comunidades em ampla escala e de forma sustentável era o próximo objetivo.

Após uma fase de diagnóstico e desenho (a várias mãos) com um conjunto de organizações com ampla expertise no tema, foi lançado em 22 de Março de 2017 (Dia Mundial da Água) o Água+ Acesso, que nasceu com o compromisso da Coca-Cola Brasil de investir R$10 milhões nesta causa até 2020.

Se no seu primeiro ano o programa beneficiou 15 comunidades de três estados, passados três anos do início desta jornada chegamos em 2020 com R$ 15 milhões investidos, 348 comunidades impactadas em oito estados, 15 organizações parceiras e 88 mil pessoas diretamente beneficiadas pelo país.

Para contribuir com a continuidade destes investimentos, o programa atua com as premissas tanto de fortalecer organizações da sociedade civil locais que já atuam no tema como de só apoiar e investir em iniciativas e modelos localmente autossustentáveis financeiramente.

Como sinto que ainda há pouco conteúdo sobre casos de intraempreendedores em grandes empresas, compartilho aqui um conjunto de aprendizados sobre este processo e jornada. Para intra-empreendedores, a primeira grande lição e surpresa que tive foi de perceber o quão falsa é a noção de que grandes empresas são lentas, burocráticas ou individualistas.

Até o momento só tive o prazer de trabalhar com gente empolgada, cheia de sonhos e energia em um ambiente que valoriza colaboração, empoderamento, curiosidade, inclusão e agilidade.
Outro ponto forte desta experiência é a bagagem e aprendizado em tantos temas de gestão e negócios.

Conhecer e se relacionar diariamente com diferentes equipes, marcas e mercados geram um repertório incrível de conhecimento aplicável a qualquer projeto. Também aprendi que, assim como um empreendedor precisa articular muitos parceiros, clientes e atores externos para tirar suas ideias do papel, em grandes empresas este esforço de articulação interna é também essencial para que as iniciativas ganhem apoio e relevância em uma estrutura com tantas áreas, projetos e prioridades em constante transformação.

Se por um lado a quantidade de alinhamentos e processos de aprovação pode frustrar ou apavorar empreendedores ansiosos, por outro sua ideia ou iniciativa fica muito mais rica e robusta por receber visões tão diversas.

Finalmente, assim como um empreendedor precisa continuamente aprimorar e inovar para se manter relevante junto aos clientes e ao mercado, em uma grande empresa esta inovação e melhoria contínua também é essencial para a relevância interna. Para as grandes empresas, atrair ou estimular a formação de intraempreendedores traz uma série de vantagens e desafios.


Se por um lado empreendedores estão acostumados a fazer muito com pouco, lidar com limitações, riscos e montanhas russas emocionais, por outro estes não lidam bem com muitos alinhamentos e aprovações, um processo que requer tempo, flexibilidade e adequações de ambos os lados. Outro aspecto importante para empresas considerarem é que empreendedores (as) são motivados a conceber e se dedicar a grandes missões e desafios que gerem impacto e realização pessoal.

Se por um lado esta característica traz muita energia e performance para novos projetos e negócios, por outro pode desestimular empreendedores se os ambientes forem de muitas rotinas, ambições tímidas ou escopos limitados.

Definir e alinhar objetivos e expectativas também é uma atribuição contínua tanto de empresas como de empreendedores. Atrair empreendedores para grandes empresas agrega redes de contatos e repertórios diferentes daqueles usualmente desenvolvidos pelas companhias, tornando sua percepção mais diversa e estratégias mais robustas perante públicos e atores-chave de outros setores.

No caso do Água+ Acesso, além da força da marca e expertise da empresa e do Instituto Coca-Cola Brasil, pude contribuir com meu knowhow, relacionamentos e reputação como empreendedor para formar a rede de parceiros que veio a iniciar e contribuiu para a rápida expansão do programa.

De lá para cá, meu interesse e curiosidade em aprender mais e impactar através do negócio me levaram a transição do Instituto para a área de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, onde sigo desde o fim de 2019 como o responsável por novas oportunidades e desafios relacionados à água na cadeia de valor da empresa.

Água é a principal matéria prima da Coca-Cola no Brasil e no mundo e, como nada a substituiu, ela é por si só um tema prioritário tanto pelos riscos como pelas oportunidades que temos de atuar de forma positiva com ela em cada etapa de nosso negócio e onde atuamos.

Se há 20 anos o foco era ampliar a eficiência hídrica em fábricas (índice que melhorou em 35%), desde então cada vez mais colaboradores tem atuado como intraempreendedores para ir além e gerar impacto positivo nas comunidades e bacias hidrográficas onde operamos.

Todo 22 de Março, Dia Mundial da Água, é uma oportunidade para celebrarmos os esforços destas e de tantas pessoas que atuam em prol da água, assim como um lembrete e chamado à ação e responsabilidade.

Que cada vez mais exemplos inspirem e mobilizem pessoas e organizações a agir de forma empreendedora em prol deste elemento tão precioso e central para os negócios, a vida e cada um de nós. Seja a onda que quer ver no mundo.

Rodrigo Brito

Integrante da Rede Folha de Empreendedores Socioambietais, é gerente de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, cofundador e conselheiro da Aliança Empreendedora e Emerge Brasil.

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