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Lucia Silla

Não abandonemos os que mais necessitam

Lucia Silla

A Covid-19 chegou no Brasil pelo topo da pirâmide populacional.

Houve um rápido espalhamento, sobretudo nas rodas da alta classe. Algumas mortes, inclusive, mas de forma relativamente rápida, nos enclausuramos nos nossos bem fornidos lares.

Bobeia, temos comida para muitos meses, já em casa. Lavamos a mão com água limpa, temos álcool gel e, se tivermos em nossa casa pessoas mais velhas temos como os proteger; podemos separar garfos, talheres, banheiros, quartos, com conforto.

Sem falar no que comemos e nos mil suplementos vitamínicos que estamos tomando ou obtendo da dieta. Acho que estamos relativamente protegidos, ou melhor, podemos nos proteger.

A curva de positivos vem subindo relativamente devagar e não estamos vendo uma Itália ou uma Espanha ou uns EUA por aqui. Daí a sensação ilusória de que a tragédia não vai acontecer. ​

Mas espere.

O coronavírus está chegando na população que não tem saneamento básico. Uma população carente de tudo, sobretudo de uma alimentação adequada e de água limpa.

A prevalência de doenças bacterianas, virais e microbianas em geral é altíssima nesta população, assim como as doenças degenerativas (cardiovasculares, pulmonares, diabetes etc.).

As hepatites virais C e B são endêmicas, assim como o citomegalovírus e os demais vírus da mesma família. Sem falar no HPV e no HIV. Há também o espectro impactante da tuberculose –o Rio Grande do Sul é um dos estados com mais casos no Brasil.

Imagina os esgotos a céu aberto ou não tratados.

Estudos com o SARS-CoV (ou com o coronavírus) da epidemia anterior mostraram que foi possível detectar vírus nas fezes por pelos 21 dias após o início dos sintomas.

Não por acaso, essas doenças são transmitidas também pela água.

Sem higienização das mãos, afastamento espacial das pessoas, separação dos grupos de risco ou dos infectados, boa alimentação, suplementação vitamínica (frutas, verduras, ovos, etc.) sem água limpa para beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa, o contágio é certo.

O que nós, que temos, podemos fazer? Fazer um grande mutirão junto aos abastecedores de água limpa para encher as caixas de água, de preferência semanalmente, de casas da população carente.

Podemos agir junto aos produtores de alimentos para distribuir alimentos saudáveis e perecíveis de forma consistente e pelo maior tempo possível.

Temos que fazer um esforço especial para que pacientes em tratamento de câncer sejam particularmente protegidos. Os oncologistas e associações de paciente como a Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) estão trabalhando intensamente para acolher as dúvidas e necessidades dos pacientes de todo o Brasil.

Cada um pode fazer a sua parte e estas instituições também precisam nossa ajuda para poder atender todas as demandas. Todos podemos de alguma forma nos envolver e ajudar, inclusive, com doação de sangue.

É preciso também recomendar o isolamento social aos quatro ventos. Por todos os canais disponíveis, sobretudo para as lideranças (sejam quais forem) das comunidades carentes.

Temos que tentar, de todas as maneiras, diminuir os danos. A pandemia pode ser (ainda mais do que já está sendo) avassaladora no nosso país.

Lucia Silla

Médica, é pesquisadora do CNPq e professora titular na Faculdade de Medicina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

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