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José Dias

O dia em que o ser humano descobrir sua verdadeira missão

​Vivemos uma crise, sem dúvida, nunca experimentada pela humanidade. O coronavírus tem não só destruído vidas como também supereconomias. É intrigante que algo tão pequeno tenha uma capacidade tão grande de destruição.

É momento, porém, de se manter a calma e, seguindo as orientações da OMS, alimentar a esperança de que essa pandemia irá passar. E, quando acontecer, precisamos estar unidos para reconstruir os sonhos e a utopia de que um outro mundo é possível.

Mas, diante do caos, uma indagação pode ser feita: o que há de errado nas populações? Nos sistemas que as envolvem? Sistemas estes criados para promover a governança.

As vidas são realmente as bases para as quais se justifica a construção das economias ou as economias são construídas a partir de relações por demais injustas, a ponto de gerar fragilidades durante um estado de calamidade como o que estamos vivenciando?

Nessa mesma ótica, ao surgir uma crise nas proporções dessa atual, como devemos lidar? O que é mais importante: socorrer as vidas que constituem a base econômica ou tentar salvar as economias que foram erguidas pelas vidas?

Ao analisar o sentido da existência e da sobrevivência humana é possível chegar à conclusão de que o mais importante é salvar as vidas que fundamentam a economia. Estas sendo salvas, podem posteriormente reconstruir o mercado. Mas há quem pense diferente, e talvez por isso a humanidade esteja vivenciando tanto sofrimento.

Nessa guerra contra a Covid-19, muitas lições têm vindo à tona. Muita criatividade tem surgido, a solidariedade tem sido experimentada por meio de muitos gestos e atos. Isso é um sinal importante e pode espelhar a nossa futura reconstrução.

Por outro lado, nota-se pelas reportagens recentes o quanto há de desigualdade social no Brasil. Infelizmente, em uma crise, a tendência é que os mais frágeis sofram mais, sobretudo se não buscarem formas coletivas de superação.

Do ponto de vista de ação coletiva, podemos nos espelhar na natureza. Quando ela tem que se regenerar, conta com a cooperação de todos que constituem o ecossistema, inclusive com a espécie humana, para não intervir desequilibrando o natural.

Podemos tirar lição desse processo natural, onde todos que cooperam para a reconstrução do ecossistema são importantes. Não há um mais importante que o outro, do maior ao menor. É a integração e a sinergia entre todos que permitem que o espetáculo da natureza aconteça com êxito.

Da mesma forma, o isolamento social terá êxito apenas se a maior parte das populações cooperarem, do maior ao menor. É o momento de se recolher em casa para, posteriormente, colher bons frutos, reconstruindo o que foi destruído, repensando as formas e relações sociais.

Com certeza o meio ambiente está agradecendo por essa pausa, por esse recuo necessariamente imposto. Em Veneza, por exemplo, já se vê nas águas o impacto positivo da redução do número de circulantes.

Após o término dessa grande pandemia,a vida precisará ser vivida com muito mais amor. As economias precisarão ser vistas como necessárias para aumentar a capacidade das pessoas de enfrentar os obstáculos que surgirem.

O que será mais importante a ser desenvolvido por meio da tecnologia, da ciência e de tantos outros seguimentos? Estrategicamente deve-se planejar um sistema de educação e saúde voltados à prevenção. Como muito bem diz o sertanejo:“não se deve esperar a cacimba (fonte de água) secar para posteriormente cavar uma nova cacimba, arriscando se dá ou não água”.

Será necessário uma participação mais efetiva das sociedades na reconstrução de suas histórias de vida. Será preciso repensar qual o real sentido da produção, da ciência, da educação, da tecnologia.Será necessário aproximar mais o discurso da prática.

A solidariedade, hoje tão presente nas iniciativas de pessoas, comunidades e empresas, também será algo imprescindível na reconstrução.

No Brasil, particularmente a filantropia precisa crescer, ter olhos para muitas experiências que vinham sendo construídas no horizonte da sustentabilidade e foram sufocadas pela crise. As empresas e as fundações necessitam se abrir a uma nova realidade, priorizando as iniciativas que já eram desenvolvidas.

As organizações da sociedade civil, que vinham trabalhando na construção de um mundo melhor, mais justo e fraterno, já estão sendo fortemente impactadas pela crise e, exatamente por isso, precisamde suporte para se reerguer e prosseguir com suas estratégias de ação para as causas defendidas e trabalhadas.

Tudo isso poderá acontecer na direção e no passo a passo do ser humano ir, aos poucos, descobrindo qual é sua verdadeira missão, para que veio ao mundo. Isso será significativo para futuras gerações.

José Dias

Formado em ciências econômicas, é coordenador e captador de recursos do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS). É empreendedor social da Ashoka e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

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