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Presos produzem 5 mil máscaras por dia e reformam hospital com 70 leitos para pacientes de coronavírus

APACs realizam confecção de máscaras e de EPIs, reforma de hospital e limpeza urbana

São Paulo

"Fiz mal a muita gente, agora posso compensar fazendo o bem", diz o ex-garçom Valmir Mendes, preso em uma das unidades prisionais da Associações de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac).

Condenado a 5 anos e 10 meses, por tráfico de drogas, Valmir, aos 40, é um dos 115 detentos do regime fechado da unidade prisional de Frutal (MG), que desde 6 de abril vêm confeccionando máscaras para ajudar no combate ao coronavírus. "A gente acorda às 7h e trabalha até umas 22h, para fazer 5 mil máscaras por dia", conta ele.

Voluntário confecciona máscara em máquina de costura
APACs realizam confecção de máscaras e de EPIs, reforma de um hospital e participa de limpeza urbana - Carol Coelho/Inovafoto

As Apacs são unidades prisionais humanizadas, sem armas ou guardas armados, que têm como missão a ressocialização do preso, por meio trabalho, assistência jurídica, mérito, e o princípio de "recuperando ajudando recuperando" –como os presos são chamados ali.

"Eu nem sabia que existia um lugar como esse no mundo", diz Valmir. Desde que foi transferido para a Apac, há sete meses, ele divide uma cela de quatro metros quadrados com nove detentos. Antes, passou um ano no sistema carcerário comum, em São Paulo, onde um espaço do mesmo tamanho abrigava 40 presos. "Vim do inferno para o céu", diz.

"Toda pessoa é maior do que seu erro", defende Valdeci Ferreira, diretor geral da Febac, federação que congrega as Apacs (Associações de Proteção e Assistência aos Condenados). "Por mais que tenham cometido delitos, nossos recuperandos têm a chance de responder à sociedade com solidariedade, nesse momento ímpar da humanidade", diz Ferreira, um dos empreendedores sociais integrantes da Rede Folha.

Na quarentena, a rotina mudou nas 51 unidades das Apacs espalhadas pelo Brasil. "O mais doloroso são as sanções das visitas, das famílias e dos voluntários dos projetos de educação e espiritualidade. Em um ambiente triste, sem ter o que fazer, só se pensa em coisa ruim", diz Ferreira.

Diante da dura realidade da falta de EPIs para os profissionais de saúde e para a população em geral, várias Apacs foram em busca de técnicas, insumos e parcerias para produzir máscaras.

Criou-se uma rede de solidariedade, envolvendo clubes como Rotary e Lions Cub Internacional, igrejas, empresas que doaram tecidos e máquinas de costura.

Atualmente, 400 "recuperandos e recuperandas", de 38 unidades, já confeccionaram cerca de 71 mil máscaras, que foram oferecidas para hospitais, asilos, presídios, agentes penitenciários, prefeituras, secretarias de saúde e de limpeza urbana, e utilizadas nas próprias Apacs.

Mulher com trajes hospitales trabalham confeccionando máscaras cirúrgicas
APACs realizam confecção de máscaras e de EPIs, reforma de um hospital e participa de limpeza urbana - Carol Coelho/Inovafoto

"Estamos seguindo todas as regras de segurança, lavando as mãos e usando máscaras", atesta Valmir.

Para o diretor da Fbac, o afastamento mínimo de segurança, recomendado pela Organização Mundial de Saúde, têm sido respeitado, dentro dos limites que a Apac impõe.

"Não há como manter o afastamento o tempo todo, porque há o período em que se fica dentro das celas. Mantemos o rigor máximo de assepsia nas mãos, os funcionários lavam o piso com água sanitária. Graças a Deus, até hoje (24 de abril), não registramos nenhum caso de Covid-19 entre os recuperandos", diz Ferreira.

Na mesma unida de de Frutal, no Triângulo Mineiro, uma equipe do regime semiaberto, com autorização para o trabalho externo, colaborou, de forma voluntária, com o mutirão da limpeza contra o Covid-19, realizado pela prefeitura da cidade, aos sábados.

A Apac de Imperatriz, no Maranhão, por sua vez, está confeccionando roupas de proteção, como aventais, para serem doadas a equipes de limpeza dos hospitais.

Voluntários vestidos de camisetas azuis se reunindos
APACs realizam confecção de máscaras e de EPIs, reforma de um hospital e participa de limpeza urbana - Carol Coelho/Inovafoto


Desde o dia 6 de abril, quinze recuperandos da Apac de Passos, no sul de Minas Gerais, estão trabalhando na reforma do Hospital Psiquiátrico Otto Krakauer, que estava desativado. A reforma vai trazer 70 leitos para receber pacientes de Covid-19 da cidade de Passos e Região.

Criada em 1972, a Apac já recebeu mais de 35 mil condenados pela justiça brasileira. O sistema alternativo hoje abriga 4.500 presos, nas 51 unidades pelo Brasil.

Mais 80 Apacs se encontram em diferentes estágios de implantação. O método, que está sendo aplicado em 21 países, resulta em uma média de 15% de reincidência –contra 85% no sistema prisional comum– ao custo de um terço do preço.

"Somos uma exceção em relação ao que se vê no sistema prisional comum, que está ainda mais crítico neste momento. São pessoas que estão sob custódia do Estado, precisam de um atendimento humanizado", diz Ferreira.

Para o recuperando Valmir, a quarentena se traduz na ausência das visitas da mulher e dos dois filhos, um menino de 12 e uma menina de 10. "Isolamento é não poder ver minha família", define. Mas não compromete os planos para o futuro. "Quando sair daqui, minha proposta de vida é mudar de vida. Não quero mais voltar para o crime", diz.

Saiba mais: fbac.org.br

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