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José Dias

Estamos cuidando da casa comum?

Vivenciamos uma guerra mundial, cujo inimigo é invisível.

O impacto da Covid-19 no Brasil e no mundo assume proporções gigantescas. No Brasil, o sistema de saúde está entrando em colapso em vários estados. Já são mais de 230 mil casos confirmados e mais de 16 mil vidas ceifadas.

O cuidado, por parte de algumas autoridades governamentais, não tem correspondido às expectativas e necessidades da população.

As orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), desde o início da pandemia foi o isolamento social, como forma de evitar o colapso no sistema de saúde, mas grande parte da população, incluindo autoridades governamentais, não tem levado a sério a ação destruidora do vírus.

Há muitas perguntas e incertezas. As principais são: onde surgiu o vírus, quando poderemos voltar à normalidade. Não se tem respostas seguras para estas questões. Há, inclusive, acusações entre países, sem provas.

Diante dessa crise sanitária mundial e de muitas perguntas e incertezas, arrisco levantar mais uma questão: estamos cuidado da casa comum?

É prudente e responsável que nesse momento de crise os cuidados se voltem fundamentalmente para as vidas humanas para que posteriormente essas possam cuidar e reconstruir o que foi destruído.

Mas, nesse período de quarentena, é importante refletirmos que sem o devido cuidado com a casa comum, o planeta, é praticamente impossível cultivar a cultura da vida digna, da vida em abundância.

Como está a nossa mãe terra? Como está a nossa mãe natureza? Há equilíbrio nos ecossistemas? Nos biomas? A biodiversidade vem sendo preservada ou fortalecida? Ou, a ganância de alguns, estimulada pelos modelos de produção poluidores e sistemas econômicos promotores de injustiças sociais tem levado a uma produção, pesquisa e industrialização sem ética, aonde impera a desigualdade social e o uso de pacotes de componentes químicos capazes não só poluir o meio ambiente, promovendo grandes devastações na biodiversidade, mas, também colocando à disposição das populações alimentos contaminados que podem enfraquecer o sistema imunológico dos consumidores, tornando-os muito mais vulneráveis ao ataque de bactérias e vírus.

Ao longo da história, tempos atrás, houve um vírus que surgiu do animal (suíno), outro da ave(frango). Talvez aqui residam muitas perguntas e muitas incertezas, ou até certezas não divulgadas. Como era o manejo desses animais? Alimentavam-se com alimentos naturais ou industrializados?

Certo dia eu tive um diálogo com um camponês que cria pequenos animais, mas, também criava alguns bovinos e, ele me contou o seguinte caso :“certo dia me dirigi a uma venda na cidade que vendia rações para animais e, lá procurei por alguma vitamina para engordar um boi que pretendia vender para o abate e, me foi orientado comprar uma ração de engorda, mas, o vendedor explicou: tão logo termine de dá a ração deve vender imediatamente o animal, porque se ele retomar as atividades pode morrer de infarto.”

O camponês recuou e não comprou a ração, temendo sobre o que estaria na composição dela para o processo de engorda.

Outro caso também relacionado à ausência de ética na produção. Certa vez um contabilista relatou que um de seus clientes que tinha uma fabriqueta de doce chegou até ele e falou sobre um avanço obtido no processo produtivo, alcançando a diminuição do custo de produção.

O contador perguntou ao cliente como havia conseguido esse avanço e ele destacou: “eu gastava uma quantidade de horas para o doce chegar ao ponto, mas descobri uma substância que diminuiu bastante o tempo, com isso consegui diminuir os custos com pessoal por quilo de doce produzido e, acrescentou, só tem um probleminha é uma substância que causa câncer”.

O contador assustado disse “você tem consciência que está criando uma legião de cancerígenos”? Ele respondeu, “eu não como do doce que produzo”. Nessa atitude, onde reside o amor pelo próximo, o cuidado com a casa comum?

Semelhante ao caso da fabriqueta de doce pode estar acontecendo situações nos cultivos agrícolas, nos quais são usadas toneladas e mais toneladas de agrotóxicos. Só no ano de 2019 foram liberados mais de 50 novos tipos de agrotóxicos.

Além da contaminação ao meio ambiente, os produtos ofertados no mercado contêm resíduos que vão provocando, aos poucos, doenças ou enfraquecimento do sistema imunológico dos consumidores, tornando-os mais vulneráveis a contaminação por vírus ou bactérias. Mas, se perguntado para alguns dos produtores se eles consomem o que produzem, provavelmente responderão que não.

Com o uso indiscriminado de agrotóxicos há um desencadeamento na mortalidade de microrganismos importantíssimos para o equilíbrio do ecossistema produtivo, mas, como esses não fazem parte da espécie humana, embora suas mortes causem impactos negativos, do ponto de vista ambiental e produtivo, mas, não vem sendo considerado, pelas autoridades, algo tão forte e significativo para a humanidade.

Por sua vez, devido ao desequilíbrio surgem pragas muitas das vezes incontroláveis, até que a indústria descubra um novo veneno, específico para aquela praga e, assim, tem continuidade o processo de desamor com a casa comum.

Talvez a ganância pela medida do obter cada vez mais lucros, que, como diz um ditado popular, “nunca enche” pode estar levando as civilizações a um estado de insegurança alimentar que, não significa que as populações estão passando fome, mas, que estão se alimentando mal, ficando desnutridas, desprotegidas, tornando-se mais vulneráveis como porta aberta ao surgimento de muitas doenças, difíceis de serem diagnosticadas, o que por sua vez leva um certo tempo para os pesquisadores da área de saúde descobrir medicamentos para a cura ou mesmo para chegar a sua origem.

A previsão que a humanidade pode se autodestruir é fato já anunciado por muitos estudiosos, a algum tempo, mas, há indícios, a parti das práticas e comportamentos, individuais e coletivos, que vem sendo adotados nas últimas décadas de que esse fato pode estar sendo antecipando.

É claro que muitos dos consumidores também não levam a sério essas questões, entretanto uma luz no fundo do poço começa surgir.

Parte da população já demonstra mais consciência e vem se tornando mais exigente, em relação à qualidade dos produtos a serem consumidos. Isso pode se traduzir em um movimento muito importante para promover uma nova consciência dos produtores e produtoras.

Já se registra a produção e consumo de produtos orgânicos ou orientados por princípios agroecológicos, em muitas partes do Brasil, mas ainda há muito que se avançar, houve pouco o quase nenhum incentivo nos últimos anos para iniciativas nesse sentido. Portanto, são necessárias medidas urgentes no sentido de estimular iniciativas sem poluição ou menos poluidoras, de forma a barrar o descuido com a casa comum.

Essas evidências nos levam a uma certeza: não estamos cuidando bem da casa comum. Há muitos desequilíbrios que podem estar influenciando ou potencializando as crises no horizonte da autodestruição humana.

Por exemplo, está sendo anunciada pelos estudiosos do assunto uma grande crise, em breve provocada pelas mudanças climáticas. Há inclusive quem afirme que essa próxima crise pode vir a ser superior a que estamos vivendo a partir do Covid-19.

Mas, há muitas pessoas, incluindo autoridades governamentais que não vem levando a sério esses anúncios, pelo contrário tem continuado com modelos de produção e sistemas econômicos que podem aprofundar o desequilíbrio ambiental, base originária das mudanças climáticas.

Mas, nem tudo é só tristeza, nem tudo é só descuido com a casa comum. Uma evidencia importante nessa crise mundial, principalmente aqui no Brasil, tem sido a forte incidência de práticas de solidariedade.

Registra-se um aumento significativo da filantropia no Brasil, tanto a partir de pessoas jurídicas como de pessoas físicas.

Claro que esse aumento da filantropia vem se dando a partir de uma causa emergencial, específica, mas, a esperança é que a crise gere uma nova consciência, nas pessoas e nas empresas, de modo que a cooperação possa continuar no período pós-pandemia, momento de extrema necessidade do exercício de solidariedade para o processo de reconstrução do que foi destruído.

Registro aqui, também, que desde 1985 o Centro de Educação Popular e Formação Social desenvolve um trabalho importante no âmbito da convivência com as adversidades do clima semiárido, na região da serra de Teixeira, na Paraíba. São feitos processos de formação cidadã e implantação de tecnologias socioambientais de captação e manejo de água de chuva, criação e fortalecimento de bancos de sementes crioulas, incentivo a criação de Fundos Rotativos Solidários, criação de pequenos animais etc., com a efetiva participação de camponeses e camponesas, tendo a agroecologia como fundamento metodológico.

Esse trabalho já impactou mais de 95 mil pessoas. No momento, as ações de campo estão paradas como forma de nos protegermos e também protegermos as famílias dos camponeses e camponesas.

Passado o período de quarentena iremos retomar esse importante trabalho, de grande valor no cuidar da casa comum!

Precisamos da sua colaboração. Acesse a página de doação em nosso site.

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José Dias

Formado em ciências econômicas, é coordenador e captador de recursos do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS). É empreendedor social da Ashoka e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

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