Descrição de chapéu Dias Melhores

Bordadeiras de Minas espalham bem-querer em versos durante isolamento

Herança cultural do Vale do Jequitinhonha se torna fonte de renda em projeto de amparo às comunidades afetadas pela pandemia

São Paulo

Depois da lavoura ou em festas comemorativas, os moradores do Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais, agrupam-se em roda para cantar. Ou melhor, “jogar verso”.

Alguém solta um trecho de um poema, que pode ser tradicional ou de improviso, e o refrão é cantado por todos no círculo.

Antes da pandemia da Covid-19, as rodas de versos eram apenas uma forma de interação durante o trabalho ou nas horas de lazer.

Agora, com as medidas de isolamento social, a herança cultural do Jequitinhonha se tornou ganha-pão numa região de vulnerabilidade socioeconômica na pandemia.

Bordadeiras do Curtume, comunidade do Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais
Bordadeiras do Curtume, comunidade do Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais - Érika Riani/Divulgação

Com a diminuição das ofertas de trabalho e de geração de renda, a ONG Ajenai criou o projeto Versinhos de Bem-Querer para ressignificar a tradição durante o período de isolamento.

Os versinhos das rodas são vendidos via plataforma online, a R$ 26 cada, e feitos sob medida, em regime home office.

Todo o dinheiro arrecadado é revertido ao fundo solidário do projeto, que atende as comunidades de Alves, Poções, São João dos Marques, São João de Baixo, Tocoiós, Curtume e Ribeirão de Areia, todas do Vale do Jequitinhonha.

Quem “joga os versos” são mulheres das comunidades, sendo que algumas delas fazem parte de outro projeto da Ajenai, o Mulheres do Jequitinhonha, que reúne bordadeiras e tecelãs da região.

Desde 26 de março, já foram vendidas mais de 1.500 composições. Entre elas, um versinho dedicado ao cantor Chico Buarque, encomendado por sua filha Helena Buarque de Hollanda.

A música foi cantada por Marli de Jesus da Costa, 40, bordadeira e jogadora de versos.

“A filha dele encomendou e eu cantei porque gosto dele, porque ele é uma pessoa agradável”, diz Marli.

Chico surpreendeu a bordadeira quando a enviou, em resposta, outro versinho:

“Durante a noite inteira

Escuto como quem sonha

A Marli bordadeira

Lá de Jequitinhonha”

E o cantor teve direito a uma tréplica de Marli:

“Bonito o Chico falou

Bonito eu vou responder

Um amor fora do outro

Faz o coração doer”

A bordadeira, que teve seu serviço reduzido devido à impossibilidade de se encontrar com suas companheiras, aprendeu a jogar verso com seus pais, quando ainda era criança.

Desde então, desenvolveu a habilidade de, no improviso, olhar, deduzir e versar sobre a personalidade de alguém.

“Aqui é assim, você olha para uma pessoa e já pensa como ela é, e aí versa”, explica.

Mas, com a pandemia, a leitura da personalidade precisou ser adaptada para o online. “Eles [doadores do projeto] mandam a descrição da pessoa, o jeito que ela é, daí eu transformo em poesia e junto com uns versos tradicionais.”

A base dos áudios cantados sob medida são os versos tradicionais do Vale do Jequitinhonha. Cada um deles tem um ritmo, e são usados de acordo com a personalidade homenageada. Se a pessoa é mais animada, vai ganhar um verso de ritmo mais alegre.

Marli tem cantado entre 20 e 30 versos por dia devido ao sucesso do projeto, e acha um trabalho prazeroso e divertido.

Quando chegou perto do Dia das Mães, ela se sentiu mais pressionada diante do aumento da demanda. Os pedidos eram tantos que a bordadeira chegou a cantar cem versos por dia.

“No mês das mães tinha muito pedido, então eu cantava quase o dia inteiro e parte da noite também”, lembra Marli. “E como são mães, os versos precisavam ser mais complexos, não podia ser qualquer coisa.”

Enviados por WhatsApp, os versinhos podem ser compartilhados para quem quiser ouvir. A ONG também lançou no Instagram o Roda de Versos, uma continuidade do projeto Versinhos de Bem-Querer.

A plataforma abriga uma roda virtual, na qual entra uma jogadora de verso por dia, percorrendo todas as comunidades atendidas. A ideia é também sair do Vale do Jequitinhonha, convidando outras regiões e até mesmo artistas a entrar na brincadeira.

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