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José Dias

É preciso ter diversidade para alcançar a igualdade

José Dias

Formado em ciências econômicas, é coordenador e captador de recursos do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS). É empreendedor social da Ashoka e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

A morte de George Floyd nos EUA aflorou um grito que estava sufocado na garganta não só de pessoas negras, mas de setores da sociedade que não mais suportavam manter-se calados, sem poder manifestar sua indignação e revolta diante dos inúmeros atos que demonstram não só discriminação racial, mas, acima de tudo, desigualdade social.

Certamente foi mais um ato de violência policial que se concretizou a partir de uma cultura com fortes elementos de discriminação racial, que não se expressa apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

Exatamente por isso as manifestações logo se espalharam globalmente, o que tende a crescer como um movimento social importante na busca de mudanças estruturais e políticas que possam diminuir esse mal ainda reproduzido.

São manifestações sociais importantes que, em dados momentos, podem ter se traduzido em atos violentos, mas, semelhante na morte de George Floyd e tantas outras, a violência certamente foi gerada pela ausência de diálogo, sobretudo no enfrentamento policial.

No momento de uma abordagem policial dificilmente há um diálogo que busque esclarecer o ato daquele que está sendo abordado. Os policiais são capacitados para o enfrentamento e, quando se trata de pessoas negras, esse enfrentamento tem maior rigor de violência.

A discriminação racial associada à desigualdade social é uma realidade triste e repugnante que exige mudanças no processo educacional e nas estruturas de poder, tendo como caminho iniciativas de diálogo que possam gerar convencimento acerca da postura de não descriminação racial, uma outra forma de ver nas pessoas de peles de cores diferentes o valor humano como essencial. Destaco aqui pessoas de peles, porque a cor é apenas um detalhe, todos integram a espécie humana e, assim, devem ser compreendidos e tratados com respeito, amor e igualdade de oportunidades.

Claro que levaremos décadas e talvez séculos para grandes mudanças, mas estas serão frutos, sem dúvida, da luta daqueles que aos poucos engrossam as fileiras e aumentam os gritos. Espalham a palavra de ordem que está presa na garganta contra as injustiças sociais e pela construção de um outro mundo possível, com equidade racial.

Arrisco-me aqui a fazer uma comparação e análise de tal modo a se perceber que essas diferenciações se dão em vários segmentos ou setores: no âmbito ambiental, econômico, sociopolítico etc.

Na parte ambiental, percebe-se que grande parte da sociedade não valoriza todas as espécies de árvores que constituem um ecossistema ou bioma, tende a valorizar mais as espécies de maior valor econômico, de maior utilidade para os negócios, árvores exuberantes.

Isso sem considerar que a sobrevivência destas depende de outras espécies discriminadas pelo seu porte, aparência, utilidade desconhecida etc. Eles não compreendem a importância da diversidade, do conjunto das espécies da floresta ou da caatinga, dependendo do bioma.

Essa má compreensão infelizmente influencia o desequilíbrio da biodiversidade, aspecto este que atua de forma negativa no equilíbrio ambiental e preservação da biodiversidade, como condição essencial para vidas no planeta.

No âmbito sociocultural também se encontra diferenciações absurdas. Muitas vezes frases importantes são proferidas por camponeses, garis, pequenos comerciantes, microempreendedores, mas estas não são valorizadas em razão da simplicidade que estas pessoas representam no cenário de poder. Mas, se estas mesmas frases fossem ditas por famosos, seriam elevadas e consideradas como grandes feitos, de reconhecimento para a história da humanidade.

Em outras situações, como em oportunidades de trabalho, é perceptível a influência da aparência, do porte físico, da idade, da cor na obtenção da vaga, em detrimento da capacidade de relacionar-se com o outro, de desenvolver a atividade, de agregar valor ao local de trabalho.

Reside aqui uma constatação que comprova, infelizmente, que o reconhecimento na sociedade em que vivemos se dá pelo poder, pelo status que assume determinada pessoa. Se essa pessoa for negra, terá ainda mais dificuldade para ter reconhecimento em relação ao que faz.

Todos esses são sinais de desigualdade social e racial, de oportunidade e de reconhecimento humano que precisam ser reparadas no processo de construção de um outro mundo, de tal modo que a valorização das pessoas não venha a se dar por status social, cor, gênero, sexo ou posição política, mas pela condição humana exercida em sua plenitude.

Deve ser valorizada a capacidade de se relacionar com outros, de reconhecer os dons, as capacidades particulares de cada um e, sobretudo, pela missão desenvolvida e pela contribuição à construção de um mundo mais justo e fraterno.

Isso significa estar atento e zeloso com o cuidar da casa comum, afinal somos muitas pessoas e muito diferentes, porém precisamos assumir, na prática, a condição de um só corpo, de um todo, a partir dos valores humanos, que devem sobrepor-se aos demais. Caso contrário, iremos nos perder no caminho de desenvolvimento da vida, promovendo desigualdades sociais e diferenciação racial.

É preciso buscar o ressignificado da espécie humana e desconstruir muitos valores desumanos que impedem a equidade racial, o respeito a diversidade, a solidariedade e a justiça social como pilares de uma sociedade democrática.

A partir da pedagogia de valorização da diversidade, o Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS), com sede no município de Teixeira (PB), desenvolve há mais de 30 anos um trabalho de promoção de melhores condições de vida a camponeses e camponesas do semiárido.

Nesse trabalho, feito com amor, dedicação e respeito à diversidade, adota-se a metodologia da escutatória para conhecer as reais causas de fragilidades no processo de desenvolvimento das comunidades e trabalhar, de forma coletiva, iniciativas que possam melhorar a qualidade de vida, com foco na captação e manejo de água de chuva para o consumo e para a produção de alimentos saudáveis.

Estamos precisando ampliar as fontes de financiamento para a continuidade desse importante trabalho. Nesse sentido, doações de pessoas físicas e jurídicas serão bem vindas.

Visite nosso site: https://cepfs.org.br/, conheça o trabalho desenvolvido e torne-se um doador. Sua atitude será muito importante para continuarmos com a missão de ajudar a quem mais precisa a encontrar caminhos de superação dos obstáculos com vistas a melhoria da qualidade de vida, com dignidade, amor, respeito ao próximo e igualdade.

“Muitas pessoas fazendo pequenas coisas em muitos lugares transformarão o mundo."

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