'Doação não é favor, é distribuição de renda', dizem especialistas em filantropia

Grandes e pequenos doadores fazem a diferença na pandemia, concluem participantes de webinário sobre o recorde de R$ 6 bilhões em doações em três meses

São Paulo

“Você é do tamanho daquilo que compartilha”, diz Luiza Helena Trajano, presidente do conselho do Magalu.

O engajamento da empresária e da família no combate a pandemia se deu por uma série de iniciativas e também pela doação de R$ 10 milhões. Logo no início da crise, o Magalu anunciou medidas para reduzir os impactos da Covid-19, como dobrar o auxílio-creche e conter demissões na empresa.

“Não demitimos ninguém, nem os que estavam para ser demitidos”, afirmou Luiza Helena, ao participar do webinário #ComoPossoAjudar?, uma correalização da Folha e do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com o apoio da Instituto ACP, Instituto Mol e Movimento Bem Maior.

O webinário conduzido pela jornalista Eliane Trindade, aconteceu na quarta-feira (8), reunindo especialistas de diversas esferas da filantropia para debater o desenvolvimento da cultura de doação no país –antes, durante e depois da pandemia.

Luiza Helena acredita que a pandemia abriu uma “fresta” para uma nova consciência em relação a filantropia.

“Sinto que as pessoas estão mais voltadas para si, reconhecendo o quanto judiam da natureza, o quanto vivem de modo acelerado, buscando uma transformação. Saímos da era do ‘ter para ser’ para o ‘ser para ter’”, disse a empresária, que também preside o Grupo Mulheres do Brasil.

“O brasileiro acordou e está percebendo doação como ato de cidadania”, avaliou Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS. Paula apresentou os resultados de uma pesquisa inédita, o relatório Giving Report Brasil 2020, que monitora a cultura de doação no país.

O estudo mostra que a percepção da população em relação ao trabalho das ONGs está mais positiva –74% dizem que elas “trabalham” bem” –e revela que os brasileiros estão mais propensos a doar.

“Um em cada cinco brasileiros está disposto a participar de campanhas, e sete em cada dez acreditam que a empresa em que trabalham deve apoiar a comunidade em que atua”, revelou Paula.

Ela destacou ainda que 43% das pessoas doariam mais se soubessem como o dinheiro é gasto. “É importante prestar contas”, pontuou ela.

“É preciso mostrar o destino do dinheiro para aumentar a confiança nas instituições”, acrescentou a especialista em finanças Nathalia Arcuri, criadora da plataforma Me Poupe!. “O povo brasileiro já poupa pouco e se sente prejudicado pela corrupção e pela questão tributária. A transparência é fundamental para que a doação deixe de ser vista como gasto, e sim como participação social.”

Rodrigo Pipponzi, fundador da editora Mol, que publica a revista "Sorria, vendida em uma rede de drogarias com renda revertida para causas sociais, concordou que é preciso “simplificar as prestações de contas, tornando-as mais didáticas”.

Para Pipponzi, que venceu o Prêmio Empreendedor Social 2018 com a iniciativa que já reverte mais de R$ 35 milhões em doações, a pandemia fez o Brasil entrar em uma “nova era da filantropia”.

“Acabou o conformismo com a desigualdade. Doação não é favor. É exercício de cidadania, é distribuição de renda”, defendeu.

Eugênio Mattar, diretor presidente da Localiza e co-fundador do Movimento Bem Maior (MBM), que captou mais de R$ 5 milhões em um mês, na pandemia, relembrou o significado da palavra compaixão: “É a dor que nos causa a dor alheia. Como ser rico em meio a miseráveis? Como ser feliz em meio a infelicidade?”.

“Nossa responsabilidade é do tamanho do nosso privilégio”, disse Pipponzi, citando uma frase da empresária Natalie Klein, fundadora da NK Store e herdeira das Casas Bahia.

Pipponzi chamou a atenção para as novas tecnologias que vêm facilitando o ato de doar. Citou as lives e o QR code, que permitiram a realização do “Festival Sorria” que, em 12 horas,captou R$ 125 mil em prol de organizações na linha de frente do combate à Covid-19.

Paula Fabiani mencionou o movimento denominado 1%, em que se doa 1% de renda, tempo, produto, lucro. “São as microdoações que fazem a diferença.”

Adriana Barbosa, diretora da Preta Hub/Feira Preta e líder do edital Éditodos, com foco em empreendedorismo negro, destacou a “descentralização” na maneira de organizar as doações.

“Você pode criar sua própria campanha e captar recursos”, disse. “Mas é preciso que haja um recorte de raça”, sublinhou, lembrando o movimento Vidas Negras Importam, que ganhou força paralelamente a pandemia.

Mattar se mostrou otimista com o futuro da filantropia. “Há um esforço colocado na cultura de doação, que deve se perpetuar, pois a crise escancarou não apenas a desigualdade social, mas a nossa relação de interdependência”, acredita o empresário.

“É um caminho sem volta. A pandemia mostrou que não dá mais para pular as mazelas e seguir a vida. A filantropia engatinhava, agora começou a andar. Foi dada a largada!”, afirmou Pipponzi.

Para Luiza Helena , o grande salto será quando as iniciativas alcançarem, cada vez mais, a esfera das políticas públicas. “O SUS é o melhor sistema de saúde do mundo. Precisamos nos unir, sem ser no grito, para dar um salto maior”, finalizou a dona do Magalu. "Um dos pilares da igualdade social são as políticas públicas​."

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