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José Dias

O que se compreende por inovação social?

José Dias

Formado em ciências econômicas, é coordenador e captador de recursos do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS). É empreendedor social da Ashoka e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

Nos últimos anos, ouvimos falar muito sobre o tema inovação social, algo muito presente principalmente nas iniciativas do terceiro setor. Mas, afinal, o que se entende por inovação social?

Trago aqui uma abordagem não teórica, voltada para o marco prático da vida das camponesas e dos camponeses.

Nesse contexto, inovação social pode ser compreendida como uma mudança em determinada iniciativa, de cunho social, cujo objetivo principal é melhorar a eficiência no atendimento das necessidades, com menos custos, menos tempo, mais sustentabilidade etc.

Criança ao lado de cisterna construída com a orientação do CEPFS, em Teixeira (PB). O CEPFS desenvolve tecnologia sociais que fomentam o desenvolvimento sustentável do sertão da Paraíba - Renato Stockler/Folhapress

Por exemplo, no caso da captação e manejo de água de chuva, uma inovação social pode estar na tecnologia da construção da cisterna, mas também pode estar no processo de mobilização das famílias para se apropriarem da iniciativa que está chegando para melhorar as condições de vida, no processo de formação, no manejo da água captada.

Um exemplo prático de inovação social está no trabalho desenvolvido pelas famílias camponesas, a partir do apoio do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS), na dinâmica dos Fundos Rotativos Solidários.

A diversidade de iniciativas (necessidades) que estão sendo apoiadas pelos Fundos Rotativos Solidários é significativa e nasceram ou nascem da flexibilidade existente na dinâmica e no processo de gestão onde os próprios integrantes decidem quem e como deve receber apoios para enfrentar as dificuldades que estão sendo vivenciadas.

O aspecto talvez mais interessante da dinâmica é que as decisões são tomadas pela comunidade ou grupo apoiado. Esta ou este tem um poder real e se responsabiliza solidariamente pelo cumprimento das decisões tomadas. É o grupo (ou a associação, de acordo com os casos específicos) que se responsabiliza pela gestão do fundo: recebimento das devoluções, compra do material, seleção ou sorteio dos beneficiados, discussão dos casos de inadimplência, entre outras responsabilidades.

“Não se pode afirmar que não há nenhum problema —a aprendizagem da democracia não se faz do dia para a noite –mas, na maioria dos casos, o sistema funciona relativamente bem, e há um número significativo de casos que são realmente exemplares”.

Essa lenta aprendizagem da tomada de decisões de forma democrática é um passo importante para a organização da comunidade e o exercício da cidadania. Por isso, os Fundos Rotativos Solidários têm efeitos políticos mais profundos; os agricultores e agricultoras vão se descobrindo e firmando ou ampliando sua capacidade de construir saídas para os desafios que enfrentam por conta própria. Sem depender de “favores”, eles ganham o empoderamento que, em alguns casos, resulta em autonomia e autoconfiança, primeira condição para o sucesso de iniciativas mais ousadas.

Essa dinâmica resgata a dignidade dos agricultores que passam a entender que não devem ser considerados como “esmoleiros”, mas sim como cidadãos com plena condição de conduzirem seus próprios destinos.

Ao contrário, nas condições habituais do crédito bancário, estão em situação de inferioridade, submetidos a exigências burocráticas, por eles identificadas como “humilhação”. Sem contar que, no banco, os agricultores e agricultoras são submetidos a pagar por tecnologias, em formato de “pacotes” geralmente inadequados às suas possibilidades e lógicas financeiras.

É com essa abordagem que o Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS) atua no semiárido da Paraíba há 35 anos.

Na dinâmica dos Fundos Rotativos, dados monitorados apontam que, no período de 2003 a 2018, 38 experiências de Fundos Rotativos Solidários existentes nas comunidades rurais dos municípios de Teixeira e Cacimbas movimentaram um valor de mais de R$ 650 mil, beneficiando 985 famílias por meio do apoio a 214 tipos de necessidades. É uma experiência que gera empoderamento social, autonomia e capacidade de gestão das famílias de agricultores e agricultoras.

Necessitamos de novos parceiros e financiadores para ampliar esse importante trabalho. Visite nosso site www.cepfs.org.br, conheça nosso trabalho e se torne um doador. Ajudem-nos a continuar com a missão de promover o empoderamento daqueles que mais precisam.

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