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O que gera efeito no processo produtivo: o capital ou o trabalho?

José Dias

Formado em ciências econômicas, é coordenador e captador de recursos do Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS). É empreendedor social da Ashoka e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

Ao longo da história da economia, muitos especialistas têm desenvolvidovárias respostas para a seguinte indagação: o que efetivamente promove o efeito no processo produtivo, o capital ou o trabalho?

Analisemos o processo produtivo das abelhas. Na produção do mel, elas são sábias e respeitam o limite dos recursos naturais, produzem o suficiente para a segurança alimentar e nutricional do enxame na colmeia.

Elas retiram das plantas a matéria prima para a produção e, em troca, desenvolvem a polinização desencadeando naturalmente uma ação de geração segura de várias espécies de frutos no processo produtivo.

O ser humano, ao descobrir essa riqueza na natureza, passa a cultivar abelhas e investir capital no processo produtivo desses insetos com o objetivo de ampliar a produção e gerar alimento e renda.

Sabendo dessa apropriação, quem é o produtor do mel ao final do processo produtivo, as abelhas ou o apicultor?

Evidentemente que foram as abelhas. O cuidar das abelhas pelo apicultor ou apicultora, incluindo o capital, incrementa o processo produtivo visando ampliar o resultado, mas de nada adiantaria o investimento sem a ação das operárias.

Certa vez, conversando com um apicultor, ele destacou: “vou juntar o mel que vou produzir este ano e mandar todo para São Paulo, lá tem um preço bem melhor”.

Na oportunidade, brinquei com ele: “não compensa pra quem? Você fala em relação a seu trabalho ou ao trabalho das abelhas?”

Analisando a atitude desse apicultor, que foi formulada a partir de sua cultura,portanto, influenciada pelo modelo de produção tradicional, percebe-se que ele destaca o efeito, ou seja, ele se apropria do belíssimo e qualificado trabalho das abelhas e, considera o efeito, resultado, apenas, como fruto de sua ação no processo produtivo, incluindo o investimento de capital que fez.

Em segundo lugar, ele não compreendeu na essência a lição dada pelas abelhas em relação à finalidade da produção: segurança alimentar e nutricional do enxame na colmeia, alimentação do ciclo da vida.

Com certeza ele também não conseguiu enxergar o rico processo de relação de troca das abelhas com as plantas, no processo produtivo. Na medida em que coletam matéria prima para o mel, elas desenvolvem o processo de polinização, essencial a um bom resultado na produção.

Há, portanto, um rico processo de cooperação, fundamental para gerar uma diversidade de frutos essenciais para a continuidade das espécies, no horizonte da sustentabilidade. Isso significa alimentar o ciclo da vida, não só em relação ao alimento propriamente dito, mas, também no tocante à diversidade de frutos gerados nas relações de cooperação que ocorrem no processo.

Ao invés de trabalhar uma perspectiva de consumo local, segurança alimentar da comunidade, ele é atraído pela armadilha do mercado e entende ser melhor abastecer outra região que oferece melhor preço, por considerar que o valor ofertado localmente é injusto em relação ao seu trabalho. Talvez por compreender que esse é o caminho mais fácil e rentável para ele.

Essa é, sem sombra de dúvida, uma armadilha do modelo de produção e da economia que vem sendo cultivada ao longo da história. A produção que recebe maior apoio financeiro, infelizmente, não se volta para o abastecimento local, à segurança alimentar e nutricional dos envolvidos nos processos, como ocorre na produção natural das abelhas.

Dependendo da visão e do compromisso sociopolítico e econômico de quem está investindo, a produção pode ter a finalidade de alimentar os ciclos da vida ou pode se traduzir em iniciativas geradoras de desigualdades sociais gritantes, principalmente para com os que desenvolvem a força de trabalho.

Um exemplo muito forte está no agronegócio, cuja produção está majoritariamente focada no mercado das commodities, por meio da exportação. Embora gere riqueza, esta se concentra nas mãos de poucos e o custo ambiental e social é muito alto.

Algo que se aproxima da ação natural das abelhas reside na agricultura familiar responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no Brasil.

Entretanto, nos últimos anos, esse importante seguimento da produção brasileira não tem tido a devida atenção, zelo e investimento por parte do setor público.

As políticas públicas conquistadas com muita luta pelos agricultores e movimentos sociais infelizmente foram desconsideradas, desmontadas e, na contramão, o agronegócio foi fortalecido, como caminho eficaz para o desenvolvimento do país.

Como consequência, o desmatamento aumenta de forma assustadora, em todos os biomas, agravando o cenário da crise ambiental gerando, inclusive,insegurança perante os investidores e a cooperação internacional a programas ambientais.

Em outra perspectiva, a agricultura familiar é desenvolvida por iniciativas que se assemelham a ação das abelhas, em razão de várias características: primeiro a força de trabalho empregada é da própria família, portanto, é valorizado igualmente o capital financeiro investido.

Com outra dinâmica processual, na agricultura familiar há um rico e histórico processo de troca de experiências na esfera horizontal que qualifica constantemente as iniciativas, gerando efeitos positivos nos âmbitos ambiental, social, político e econômico.

Há, portanto, um rico processo de aprendizado, solidariedade e exercício da cidadania, algo fundamental na perspectiva da governança participativa e construção de experiências com indicadores de sucessibilidade, muito relevantes para a sustentabilidade.

As experiências dos agricultores experimentadores são compartilhadas, gerando possibilidades reais de serem reaplicadas em conformidade com a diversidade de realidades dos mais variados territórios existentes no país.

Com o processo contínuo de aprendizado dos agricultores registra-se um expressivo e importante crescimento na cooperação com a natureza, seja por meio de experiências de produção orgânica ou por iniciativas agroecológicas, através das quais o respeito pelos ciclos naturais é um caminho adotado não só pela busca do efeito financeiro, mas na perspectiva de retribuir o equilíbrio e a diversidade de espécies, aspecto esse de fundamental importância no âmbito existencial dos ecossistemas e biomas.

É com essa abordagem e perspectiva que o Centro de Educação Popular e Formação Social (CEPFS) atua há 35 anos no semiárido da Paraíba, educando a serviço da vida e da esperança.

Garoto mexe com água, na sua casa, em Teixeira (PB), região atendida pelo CEPFS (Centro de Educação Popular e Formação Social) - Renato Stockler/Folhapress

É um trabalho de formiguinha que também se assemelha à ação das abelhas, mas que já gerou importantes resultados para centenas de comunidades e milhares de famílias de agricultores de base familiar, no semiárido da Paraíba.

Precisamos não só continuar esse importante trabalho como também ampliá-lo.

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