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Anamaria Schindler

Prontidão para a mudança

Por que precisamos formar crianças e jovens transformadores

Anamaria Schindler

Socióloga e membro do grupo de liderança da Ashoka global.

Desde o início da crise pandêmica, quando ainda se ousava falar em “histeria”, empreendedores sociais de todo o país se mobilizaram para prestar ajuda a pessoas, comunidades e territórios em situação de vulnerabilidade.

Redefinindo prioridades de organizações da sociedade civil ou criando novas iniciativas para atender à urgência, esses empreendedores não se furtaram a fazer o que deveria ser feito: defender a vida e garantir os direitos de grupos desamparados que viram sua situação de exclusão social se agravar ainda mais.

Mas, afinal, o que leva essas pessoas a perceber que elas podem subverter a lógica de um sistema desigual? E como elas colocam em prática ideias que desafiam as regras do jogo?

Há quarenta anos, a Ashoka vem construindo uma rede brasileira e internacional de empreendedores sociais, lideres em inovação e impacto social. Ao longo deste período, identificamos padrões. Um dos mais importantes é que empreendedores sociais não trabalham sozinhos.

O sucesso deles depende de mobilizar pessoas que irão questionar a sociedade e seus próprios destinos. João Souza é um deles. Cofundador do Fa.vela, ele se dedica a acelerar projetos e negócios de moradores de comunidades.

Equipe do Fa.vela em Belo Horizonte
Equipe do Fa.vela em Belo Horizonte - Matheus Cândido/Divulgação

​Segundo a Pesquisa Favelas Brasileiras, realizada em dezembro de 2019 pelo Instituto Data Favela, Locomotiva e a Central Única de Favelas (Cufa), 35% da população das favelas brasileiras (ou 4,8 milhões de pessoas) querem empreender. Mais da metade delas pretende montar um negócio na própria comunidade, aumentando a diversidade e a densidade da economia local.

A Covid-19 levou o Fa.vela a transformar seu programa de letramento e formação empreendedora, que era predominantemente presencial, em uma experiência digital com enfoque na digitalização de seus negócios e processos.

Outro padrão recorrente entre os empreendedores sociais é o compromisso com mudanças sistêmicas que influenciem políticas públicas, práticas de mercado ou alterem comportamentos sociais para o bem de todos.

Joaquim de Melo, diretor-presidente da Rede Brasileira de Bancos Comunitários (RBBC), encarna esta missão desde 1973, quando a Prefeitura de Fortaleza desalojou 1.500 famílias de uma área na zona costeira da capital.

Removidas para um terreno sem água, eletricidade, escola ou posto de saúde, as famílias decidiram urbanizar o bairro em mutirão. A organização comunitária que derivou desse movimento, levou os moradores a questionar sua própria condição de pobreza. Ao realizar o primeiro mapeamento sobre renda e consumo das famílias, Joaquim descobriu como destravar a engrenagem da economia local.

À época, apenas 20% da renda eram gastos dentro do bairro. Os outros 80% eram transferidos em compras efetuadas em outros locais. Estimular o consumo e a produção no bairro foi a solução encontrada para ampliar a circulação da renda na própria comunidade. Assim nasceu o Banco Palmas. Criou uma moeda social própria, aceita em transações comerciais locais, e facilitou a emergência de novos empreendimentos de moradores.

Tendo o Banco Palmas como referência, instituições financeiras comunitárias se multiplicaram pelo Brasil dando forma à RBBC, que hoje congrega 103 instituições em 22 estados. O desafio apresentado pela pandemia é o de sustentar uma equipe de inovação digital que permita democratizar ainda mais os recursos financeiros e a produção de pesquisas em inclusão econômica nas periferias urbanas.

João, Joaquim e milhares de empreendedores sociais pelo mundo estão em permanente estado de prontidão. Prontidão para enfrentar as incertezas da pandemia, as crescentes desigualdades sociais e para gerar as mudanças que querem ver no mundo.

E como eles chegam até aí? Empreendedores sociais não são predestinados —tampouco herdam esta condição. Na Ashoka, aprendemos que eles são alfabetizados na mudança. Desde a infância praticam a empatia cognitiva. Logo se dão conta de que existem múltiplos mapas mentais disputando o futuro e, por isso, é preciso lidar com a ideia de que o que está por vir não é previsível.

Então, começam a investigar como as relações funcionam —os fluxos das coisas e das ideias— e inevitavelmente encontram fraturas nos sistemas que abrem caminhos para novas construções. Na juventude, já desenvolveram musculatura para realizar mudanças. Estão à frente de algum movimento ou organização e costumam relatar que seu principal desafio está em inspirar a agência de transformação em cada pessoa, porque as pessoas são a matéria-prima para a mudança. Essa é a típica trajetória dos empreendedores sociais.

Embora esta rede continue crescendo (só na Ashoka são 4.000 empreendedores sociais), sabemos que as profundas crises que estamos atravessando demandam um aumento exponencial nas habilidades de empreender transformações sociais.

Negligenciar um momento decisivo como este é uma má ideia. Estamos ajudando nossas crianças e jovens a adquirir essas habilidades fundamentais? As organizações oferecem um ambiente propício para o desenvolvimento desses agentes de transformação? Se não pudermos acenar positivamente diante dessas perguntas, então temos que conversar. Há um trabalho urgente a ser feito.

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