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Luís Fernando Guedes Pinto

Mudo de aldeia, mas sigo na mesma tribo da sociedade civil

Luís Fernando Guedes Pinto

Engenheiro agrônomo e membro da Rede Folha de Empreendedores Sociais.

Ao final de 1995, eu estava prestes a concluir o meu mestrado em ciências da engenharia ambiental pela Escola de Engenharia da USP de São Carlos e buscava oportunidades para trabalhar.

Emendar o doutorado era uma opção. Mas o desejo era botar a mão na massa e poder aplicar o que eu havia aprendido na pós-graduação e na graduação de engenheiro agrônomo, pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo.

Em uma conversa com o então professor Virgilio Viana fiquei sabendo do Imaflora, que havia sido fundado um ano antes por ele e outras pessoas da área de florestas do Brasil.

O agrônomo Luís Fernando Guedes Pinto na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, em 2012. No mesmo ano, foi finalista do Prêmio Empreendedor Social por seu trabalho na ONG Imaflora - Renato Stockler/Folhapress

O Virgilio sugeriu que eu falasse com o Tasso (Azevedo), conhecido colega da engenharia florestal da Esalq, também fundador e secretário executivo da nova organização.

A conversa foi excelente e o Tasso me propôs liderar a criação de uma área de agricultura do Imaflora, uma vez que a parte florestal já estava desenhada e ativa. A premissa, pioneira na época, era que uma agricultura sustentável era condição para a conservação de florestas.

A segunda, ainda mais inovadora, era que a certificação socioambiental poderia catalisar mudanças e fomentar inovação rumo à sustentabilidade e que colaboraria para o aprimoramento da governança florestal e agrícola.

O desafio proposto foi fazer uma prospecção das principais culturas brasileiras com potencial para a certificação. Assim, bem no começo de 1996, comecei a minha incrível jornada no Imaflora.

Até o final de 1998 desenvolvemos os primeiros padrões para a certificação da cana-de-açúcar, em um processo que mobilizou usineiros, pesquisadores, sindicatos de trabalhadores, produtores de cana, ambientalistas.

A iniciativa foi o embrião da certificação agrícola socioambiental no Brasil e uma das sementes para a criação da Rede Agricultura Sustentável, hoje uma organização global.

Concluído este trabalho, me afastei do Imaflora por quatro anos para a realização do meu doutorado no programa de fitotecnia da Esalq, onde estudei os sistemas agroflorestais ou SAFs.

Em 2003 voltei ao ninho e assumi a posição de secretário executivo adjunto do Imaflora, que havia crescido, já tinha uma sede própria e se aproximava dos seus 10 anos de atuação.

Neste ano, a primeira fazenda de café havia sido certificado e eu tinha participado da equipe de auditores, ainda antes de voltar ao Imaflora. Em 2005 sucedi ao Andre de Freitas e me tornei o terceiro secretário executivo da instituição.

Fiquei na posição até 2010, quando passei a faixa ao jovem engenheiro florestal Mauricio Voivodic. O Imaflora chegava ao seu quarto secretário executivo, seguindo a tradição de todos terem menos de 40 anos e serem corintianos.

Nesta transição tive o privilégio de experienciar um sabático por seis meses, fazer as malas e ir com a família para a Inglaterra, onde fui pesquisador visitante do Centro de Florestas Tropicais da Universidade de Oxford.

No retorno, em janeiro de 2011, voltei a apoiar a certificação agrícola, mas também contribuí com as atividades de políticas públicas e comecei uma iniciativa mais estruturada de pesquisas para fortalecer a contribuição institucional do Imaflora. Em 2012, fui finalista do Prêmio Empreendedor Social da Folha e passei a integrar a família da Rede Folha de Empreendedores Sociais.

Luis Fernando Guedes Pinto recebe premiação do Empreendedor Social Folha e Fundação Schwab, no auditório do MASP, em 2012 - Folhapress

Desde 1996 foram mais de 20 anos incríveis no Imaflora, uma organização que me deu muitas oportunidades de desenvolvimento profissional e pessoal e me permitiu fazer parte da super sociedade civil organizada brasileira, que luta pela garantia de direitos, pela democracia e pela sustentabilidade e equidade na muito desigual sociedade brasileira.

Também pude participar de ideias e iniciativas para fomentar mudanças e inovação nos setores florestal e agrícola no Brasil e no mundo. Uma realização pessoal indescritível. Conheci, trabalhei, aprendi e me diverti diariamente com pessoas incríveis, conheci muitos lugares do Brasil e do mundo e a grande diversidade e as profundas contradições da agricultura e das florestas do nosso país.

Após 20 anos de casa e me aproximando dos 50 anos, aceitei o tentador convite de mudar de ares e participar da linda trajetória da SOS Mata Atlântica, uma organização histórica e fundamental para a conservação das florestas do Brasil e para o fortalecimento da sociedade civil e defesa de direitos e da democracia no país.

A minha paixão pela Mata Atlântica vem de muito tempo e interage com a minha carreira, onde sempre estive com um pé na agricultura e outro na floresta.

Na graduação em agronomia fiz a iniciação científica estudando a ecologia de um fragmento de mata atlântica no interior do campus da Esalq. Em seguida fiz a conclusão de curso em um estágio na Estação Ecológica Jureía-Itatins, um dos paraísos da Mata Atlântica que restaram no Brasil. Sempre admirei o trabalho e as pessoas da SOS Mata Atlântica, com quem me relacionei todo este tempo.

Assim, é com grande alegria e entusiasmo que parto para uma nova etapa da minha vida e carreira na SOS Mata Atlântica. Mudo de tribo, mas sigo na mesma aldeia.

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