Arquiteto cria lavatórios para levar água limpa a periferias e evitar Covid-19

No país onde 35 milhões não têm acesso ao abastecimento público, Florescer Brasil lava a mão de quem vive na ponta

Felipe Gregório, líder da Florescer Brasil, é finalista na categoria Mitigação da Covid-19 no Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19 Renato Stockler / Na Lata

São Paulo

Florescer Brasil

  • Organização Florescer Brasil
  • Empreendedor Felipe Gregório
  • Site https://www.florescerbrasil.com.br/

Quando na noite de 3 de novembro um apagão de proporções inéditas deixou 13 das 16 cidades do Amapá sem eletricidade, Felipe Gregório, 35, embarcava em um voo rumo a Palmas para participar da edição solidária de 2020 do Rally dos Sertões.

Uma semana depois, quando voltou a São Paulo, o arquiteto percebeu que a situação do estado apagado continuava crítica e sentiu como se recebesse um chamado.

Mais uma vez, abriu mão do conforto da metrópole para viajar a locais de extrema vulnerabilidade com o objetivo de, antes de tudo, ouvir o que tinham a dizer aquelas pessoas de realidades tão diferentes da sua.

Foi sozinho a Macapá para passar uma semana. Levou só o computador e o celular —além da determinação e a vontade de fazer o bem, qualidades que conquistaram a esposa e sócia Marina Breves.

O casal está à frente da Florescer Brasil. Fundada em 2017, a empresa social de impacto —como Felipe faz questão de chamar— atua como hub de incentivo a economias locais, unindo parceiros e organizações em prol da universalização do acesso à água e esgoto tratado.

Mesmo já tendo impactado diversas comunidades brasileiras nos últimos três anos, foi conhecendo as dores do Amapá, estado com um dos piores índices de abastecimento de água do país, que o arquiteto sentiu pela primeira vez “um soco no estômago”.

“Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Conheci coisas que eu nunca tinha visto, apesar de saber que existiam.”

Lá, conheceu Arlete, 14, que leva as cicatrizes das sete cirurgias que havia feito devido ao tumor craniano que desenvolveu. Tumores e câncer são doenças comuns nas crianças das áreas de ressaca do estado, possivelmente por conta da água contaminada por metais pesados.

Ouviu depoimentos de moradores que, devido à falta de energia e consequentemente de água, são obrigados a comprar galões com preços inflacionados ou encher o balde no rio Amazonas, correndo risco de diarreia aguda ao beber.

É só depois de escutar todos os lados e entender as dores da população local que Felipe faz sua mágica de empreendedor social.

“Cada lugar tem sua realidade, sua água. A gente não pode inventar em São Paulo uma solução e querer replicar, isso é impossível”, diz.

Com a paixão de quem cresceu conectado à natureza e sempre gostou do simples, ele cria soluções descomplicadas e inovadoras que devolvem às comunidades um bem essencial ao qual 35 milhões de brasileiros não têm acesso: a água.

Embora seja a ação mais barata e eficaz para se prevenir da Covid-19, duas em cada cinco pessoas não têm acesso a instalações básicas para lavar as mãos, segundo dados da OMS e Unicef.

Na pandemia, portanto, a necessidade por uma água limpa aumentou e, consequentemente, a demanda pelas soluções da Florescer também.

Para mitigar o problema e proteger as comunidades mais vulneráveis do vírus, o arquiteto e sua equipe de três pessoas desenvolveram uma solução simples e eficaz: lavatórios públicos feitos a partir de tambores de óleo.

Desde abril, quando Felipe e Marina instalaram com suas próprias mãos as duas primeiras unidades dessas pias comunitárias no Jardim Colombo, comunidade na zona oeste de São Paulo, a Florescer passou a integrar a ação Cidade Solidária da prefeitura da capital.

Em parceria com o órgão público, levaram mais 120 lavatórios a outras 30 comunidades.

No Rally dos Sertões, a equipe instalou as pias ao longo do percurso no semiárido, legando os equipamento às comunidades.

Durante a pandemia, foram quase 300 unidades instaladas em cinco estados do Brasil, com mais de 650 mil pessoas impactadas diretamente.

E para atender a demanda e tornar o diagnóstico das comunidades ainda mais eficaz, a equipe desenvolve o app Florescer, pelo qual moradores poderão responder perguntas e enviar dados e, assim, resolver juntos os problemas.

A solução criada pela empresa social gerou tanto impacto que foi replicada por outras organizações e até governos, como o de Goiás, que instalou em Goiânia lavatórios feitos de tambores de óleo muito parecidos com os da Florescer.

“Soluções para o bem devem ser copiadas. A gente tá levando vida para as pessoas”, afirma Felipe.

Além de prevenir o contágio, a instalação dos lavatórios da Florescer gera renda e engajamento da comunidade ao usar a mão de obra local, impactada pela crise econômica e sanitária, e influencia a economia circular por meio da reutilização dos tambores.

Em algumas comunidades, a empresa social realizou oficinas de produção de sabão, que, além de abastecer os lavatórios, garantiram novo destino ao óleo de cozinha, resíduo poluente.

A atuação da Florescer leva o líder e sua equipe a presenciar situações de extrema vulnerabilidade, mas Felipe vem de uma realidade bem diferente.

Paulistano, é filho de um engenheiro elétrico e uma psicóloga. Se formou no Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais da classe média alta de São Paulo. E durante os três anos em que cursou engenharia ambiental na Unesp Sorocaba, ele era o amigo que tinha carro e dava carona para os que precisavam.

Foi convivendo com amigos da faculdade que viviam na periferia que Felipe passou a se preocupar com as dores de quem não tinha os mesmos privilégios que ele.

Essa percepção foi um dos fatores que levou o fundador da Florescer a trocar engenharia ambiental por arquitetura no Mackenzie, onde se identificou com o viés social do curso.

Mas demorou alguns anos de muitas obras e projetos executivos até que Felipe decidisse, em 2015, “que não ia mais trabalhar sem propósito”.

Em 2017, cofundou a Henviro Sistemas Ambientais, que oferece estações de água e esgoto compactas e soluções de emergência humanitária. Mas ainda que houvesse o “H” de humano antes do “enviro” de “environment” (ambiente em inglês), faltava alguma coisa.

Foi então que, pouco tempo depois, fundou a Florescer Brasil e passou a se dedicar inteiramente a ela.

“Sou 200% da Florescer, de segunda a segunda”, brinca o arquiteto, que acredita que “fazer o bem deveria ser profissão com carteira assinada”. Quanto à remuneração desse cargo, ele acredita que é o menos importante.

Como alguém que sempre preferiu o simples (dirige seu oitavo Fusca, modelo 1972), Felipe conta que não há recompensa maior do que saber que seu trabalho transformou —e até salvou— a vida de milhares de pessoas.

Ao lembrar de sua última viagem e dos depoimentos que ouviu dos amapaenses, população esquecida no escuro e sem água tratada, ele segura as lágrimas e mostra que não apenas gera impacto, mas, acima de tudo, se deixa impactar.

“Essa sensação de fazer o bem e servir de inspiração não tem preço”, diz. “Me sinto completamente realizado.”

De volta a São Paulo, o arquiteto planeja ansioso a próxima ida ao Amapá, dessa vez para levar as soluções da Florescer e mudar a vida de mais gente.

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Florescer Brasil

  • 650 mil pessoas impactadas
  • R$ 2,6 milhões em recursos mobilizados
  • 286 lavatórios instalados em comunidades
  • R$ 1.500 é o custo médio de cada lavatório
  • 705 cestas básicas doadas
  • 1.000 testes rápidos de Covid-19
  • 165 kits de limpeza doados
  • 40 kits de potabilidade doados
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