Baile do Menino Deus vira filme neste Natal

Espetáculo criado por Ronaldo Correia de Brito estreia dia 23 de dezembro na internet e gera renda para 200 profissionais das artes

Gravação do Baile do Menino Deus no teatro Guararapes

Artistas e equipe técnica se reuniram no Teatro Guararapes, em Recife, para gravar Baile do Menino Deus - O Filme, criado por Ronaldo Brito e dirigido por Tuca Siqueira Morgana Narjara

Gabriela Caseff
São Paulo

O espetáculo mais famoso do Natal nordestino ganha contornos digitais em 2020. O Baile do Menino Deus, que reúne milhares de turistas e conterrâneos no Marco Zero do Recife, há 17 anos, virou filme.

A história do nascimento de Jesus é o tema central do Baile. Com linguagem alegre e delicada, a ópera popular, baseada no livro de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, mescla neste ano ritmos e tradições nordestinas a projeções digitais.

Baile do Menino Deus - O Filme estreia dia 23 de dezembro, às 20 horas, com exibição até o dia 25 pelo YouTube e site www.bailedomeninodeus.com.br. No dia 26 dezembro, às 14 horas, é exibido pela Tv Globo Nordeste e pela Globoplay, com classificação livre. O filme terá libras e audiodescrição no site.

A tradicional apresentação no Marco Zero costuma atrair um público grande e diverso. “É um espaço de convivência pacífico e democrático. Acontece essa paz durante o espetáculo, uma trégua na guerra social de todos os dias”, conta Ronaldo Brito.

Com a impossibilidade de realizar o evento ao vivo, ele pensou numa adaptação para as telas. “Trezentas pessoas trabalham nas mais variadas funções para viabilizar o Baile. Quando surgiu a pandemia, o drama era: como vamos dar trabalho a nossas equipes?”.

A solução foi filmar no Teatro Guararapes, mantendo elenco de atores, músicos, cantores, bailarinos, diretores e técnicos – em torno de 200 pessoas.

Baile do Menino Deus estreou em 1983 em um palco italiano. Quando migrou para a grande estrutura do Marco Zero, o formato teatral deu lugar à cantata cênica. Em 2020, o Baile, criado e dirigido por Ronaldo Brito, se abre para a experiência cinematográfica, com direção de Tuca Siqueira (Amores de chumbo) e direção de fotografia de Pedro Sotero (O som ao redor, Aquarius), premiado em 2019 no Festival de Cannes com o filme Bacurau.

“Filmar vencendo a inércia e a paralisia que tomou conta do mundo significa apostar na esperança, na alegria, na fé de que um novo tempo irá surgir”, diz Ronaldo Brito.

O espetáculo emprega artistas de várias tendências e faz integração com comunidades locais. Do Grupo Bongar, da comunidade Xambá, primeiro quilombo urbano do Nordeste, vêm cinco músicos e uma criança de 6 anos. Parte dos bailarinos vêm de escolas populares do Recife, como Inaê Silva.

A recifense estreou no Baile aos 15 anos, quando fazia formação na Escola Municipal de Frevo. Estudou dança contemporânea para ampliar a pesquisa da cultura popular. Aos 29 anos, a bailarina experimentou pela primeira vez ensaiar a distância.

“O bailarino se adapta ao espaço o tempo todo, mas em um ensaio remoto a energia do movimento fica toda contida. E os tempos são diferentes por conta do delay da internet”, diz.

Ao encontrar o corpo de baile no Guararapes, poucos dias antes da gravação, Inaê se emocionou. “Subir ao palco neste ano representando a cultura popular de tantas gerações foi um ato de resistência”.

Os turnos de ensaios foram divididos por núcleos, seguidos de três dias de gravação. A equipe passou por um período de quarentena e profissionais de saúde acompanharam a filmagem. Ninguém se contaminou.

Para Arilson Lopes, ator que interpreta o Mateus 1, a maior dificuldade foi lidar com a plateia de 2.400 lugares vazia. “Nosso exercício foi buscar o olhar do público, que a cada cena aplaude e canta junto no Marco Zero, por meio da câmera”, diz.

Para ele, ver o espetáculo se tornar filme durante a pandemia foi um alento. “Em um ano em perdemos milhares de brasileiros pela Covid-19, o Baile traz uma mensagem de renovação da esperança. Sem ele, seria um vazio maior”, conta Arilson.

​A expectativa é que o filme, “primeiro audiovisual brasileiro desse porte, em tempos de pandemia”, alcance um público ainda maior, extrapolando as fronteiras do Recife na semana de festas.

“É o primeiro ano que vamos assistir ao Baile na companhia de nossas famílias no Natal”, diz Inaê Silva.

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