Campanha em várias frentes produz dados e legado de mobilização

Maré Diz Não ao Coronavírus gera conhecimento durante a pandemia em complexo de favela, que base para interlocução com poder público

Eliana Sousa Silva, fundadora da Redes da Maré, é finalista do Empreendedor Social do Ano na categoria Legado Pós-Pandemia, com a iniciativa Maré Diz Não ao Coronavírus Renato Stockler

São Paulo

Maré Diz Não ao Coronavírus

  • Organização Associação Redes da Maré
  • Empreendedora Eliana Sousa Silva
  • Site https://www.redesdamare.org.br/

Poucos dias depois da primeira morte por Covid-19 no Rio de Janeiro, de uma trabalhadora doméstica infectada pela patroa, Eliana Sousa Silva já sabia que era preciso agir. E rápido.

As informações disponíveis sobre a nova doença já indicavam para a fundadora da Redes da Maré a chegada de uma tempestade perfeita no território onde ela cresceu, se tornou liderança e desenvolve projetos estruturantes.

“A situação era crítica, e o desafio, enorme. A Maré tem porte de cidade”, diz a educadora e ativista social. Composto por 16 favelas e 140 mil moradores, o Complexo da Maré é maior que 9 a cada 10 municípios brasileiros.

A cidade dentro de outra cidade trazia para a emergência sanitária questões históricas de abandono.
Eliana conhece bem essa realidade. Em 1969, aos sete anos, ela, os pais e os cinco irmãos deixaram um sítio dizimado pela seca na Paraíba e se instalaram em uma casa de 25 m² na Nova Holanda, uma das favelas da Maré.

O choque entre as paisagens e as diferentes misérias pautou a vida e a luta de Eliana. Na favela, falar em distanciamento social e oferta permanente de água era piada de mau gosto. E parecia ilusão contar com ações públicas ágeis em território habituado a receber o Estado apenas em operações policiais.

“O Rio está uma catástrofe. É um absurdo o Estado não se fazer presente num momento de pandemia.” Eliana enumera: “Falta saneamento básico, falta água em partes da Maré e a manutenção das redes de esgotamento sanitário e pluvial é precária. As habitações têm pouca ventilação e reúnem gerações.”

Além disso, havia a preocupação com as crianças em casa, sem escola nem internet e equipamentos para acesso à educação à distância. “Também a potencial sujeição a violências.” E perda de renda de boa parte da população.

Surgia ali, em meados de março, a campanha Maré Diz Não ao Coronavírus, com múltiplas frentes e duas bases: dados sobre as famílias mais vulneráveis e solidariedade típica da favela.

O Censo Populacional da Maré feito em 2013 apontava para 55% das famílias do território vivendo abaixo da linha de pobreza. “Cruzamos com dados das associações dos bairros para chegarmos às famílias mais pobres”, conta Eliana, doutora em serviço social e professora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

A campanha começou com frente de segurança alimentar e distribuição de kits de higiene e máscaras feitas por 52 costureiras contratadas.

Em pouco tempo, Eliana viu o cadastro de 6.000 famílias vivendo em extrema pobreza quase triplicar.

Chegou a 17 mil, à medida que surgiam novos pedidos de cadastro no canal de WhatsApp criado pela Redes da Maré. “Procurei pessoas que conheciam a seriedade do trabalho da Redes para conseguir levantar recursos do tamanho desse desafio”, conta.

Dinheiro que permitiu desinfecção de cada beco e viela e centenas de refeições diárias para a população de rua. “Sinto a Maré como a minha casa”, diz Leonardo da Silva, ex-morador de rua acolhido em estrutura montada pela ONG. Tornou-se voluntário na entrega de quentinhas, passou a receber pelo trabalho, alugou um quarto e retomou laços familiares.

A Redes da Maré criou podcast e boletim semanal com atualizações sobre pandemia, o De Olho no Corona.

A frente de saúde lidou com problemas na rede de assistência pública. “Faltavam equipamentos de proteção individual, e fomos nós que fornecemos para segurança dos profissionais de saúde.”

O canal de WhatsApp se desdobrou em novos usos, inaugurando atendimento sociojurídicos, o Maré de Direitos. Também serviu para moradores buscarem ajuda em caso de suspeita de Covid-19. Dali eram encaminhados para triagem, testagem e acompanhamento.

As equipes avaliavam as condições da casa de quem testava positivo e, se não houvesse estrutura para isolamento, o paciente era orientado a fazer quarentena em espaços alugados pela ONG.

Nesse contexto também surgiu o Conexão Saúde, parceria com a Fiocruz, SAS Brasil, União Rio e Dados do Bem, que oferece serviços de teleconsultas e terapia por videochamada. “A demanda gerada a partir de questões de saúde mental foi muito forte.”

Numa quarta frente, Eliana deu continuidade aos projetos educacionais e artísticos da ONG em meios digitais, além de criar um fórum com diretores de escolas.

Educação está na gênese da Redes da Maré, cujo primeiro projeto estruturante surgiu da constatação de que apenas 0,5% dos habitantes tinham curso superior. Cursinho pré-vestibular gratuito criado em 1997 permitiu que cerca de 2.000 jovens fossem aprovados em universidades.

Entre eles, uma aluna se tornaria símbolo da luta por direitos: Marielle Franco.

Ao articular diferentes frentes para garantir o essencial em um território já repleto de vulnerabilidades, Eliana adaptou ao contexto da pandemia a tecnologia social desenvolvida por 13 anos.

Criou logística e rede de apoio que beneficiou 55 mil moradores e gerou banco de dados de 20 mil famílias, base para interlocução com poder público. “A favela seria terra arrasada na pandemia se não fosse o legado de mobilização, que não vai parar.”

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Maré Diz Não ao Coronavírus

  • 55 mil pessoas impactadas
  • R$ 11,5 milhões em recursos mobilizados
  • 1.980 toneladas de alimentos
  • 53.350 refeições para morador de rua
  • 129 postos de trabalho
  • 12 mil entrevistas sociais
  • 280 mil máscaras produzidas na Maré
  • 54 mil kits de higiene
  • 100% de ruas da Maré desinfetadas
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