Executiva e comitê médico lideram fundo de R$ 1 bi e ações históricas

Todos pela Saúde, iniciativa do Itaú Unibanco, deixa como legados centros de testagem e modelo de governança na crise sanitária

Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco, é líder do Todos pela Saúde e finalista do Empreendedor Social do Ano em resposta à Covid-19 na categoria Legado Pós-Pandemia Renato Stockler

São Paulo

Todos pela Saúde

  • Organização Itaú Unibanco
  • Intraempreendedora Claudia Politanski
  • Site https://www.todospelasaude.org/

A viagem por Egito e Israel no Carnaval com marido, filhas e namorados foi um presente antecipado pelos 50 anos de Claudia Politanski em agosto.

As férias da vice-presidente do Itaú Unibanco acabaram antes do previsto, com o mundo sob alerta de pandemia. Ao desembarcar em São Paulo em 15 de março, a executiva foi cumprir a quarentena no sítio em Boituva, 117 km da capital.

Mesmo após resultado negativo para Covid-19, o home office da executiva responsável pelas áreas de marketing, sustentabilidade e relações governamentais do maior banco privado do país prolongou-se indefinidamente.

Foi do sítio que a advogada, com 30 anos de experiência no setor financeiro, liderou o Todos pela Saúde, fundo de R$ 1 bilhão criado pelo banco na pandemia.

“Vimos o tamanho do problema e o conselho de administração decidiu que era preciso fazer mais”, recorda-se a vice-presidente. Em 13 de abril, era anunciado o aporte bilionário, maior doação privada na história do país.

Pedro Moreira Salles, copresidente do conselho, convocou Claudia para ser representante do banco e viabilizar as ações de mitigação. “Ela foi escolhida por sua capacidade de lidar com temas complexos, sua grande habilidade interpessoal e seu profundo conhecimento do funcionamento do Itaú Unibanco, cuja capacidade de execução foi crucial para operacionalizar o Todos pela Saúde.”

O banqueiro convidou Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, para coordenar o comitê de especialistas norteador das ações.

Um grupo de notáveis do qual fazem parte Drauzio Varella, médico e escritor; Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa; Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein; e Pedro Barbosa, presidente do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, ligado à Fiocruz.

Sempre às 7h, de domingo a domingo, lá estava Claudia com todos eles reunidos em videoconferência. O desafio era mergulhar no intrincado e técnico universo médico-hospitalar.

“Falava-se muito de testes e respiradores e me vi tendo que entender sobre compra de equipamentos na China”, afirma Claudia.

Era preciso organizar prioridades. “A responsabilidade era grande, em um quadro assimétrico, complexo e volátil como o do Brasil”, diz Chapchap. Foi fundamental para o êxito, segundo ele, contar com a estrutura do banco e a visão de Claudia. “Ela é sensível às diferenças sociais.”

Neta de judeus do Leste Europeu que vieram para o Brasil fugindo do holocausto, uniu sensibilidade e governança.

O fortalecimento do SUS foi um dos pilares. Diante da carência de leitos de UTI, era preciso escolher modelos e fornecedores de equipamentos, atuando em parceria com comitês de crise estaduais e hospitais Brasil afora.

“Havia dificuldade de fazer gestão de leitos, profissionais e EPIs”, relata Claudia.

Ela acionou a área de tecnologia do banco para criar em tempo recorde um aplicativo para gestão hospitalar. Usava a estrutura interna de 300 funcionários conforme a demanda.

Luciana Nicola, 42, superintendente de relações institucionais e sustentabilidade, foi chamada para a saga de estruturar ações como o socorro às Instituições de Longa Permanência para Idosos.

Era preciso testar 50 mil pessoas, entre idosos e cuidadores, em 600 asilos públicos e filantrópicos. Ao final, com índice de mortalidade em 3% nas ILPIs, diferentemente do que ocorreu na Europa e EUA, Luciana agradece à chefe a oportunidade de gerar impacto positivo. “Foi realizador. Não importava crachá nem hierarquia.”

Na sala de comando da operação de guerra estava também Ricardo Giannini, 43, superintendente de planejamento. A ele coube viabilizar a importação da China de duas centrais de testes de Covid -19.

“O desafio era comprar produtos desconhecidos, achar fornecedores confiáveis, na pressão de fazer rápido e disputando com o mundo inteiro.” Depois da aquisição, tinha de chegar a 500 hospitais, com apoio até das Forças Armadas.

A posição de Cláudia era estratégica e privilegiada. “De um lado, sentia profunda tristeza e desespero de ver o tamanho das carências, mesmo com a quantidade de recursos”, diz a líder do Todos pela Saúde. “De outro lado, estava com gente comprometida com a saúde, imbuída de fazer o melhor.”

Claudia conta que tomava café e almoçava na frente do computador. Só foi à sede do banco duas vezes. Uma delas para comunicar aos subordinados a decisão de sair ao completar 30 anos no banco. Combinara com os chefes de fazer o anúncio após as férias.

“Esquece”, disse Cândido Bracher, CEO do banco. A saída foi acertada para o final de 2020. “É uma decisão gestada há tempos”, explica.

Claudia vai usufruir um sabático, após a missão no Todos pela Saúde. “Estou me permitindo sonhar com a vida no ano que vem. Quero poder não fazer nada”, diz a executiva que começou a trabalhar aos 15 anos, entrou no banco como estagiária aos 20, casou ainda na faculdade e aos 23 já era mãe.

“Vivia pilotando um transatlântico que se move divagar e por rotas preestabelecidas. Estou desembarcando em um veleiro para levar a vida ao sabor do vento”, compara.

O marido, o cirurgião Arnaldo Politanski, já embarcou no “dolce far niente” do casal, encerrando as atividades do consultório. Dedica-se 100% à marcenaria de 200 m2 montada no sítio, enquanto assiste à mulher se tornar especialista na sua área.

“Claudia sabe mais de Covid e de UTI do que eu. Está afiadíssima, sabe até regular respirador”, diz Arnaldo, com orgulho do papel dela na mitigação da crise sanitária.

A gestora do Todos pela Saúde tem sensação de dever cumprido. “Foi especial fazer a diferença em um momento tão dramático e garantir o melhor uso de cada centavo daquele R$ 1 bilhão.”

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Todos Pela Saúde

  • 175 milhões de pessoas impactadas
  • R$ 1,3 bilhão em recursos mobilizados
  • 2 centros de testes
  • 120 milhões de EPIs para 500 hospitais
  • R$ 100 milhões destinados a vacinas
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