Mobilização dá renda e faz inclusão de agentes que vivem da reciclagem

"A rua é o 'home' e o 'office' de boa parte dos catadores", diz Mundano, idealizador da iniciativa Renda Mínima pros Catadores na Pandemia

Líderes da ação Renda Mínima pros Catadores na Pandemia, finalista do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19, na categoria Ajuda Humanitária Renato Stockler

São Paulo

Renda Mínima para os Catadores na Pandemia

  • Organizações Pimp My Carroça e Cataki
  • Empreendedores Mundano, Carolina Pires, Julliana Fulmann, João Bourroul e Elissa Fichtler
  • Site https://pimpmycarroca.com

Com as carroças paradas com o protocolo de distanciamento social, os catadores de materiais recicláveis perderam sua fonte de renda do dia para a noite. “A rua é o ‘home’ e o ‘office’ de boa parte dos catadores”, diz Mundano, 35, grafiteiro e ativista social, fundador da ONG Pimp My Carroça.

Diante disso, a organização, que atua há oito anos, usando o grafite para dar visibilidade e voz a esses trabalhadores, decidiu batalhar pelo projeto Renda Mínima pros Catadores na Pandemia, categoria vulnerável e entre as mais impactadas na crise da Covid-19.

“Tivemos de mudar o foco, ser ágeis e criar soluções urgentes para garantir condições de renda, segurança e alimentação básica para os catadores”, diz Carol Pires, 34, diretora-executiva do Pimp My Carroça e coordenadora da ONG em Recife (PE).

Em uma semana, a equipe se reestruturou em comitês de captação e logística para arrecadar dinheiro, alimentos e EPIs e assim fazer com que recursos chegassem de maneira segura para catadores do Brasil inteiro.

Por meio de financiamento coletivo, 2.332 pessoas apoiaram a iniciativa. Cerca de 80 empresas e organizações e doadores de 12 países, contribuíram com a vaquinha digital.

Alguns fizeram doações na conta da ONG, totalizando R$1,5 milhão arrecadados. “Mais de 102 artistas doaram obras de arte, o que possibilitou captar com públicos de diversos países”, conta Carol.

Entre as doações marcantes, Mundano relata o caso da diarista carioca Cátia Brito, que mandou mensagem pelo celular: “Olá! Estou sendo cuidada por duas casas em que trabalho e estão pagando a minha diária, mesmo não indo. Gostaria de ajudar com R$ 60, como faço?”

“Só de contar a história me arrepio! Empatia gera empatia”, diz ele.

Os R$ 60 doados pela diarista se somaram ao montante que permitiu criar uma renda emergencial de R$ 650 para 2.117 catadores de 189 cidades de 20 estados brasileiros e do Distrito Federal, por meio do cartão Social Bank.

Além disso, foram distribuídas 18 mil refeições e entregues 180 toneladas de alimentos. Na capital de São Paulo, 5.500 catadores receberam kits de água e sabão em suas carroças, junto com máscaras de proteção, somando 8.000 EPIs distribuídos.

A iniciativa contou ainda com as expertises dos coordenadores Elissa Fichtler (41 anos, com captação e parcerias), Julianna Fulmann (43, com logística) e João Bourroul (33, com comunicação).

Para que o cartão do auxílio chegasse aos beneficiários, a iniciativa se valeu do banco de dados do aplicativo Cataki. O app conecta os catadores a pessoas e empresas que desejam contratar serviços de reciclagem.

A logística de distribuição do auxílio precisaria da bancarização dos trabalhadores, um dos maiores desafios da empreitada. “Cerca de 97% deles nunca tiveram cartão bancário, 80% se declara negro ou pardo, e boa parte vive em situação de rua”, diz Carol.

“A desbancarização é um tipo de invisibilidade. Foi um trabalho gigantesco, ligar para um por um e pedir dados como CPF e nome completo”, reforça Mundano.

Mais de 50 agentes voluntários efetuaram milhares de telefonemas. “Foi necessário construir confiança, pois muitos duvidavam: ‘Como assim, vão me dar dinheiro?’”, diz Carol. Para evitar o estranhamento ao telefone, a ONG levou em conta até o sotaque de cada região, buscando voluntários locais.

Aqueles que não tinham CPF foram auxiliados no processo de aquisição. “A inclusão digital e bancária é um dos ganhos da iniciativa. Muitos disseram que, com o cartão, finalmente foram vistos como pessoas comuns no comércio”, diz Carol.

Um dos gestos emocionantes para equipe aconteceu quando beneficiários de Salvador (BA) se juntaram para fazer manifestação de agradecimento, nas ruas, com faixa em homenagem aos doadores.

Depoimentos em grupos de WhatsApp também comoveram. Um deles, com a casa interditada pela Defesa Civil, disse: “Graças a Deus meu cartão chegou. Obrigado, Cataki. Esse dindim vai ajudar muito.”

Mundano ainda viu catadores que abriram mão do auxílio em prol de colegas que precisavam mais. “Enquanto víamos notícias de pessoas trapaceando para receber o auxílio do governo, esses catadores deram baita lição.”

O ativista lembra que cada brasileiro produz cerca de 380 kg de resíduos por ano, e que apenas 3% de todo o material descartado no Brasil é reciclado. “O país enterra R$ 120 bilhões por ano.”

Ainda que 90% de todo material reciclado no Brasil sejam coletados pelos catadores, a categoria continua na informalidade, invisível em relação às políticas sociais.

O maior aprendizado na criação do Renda Mínima, diz Carol, foi criar articulação para mudar isso. “Trouxemos olhar de corresponsabilidade na gestão de resíduos, criando ação de retribuição ao trabalho fundamental que esses profissionais nos oferecem gratuitamente.”

Lutar para que sociedade e setor público remunerem os catadores de forma justa é o que o Pimp My Carroça vem fazendo desde 2012. “Foi gratificante ouvir que essa renda trazia dignidade, pois eles teriam a escolha de usar o recurso para o que eles definissem como urgente”, diz Mundano.
E o trabalho continua. “A pandemia não acabou”, diz.

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Renda Mínima para os Catadores na Pandemia

  • 72 mil pessoas impactadas
  • R$ 1,6 milhão em recursos mobilizados
  • R$ 650 em doação para 2.117 catadores
  • 7.000 kits de água e sabão distribuídos a catadores autônomos
  • 197 toneladas de alimentos
  • 11.800 EPIs
  • 18 mil refeições
  • 124 artistas doaram obras de arte
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