Movimento voluntário nascido no WhatsApp se espalhou por 22 estados

União BR mobilizou R$ 150 milhões em rede solidária que distribuiu cestas, reativou leitos e socorreu indígenas

Daniel Serra, Tatiana Monteiro de Barros, Marcella Coelho, Nélio Araújo e Bel Motta estão à frente do Movimento União BR, finalista na categoria Ajuda Humanitária do Empreendedor Social do Ano Renato Stockler

Movimento União BR

  • Organização União BR
  • Empreendedores Marcella Monteiro de Barros Coelho, Tatiana Thomaz Monteiro de Barros, Daniel Serra, Isabel Motta e Nélio Chagas
  • Site https://uniaobr.com.br

No começo era só um grupo no WhatsApp formado por pessoas de diferentes perfis com vontade de ajudar quem mais precisava na pandemia.

Em 12 de março, Marcella Monteiro de Barros Coelho, 35, criava o primeiro dos 40 grupos que administra para conectar voluntários, ONGs e doadores em uma teia de solidariedade espalhada por 22 estados. Era o embrião do União Rio que, em dias, ganhava um irmão: o União SP.

As duas mobilizações desaguaram no movimento União BR. “Atuamos como uma liga de uniões estaduais com objetivo de apoiar as comunidades mais vulneráveis e mitigar a crise de saúde pública”, explica Marcella.

No Rio, a advogada acionava os primeiros parceiros para levantar R$ 110 mil em uma campanha para reativar leitos de UTI no Hospital Universitário do Fundão.

Para a surpresa de Marcella, o União Rio já arrecadou mais de R$ 70 milhões, que possibilitaram a ativação de 430 leitos de UTI e enfermaria, reforma de 128 consultórios e distribuição de 1 milhão de EPIs doados e milhares de toneladas de alimentos em favelas.

Funcionária da TV Globo, onde é coordenadora de projetos especiais do Caldeirão do Huck, Marcella aproveitou o período sem gravação e em home office para se dedicar ao movimento.

“Ela é a materialização da expressão ‘muda mundo’, com uma vocação altruísta que não mede esforços para somar, transformar. Rara mistura de criatividade e capacidade de execução”, diz o apresentador.

Em São Paulo, a administradora Tatiana Monteiro de Barros, 39, convocada pela irmã Marcella para replicar o modelo de engajamento e gestão participativa carioca, fazia a roda da solidariedade girar. O número de voluntários chegou a 3.000.

Os desafios de logística e governança eram gigantes. Daniel Serra, 39, sócio da Mov, gestora de investimento de impacto, conheceu Marcella no Agora!, movimento de renovação na política.

Ele se voluntariou na gestão. “Sou o burocrata, o cara das planilhas.” Com necessidades batendo à porta, foram tomadas decisões como não ter um CNPJ, operando de forma descentralizada para apoiar ONGs na ponta. “Canalizamos recursos para aqueles que estavam com a mão do pulso”, explica Serra.


À frente da captação, Tatiana usava a rede de relacionamentos de sua agência de marketing, a Multicase. Angustiava-se com a concentração de doações no Sudeste. Era preciso mapear pessoas para tocar os movimentos nos estados, como Nélio Chagas, do União Bahia.

Além de alavancar as ações em seu estado, Nelinho, 38, rumou para Mato Grosso, quando as queimadas agravavam o cenário pandêmico, para criar o União Pantanal. “A sociedade civil unida pode fazer muito.” As lideranças foram se consolidando. “Não determinamos quem faria o quê. Cada um fez o que faz de melhor”, resume Tatiana.

A cineasta carioca Bel Motta, 56, nunca havia participado de grupo voluntário até ser chamada para a União Rio e depois ampliar o foco para o Brasil. “Passei a ter certeza de que pessoas comuns, como eu, agindo em rede, transformam realidades.”

Bel recarregava as energias nas reuniões de quinta-feira com líderes de todas as uniões, para compartilhar boas práticas e pedidos de socorro.

“Eu chorava em todas”, diz. “Cada cesta doada, cada leito reativado, é comemorado como gol.” E a goleada da União BR contou com 30 empresas doadoras na retaguarda e um meio de campo de um network poderoso.

É ligar para o primo que é amigo de um usineiro, que empresta o caminhão para levar cestas para acampamentos de ciganos na Paraíba. “Cada solução de logística é festejada”, diz Tatiana.

Marcella foi o elo entre as peças desse xadrez. Nelinho, Bel e Tatiana se conheceram na gravação do vídeo do prêmio, após nove meses se falando diariamente.

No auge da crise, Marcella ficava ao telefone e diante da tela do computador até 15 horas por dia. O marido e os filhos, Joaquim, 5, e Maria, 2, respiravam o movimento. Em um passeio pelo Leblon, ao ver um mendigo o menino perguntou: “Ele recebeu ajuda do União Rio, mãe?”.

Combater nossa “indecente” desigualdade é o que move Marcella e companhia. “Temos de arregaçar a mangas e ser parte da solução.” Foi o que fez na União Amazônia Viva, como ex-presidente do conselho do Greenpeace, para socorrer povos da floresta.

Apresentou a ideia ao fotógrafo Sebastião Salgado, que cedeu as fotos, e ao cineasta Fernando Meirelles, que fez o vídeo institucional.

Para Marcella, um mundo pós-Covid-19 não é o do “novo normal”. “Mas de uma nova moral. O que era normal não era bom. Nossa sociedade já estava doente.”

O futuro do União BR é somar onde o Brasil precisa. Marcella se inspira em Desmond Tutu na luta contra o apartheid, ao ser mentorada por ele no The Elders, em 2011.

Diante da pergunta de como não desistir quando as desigualdades são tamanhas, o bispo respondeu que ao acordar pensava em como salvar um negro do apartheid naquele dia, não em acabar com o regime racista.

“É o que penso frente aos grandes desafios no Brasil. O que posso fazer hoje para que as coisas melhorem?” Foi dia a dia que o União BR impactou quase 9 milhões de brasileiros em nove meses de pandemia.

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Movimento União BR

  • 8,5 milhões de pessoas impactadas
  • R$ 150 milhões em recursos mobilizados
  • 5 milhões de cestas básicas
  • 16 milhões de máscaras
  • 35 milhões de EPIs doados
  • 3.000 voluntários
  • 370 leitos hospitalares
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