Mulheres do Vale do Jequitinhonha vendem versos para ter renda

Plataforma online 'Versinhos de Bem-Querer' permite comercialização de poemas, sustento para bordadeiras e comunidades rurais na pandemia

Elisângela Pedroso, Karem Ferreira, Marli de Jesus Costa, Nalva Sousa e Viviane Fortes, são líderes e integrantes do projeto Versinhos de Bem-Querer, finalista do Empreendedor Social 2020 na categoria Ajuda Humanitária Renato Stockler

Deborah Bresser
São Paulo

Versinhos de Bem-Querer

  • Organização Associação Jenipapense de Assistência à Infância (Ajenai)
  • Empreendedoras Viviane Fortes e Elisângela Pedroso
  • Site https://www.ajenai.org.br/

Distribuir afeto e delicadeza é forma de combater os impactos da pandemia.

Foi a estratégia do Versinhos de Bem-Querer, iniciativa da Associação Jenipapense de Assistência à Infância (Ajenai), ao mobilizar “jogadoras de versos” em rodas de cantigas no Vale do Jequitinhonha.

O resgate da tradição cultural da região com menores índices de desenvolvimento de Minas Gerais virou renda, com a venda de versinhos sob encomenda “cantados” por mulheres da comunidade em plataforma online.

Ao acessar o site ou o Instagram, o comprador manda breve descrição da pessoa a ser presenteada para que os versinhos sejam compostos de forma personalizada, ao custo de R$ 26 cada.

“Cheguei em casa assustada com a notícia da Covid-19, imaginando a dificuldade das comunidades numa região de extrema pobreza”, lembra Viviane Fortes, 45, coordenadora de projetos da Ajenai. “Era preciso fazer algo pelos que moram na zona rural.”

E a matéria-prima para ajudar estava na própria comunidade: os versos da tradição, passados de pai para filho, e versos inéditos que são jogados nas rodas de cantigas como se fossem repente. “Convidamos as pessoas a comprar versinho para presentear alguém com poesia e amorosidade, espalhando bem-querer”, diz Viviane.

O passo seguinte da assistente social, educadora e terapeuta foi identificar mulheres com perfil para o projeto.

A bordadeira Marli de Jesus Costa, 41, a educadora Nalva Martins, 30, e duas integrantes do Coral Ribeirão de Areia, Grace Matos, 38, e Karen Ferreira, 20, foram selecionadas. No início havia outras, mas moravam em comunidades sem internet. Não foi possível continuar com elas.

Cabe à professora Elisângela Pedroso, 42, direcionar os pedidos a uma das quatro. “Elas têm perfis diferentes, vão sentindo e fazendo os versos”, explica. “Fortaleceu a cultura, os saberes.”

Uma quinta figura importante para o sucesso da empreitada estava bem distante do Jequitinhonha. Viviane pediu o apoio de uma amiga empreendedora, Mariana Berutto, que mora na Suíça, para criar um modelo de negócios para a venda dos versinhos por e-commerce.

A divulgação foi feita no Instagram do projeto, e as pessoas começaram a comprar versos. “Mariana encomendou para uma amiga, que encomendou para outra. Eu encaminhei para a minha família”, diz a idealizadora.

A ideia viralizou e se tornou uma corrente despretensiosa. Quem recebia se emocionava e ainda colaborava com as comunidades. “Neste momento em que as pessoas estão tão tensas, é uma energia amorosa, uma forma de não perder a fé”, afirma Viviane.

De repente, começaram a vender 200 versos por dia. Diante de tanta demanda, muitas vezes era preciso tirar o site do ar. “A gente fechava para dar conta das encomendas. Quando reabria, dois dias depois precisava fechar novamente”, lembra.

Responsável pela parte financeira e pelas parcerias da ONG, Elisângela diz que o sucesso de vendas chegou em boa hora para as “cantadoras”, que recebiam cerca de R$ 900 por mês, para as comunidades e para a entidade. “O projeto dos versinhos foi um presente, nos trouxe uma opção financeira. Perdemos nosso principal apoiador.”

Outro ganho importante foi na autoestima. “Trouxe alegria para as mulheres, que perceberam que o saber delas é importante”, diz a professora.

Nascida na comunidade rural de Empoeira, Elisângela viveu os desafios de uma infância pobre. Trabalhou como empregada doméstica até os 17 anos e participou da fundação da Ajenai. Ficou responsável pela planilha financeira e controle das vendas e entregas. Foram vendidos 4.413 versos para mais de 2.500 pessoas, com compradores de Israel, Europa, Argentina, Nova York.

“Nesse tempo assustador, foi uma forma de levar fé, força, alegria”, diz a assistente social. “Estamos numa região de penúria, que depende da solidariedade, mas, em vez de levantar recursos tendo como argumento a compaixão pelos desfavorecidos, optamos pelo caminho inverso.”

A meta inicial era arrecadar R$ 20 mil. “Em julho, havíamos ultrapassado quatro vezes esse valor”, conta Viviane. O dinheiro foi para um fundo solidário para atender a oito comunidades. Parte foi destinada ao financiamento de projetos de geração de renda para bordadeiras e tecelãs.

O projeto potencializou o ecommerce das Bordadeiras do Curtume, que arrecadaram mais de R$ 60 mil em vendas. Os versinhos foram alento também para profissionais na linha de frente na luta contra a Covid-19.

Um médico do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte enviou mensagem de agradecimento, dizendo que o versinho havia chegado como um bálsamo em um momento tão duro. Para ele, as jogadoras de verso eram “médicas da alma”. Foi grande a demanda de versos para pacientes com Covid.

Já Marli de Jesus recebeu encomenda de dois versinhos de Helena, filha de Chico Buarque. A bordadeira resolveu fazer um poema extra para o compositor.

Recebeu de volta versos compostos e cantados pelo próprio Chico: “Durante a noite inteira, Escuto como quem sonha/ A Marli bordadeira, Lá do Jequitinhonha”. Foi dia de alegria inesquecível na comunidade do Curtume.

*

Versinhos de Bem-Querer

  • 1.472 pessoas impactadas
  • R$ 113 mil em recursos mobilizados
  • 4.525 versos vendidos para 2.635 pessoas (R$ 26 cada um)
  • R$ 68.489 arrecadados em vendas do grupo Bordadeiras do Curtume
  • 8 comunidades rurais beneficiadas pela criação do fundo solidário, de três municípios no Vale do Jequitinhonha
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