Mutirão de costura une bancos e gera renda para mulheres na emergência

Heróis Usam Máscaras, iniciativa do Instituto Rede Mulher Empreendedora, apoia costureiras e a luta contra a violência doméstica na pandemia

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A empreendedora social Ana Fontes, que, ao lado de Célia Kano, liderou o projeto Heróis Usam Máscaras, iniciativa finalista do Prêmio Empreendedor Social do Ano na categoria Mitigação da Covid-19
A empreendedora social Ana Fontes, que, ao lado de Célia Kano, moveu o Instituto Rede Mulher Empreendedora no projeto Heróis Usam Máscaras, iniciativa finalista do Prêmio Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19 na categoria Mitigação - Renato Stockler
São Paulo

Heróis Usam Máscaras

  • Organização Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME)
  • Empreendedoras Ana Fontes e Célia Kano
  • Site https://institutorme.org.br/

Quando veio a pandemia, Ana Fontes a definiu como um tsunami. Sua cabeça fervilhava, e seu celular não parava. A rede que ela lidera, com 750 mil mulheres que tocam negócios em todos os cantos do país, passou a clamar por socorro e, muitas vezes, pedia o básico para a vida: comida.

E não é a primeira vez que a fome desafia Ana, que deixou a terra natal, São João da Tapera (AL), em 1970, porque a seca forçou a migração para a Grande São Paulo.

“Minha primeira lembrança sou eu, com quatro anos, no ônibus, com minha mãe e seis irmãos apertados em quatro bancos, comendo mariola.”

A pandemia se mostrou, para Ana, provação maior do que ter sobrevivido à mortalidade no sertão —que vitimou 2 de 10 irmãos— e às condições na infância, quando morou com os pais e sete irmãos num quarto e cozinha de Diadema (SP) e comeu sardinha quase que diariamente —“Era o alimento mais barato a que tínhamos acesso”.

Assim como descobriu, quando menina, ao trabalhar de doméstica, que poderia ajudar nas contas da casa e lhe dar o prazer de comer um danoninho por mês, ela sabia agora de que precisava ir além da entrega de cesta básica para ajudar as mulheres.

Para isso lembrou-se de 2010, quando foi pioneira ao criar a RME (Rede Mulher Empreendedora) e ao falar de negócios para mulheres.

À época, com 18 anos de experiência em empresas, já tinha aberto negócios próprios e sabia todas as agruras que a mulher sofre devido ao machismo estrutural —ela, que tem Daniela, 18, e Evelyn, 12, foi discriminada até por ser mãe.

A rede surgiu quando Ana foi selecionada para curso da FGV, feito com a Goldman Sachs, que classificou 35 entre mil mulheres.

Viu ali uma demanda reprimida. Passou a postar conteúdos das aulas em um blog, que conquistou adeptas e virou um movimento pela inclusão da mulher nos negócios. Ele cresceu tanto que atraiu voluntárias e fez de Ana Fontes, segundo a Forbes, uma das 20 mulheres mais influentes do país.

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do IRME, é finalista do Prêmio Empreendedor Social na categoria Mitigação da Covid-19
Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do IRME, é finalista do Prêmio Empreendedor Social na categoria Mitigação da Covid-19 - Karime Xavier - 6.mai.19/Folhapress

Ela criou em 2017 o Instituto RME, e com ele inovou nesta pandemia ao unir três bancos rivais (Bradesco, Itaú e Santander) na missão de produzir 12 milhões de máscaras.

“A pandemia mostrou que vidas estão acima de marcas”, diz Ana, que é professora de empreendedorismo no Insper.

Com os bancos e R$ 35,2 milhões mobilizados, a RME virou uma grande fábrica, que acionou 65 ONGs e 6.300 costureiras por 20 estados.

A operação só foi possível graças à perícia de Célia Kano, diretora do IRME, que conheceu Ana em 2017.

Foi a engenheira mecatrônica quem, primeiro, buscou a padronização da máscara, a que fosse mais apropriada à proteção da Covid e que pudesse ser produzida pelas costureiras.

“Isso quando ainda nem se falava que a máscara seria obrigatória”, diz Célia. Com a garra de quem foi uma das três mulheres formadas numa turma de 80 alunos pela engenharia da USP e atuou em “chão de fábrica”, ela se viu “numa operação de guerra”.

A engenheira Célia Kano, diretora do IRME e finalista do Prêmio Empreendedor Social na categoria Mitigação da Covid-19
A engenheira Célia Kano, diretora do IRME e finalista do Prêmio Empreendedor Social na categoria Mitigação da Covid-19 - Arquivo Pessoal

Ante o desafio, Célia e Ana teceram uma rede com poder público (Instituto BEI-Centro Paula Souza) e empresas, como Walwee (Guilherme Weege) e Coteminas. E conseguiram fazer pagamentos semanais às costureiras.

A produção garantiu renda mensal de R$ 2.700 a cada costureira.

“Você não sabe o impacto disso na saúde mental das mulheres que estavam sem trabalho, com contas em atraso. Elas se sentiram parte de algo maior, de salvar vidas”, diz Adaildo dos Santos, mobilizador social do Agentes da Paz. Ele reuniu 72 costureiras em Currais Novos (RN), indo de porta em porta, de onde saíram 121 mil máscaras.

Célia e Ana também ajudaram no letramento digital de todas as organizações. “Cedemos verba. Ensinamos a criar assinatura digital, email, enfim, um legado que fica para as organizações agora”, afirma Célia.

O IRME cuidou da compra do tecido e entrega às costureiras até a distribuição. As máscaras foram doadas para Cruz Vermelha, Hospital AC Camargo, G10 das Favelas e Cufa, entre outros. “Teve momentos em que achei que não seria possível”, diz Célia.

Ela e Ana se aconselharam com as mães quando tudo parecia que daria errado —como falta de fornecedores—, o que mostra que o exemplo de liderança começa em casa.

A operação é um sucesso. Além dos legados para organizações e costureiras, em ação que impactou 12 milhões de pessoas e beneficiou diretamente 25 mil, o IRME deixou a metodologia em seu site e evidenciou que transformações passam pela geração de renda para mulheres. “O tsunami da pandemia atingiu as mulheres com várias ondas. Elas movem casa, economia, criação de filho e negócio. A saída da crise passa por ajudá-las. Por isso luto por elas, para que tenham independência financeira e de decisão sobre negócios e a vida”, diz Ana Fontes.

O IRME também se colocou no combate à violência doméstica.

“Em São Paulo, houve aumento de 29% das medidas protetivas e 51% da prisões em flagrante por violência doméstica na pandemia. A parceria com o IRME permite que mulheres em situação de violência atendidas pelo Ministério Público sejam encaminhadas ao projeto”, diz a promotora Val Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público.

O projeto é o Ela Pode, do IRME com apoio do Google, e capacitará 135 mil mulheres até o final do ano.

Ana ainda toca o Potência Feminina, que acelera dez projetos comunitários liderados por mulheres. Ela e Célia se mostram incansáveis num país onde Heróis Usam Máscaras e heroínas as produzem.

*

Heróis Usam Máscaras

  • 12 milhões de pessoas impactadas ​
  • R$ 35,2 milhões em recursos mobilizados
  • 12 milhões de máscaras produzidas e doadas
  • 6.300 empregos gerados
  • 65 organizações articuladas
  • R$ 2.700 mensais foram a cada costureira do projeto
  • 2 projetos, o Ela Pode, que também ajuda em casos de violência doméstica, e o Potência Feminina, são tocados pelo IRME nesta pandemia

Vote e/ou doe para esta iniciativa na Escolha do Leitor até 30 de abril em folha.com/escolhadoleitor2021

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