Urgência por máscaras capacita presos para trabalhar em oficinas

Humanizando a Pena, Protegendo a Vida produziu 1,7 milhão de EPIs em unidades humanizadas das Apacs, que herdaram maquinário

Valdeci Ferreira, Luiz Carlos Rezende e Santos, Jacopo Sabatiello e Maurilio Leite Pedro são finalistas na categoria Mitigação da Covid-19 no Empreendedor Social do Ano, com a iniciativa Humanizando a Pena, Protegendo a Vida Renato Stockler

Fernanda Cirenza
São Paulo

Humanizando a Pena, Protegendo a Vida

  • Organização Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC)
  • Empreendedores Valdeci Ferreira, Luiz Carlos Rezende e Santos, Jacopo Sabatiello e Maurilio Leite Pedrosa
  • Site http://www.fbac.org.br/

Em isolamento compulsório enquanto cumprem pena, 500 recuperandos, como são chamados os internos nas Apacs (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), produziram 1,7 milhão de máscaras.

A escala foi alcançada com a iniciativa Humanizando a Pena, Protegendo a Vida, capitaneada pela FBAC (Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados), que reúne 57 presídios em sete estados.

Com a urgência frente a números crescentes de contaminados e mortos pela Covid-19, a entidade se uniu a parceiros para levar adiante a ideia de transformar presídios em unidades de produção em massa do acessório.

Um esforço que ganhou alma e profissionalização. “Por mais que tenham cometido delitos, nossos recuperandos tiveram a chance de responder à sociedade com solidariedade, nesse momento ímpar de uma epidemia que desafia a humanidade”, afirma Valdeci Ferreira, 58, presidente há 12 anos da FBAC.

“Em momento de tantas incertezas, encontramos nesse trabalho a esperança por dias melhores”, diz ele.

A confecção de máscaras começou improvisada, com empréstimo de máquinas e doação de tecidos. Com a escalada da pandemia, uma rede se formou para ampliar as oficinas de corte e costura.

A Fundação AVSI-Brasil, braço nacional da ONG italiana, conseguiu R$ 400 mil junto à União Europeia, que se somaram a R$ 1 milhão do Todos pela Saúde, fundo criado pelo Itaú Unibanco para ações de enfrentamento à Covid-19, e a doações captadas pelo Instituto Minas pela Paz.

Recursos destinados à montagem de 43 oficinas em 41 Apacs. É o caso da unidade de São João del Rei (MG), de onde já saíram 53.800 máscaras, produzidas por 64 recuperandos do regime fechado.

“Eles trabalham em turnos, de manhã e à tarde, e se sentem úteis à sociedade”, afirma Daniela Fazzion, encarregada da unidade. As máscaras produzidas por homens e mulheres privados de liberdade foram distribuídas em Apacs, comunidades circunvizinhas, asilos, hospitais, secretarias de saúde e presídios.

“O meu esforço vai beneficiar toda a sociedade. Eu também preciso desse trabalho, que me faz sentir importante e motivado a ajudar o próximo”, diz Wellington Nunes, da Apac de Campo Belo (MG).

A iniciativa atendeu a um segundo propósito de proteção à vida. De abril a novembro, de 4.000 recuperandos nas Apacs, 120 foram contaminados pelo coronavírus. “Eles ficaram em isolamento, apenas um foi internado. Não registramos óbitos, o que comprova a eficácia do projeto”, afirma Ferreira.

Ao humanizar a pena com o trabalho para mitigar os impactos da Covid-19, Ferreira destaca dois ganhos. “Estamos superando a pandemia e mantendo a disciplina. Pessoas em privação de liberdade não podem ficar ociosas.”

O juiz Luiz Carlos Rezende e Santos, que coordena o programa Novos Rumos, do TJ-MG, de apoio à implantação do método da Apac, destaca o caráter educativo e humano do mutirão de costura. “Os internos se sentiram valorizados.”

Em Passos (MG), um grupo de voluntários da Apac ajudou na reforma de um hospital que vai virar centro de apoio psicossocial.

“Ao darmos oportunidades, proporcionamos a chance de um recomeço na sociedade”, diz Maurilio Pedrosa, do Instituto Minas Pela Paz, que buscou patrocínios de empresas como Cedro Têxtil, Anglo Gold Ashanti e entidades como Sesc e Brazil Foundation.

Para Jacopo Sabatiello, da AVSI Brasil, “trata-se de um projeto de sensibilização da sociedade sobre a necessidade de promover direitos humanos de condenados que podem dar sua contribuição”.

Baseado no tripé amor, disciplina e confiança, o método da Apac não usa vigilância armada e se vale de terapêutica penal própria, como abrigar condenados que manifestem por escrito seu desejo de mudar de vida.

Entre as regras, todos os presos precisam trabalhar e estudar. Na pandemia, as atividades produtivas, como padaria, horta, serralheria, diminuíram 70%.

As Apacs têm parceira com os governos estaduais, que repassam recursos mensais de R$ 1.050 por preso. “No sistema comum, esse custo é, em média, de R$ 3.000”, compara Ferreira, que se orgulha de o sistema alternativo ter índice de reincidência criminal abaixo de 15%, contra 80% no comum.

Formado em metalurgia, em direito e teologia, Ferreira venceu o Prêmio Empreendedor Social e ganhou o título de Empreendedor Social da Ano na América Latina, em 2017, pela Fundação Schwab, por seu trabalho nas Apacs.

“A pandemia me fez refletir acerca do meu chamado e dos desafios que temos pela frente na recuperação de pessoas que feriram a sociedade e precisam de uma chance”, avalia. “Cada preso recuperado é um bandido a menos na rua. Estou nessa causa há 40 anos e vou continuar.”

Previsto para terminar em agosto, o projeto Humanizando a Pena, Protegendo a Vida segue adiante. “Temos fôlego para produzir máscaras até dezembro”, diz Ferreira. E depois? “Não sabemos. Mas nosso trabalho no combate à Covid-19 deixa um legado enorme nas Apacs.”

As oficinas funcionarão como nova área de profissionalização para interno que chega às unidades sem guarda nem arma sob o compromisso de deixar o crime para trás.

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Humanizando a Pena, Protegendo a Vida

  • 6.500 pessoas impactadas
  • R$ 1,7 milhão em recursos mobilizados
  • 43 oficinas de corte e costura
  • 500 recuperandos envolvidos
  • 1,7 milhão de máscaras produzidas e doadas
  • 2.980 cestas básicas
  • R$ 1.050 é custo mensal por preso nas Apacs, contra R$ 3.000 gastos por detento no sistema comum
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