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'Antes de apagar, ouvi médico falar que era caso perdido', diz paciente pós-Covid

Motorista fez videochamada com familiares depois de 21 dias intubado, graças ao Conexões do Cuidar, premiado na categoria Ajuda Humanitária do Empreendedor Social do Ano

Ana Paula Franzoia
São Paulo

O motorista autônomo José Beraldo, 57, de Dumont, São Paulo, foi o primeiro paciente com Covid-19 a ter alta no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo. Morador de Dumont, ele também foi um dos primeiros beneficiados pelo projeto Conexões do Cuidar, uma das 30 iniciativas de destaque do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19.

Com a ajuda da equipe do projeto, conseguiu conversar com sua família depois de 21 dias de UTI, sendo 15 deles intubado.

*

“Era finalzinho de março quando a minha mãe ficou com dengue e precisou ser internada no hospital de Sertãozinho, perto de Dumont. Ela dividiu o quarto com outra mulher que, assim como minha mãe, tinha a companhia dos filhos dia e noite.

Se passaram alguns dias e meu irmão chegou contando que uma das filhas daquela outra senhora, estava com Covid-19. Mas eu nem me preocupei e fui seguindo a vida, não tinha ideia do perigo da doença e de como era fácil ser contaminado.

Depois de uns dias da alta da minha mãe, comecei a me sentir meio esquisito, com um resfriado chato e dores nas costas e no pé.

Por insistência da minha mãe, resolvi dar um pulo em Sertãozinho para ir ao hospital. O enfermeiro que me atendeu contou que minha pressão estava alta e que eu estava com 39 graus de febre, mesmo eu não me sentindo febril.

Ele insistiu para eu ficar internado para ser melhor avaliado, mas logo me colocaram em uma ambulância e me levaram para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Foi tudo muito rápido e estranho, pois eu realmente não estava me sentindo tão mal assim para todos estarem tão nervosos.

Já no HC me avisaram que eu tomaria uma anestesia para ser intubado. Ainda antes de apagar, ouvi um dos médicos falando que eu era caso perdido. Só acordei 15 dias depois, sem saber onde estava e o que tinha acontecido. Mas todos estavam felizes e me parabenizavam por ser o primeiro a resistir à Covid-19.

Apesar de estar acordado, eu não estava bem ainda e era assustador ver corpos sendo retirados do meu lado a toda hora.

Foi então que me levaram para um quarto isolado e a sensação de solidão era grande. Uma enfermeira passou a vir rezar comigo, mas eu não conseguia falar, não suportava a comida do hospital, não queria fazer fisioterapia nem me levantar da cama.

Numa tarde recebi a visita do pessoal da ImageMagica, que trazia um celular por onde eu conseguiria conversar com minha família. Eu já estava sem esperança de encontrar com eles, achava que tinha sido esquecido naquele hospital, nunca tinha me sentido tão sozinho e desanimado.

Falei com minha namorada, minha mãe, minhas filhas, vi meus bichos e fiquei sabendo como eles tinham sofrido por não poderem me ver também.

Foi uma felicidade danada. Aquela emoção me fez querer sair logo dali e me deu ânimo para encarar a fisioterapia, a comida e tudo o mais que fosse preciso para eu me recuperar. Foi o melhor remédio!

A previsão é que eu ainda deveria ficar internado por mais uma semana, mas eu consegui me recuperar mais rápido e tive alta bem antes. Saí sendo aplaudido pelo pessoal do hospital.

Foi uma festa, uma grande alegria, nem conseguia acreditar que eu estava voltando para casa.”

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