Descrição de chapéu Fome na Pandemia

Seca, fome e miséria no sertão nordestino na pandemia lembram anos 1990

Povoados isolados contam com doações e ajuda de voluntários para sobreviver em meio à crise sanitária

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São Paulo

A previsão de chuva no sertão neste início de outono não é das melhores. A reserva de água é insuficiente para os pequenos agricultores plantarem. O cenário faz lembrar os anos 1990, época de seca, miséria e fome no Nordeste.

"Nós só vivemos por essa doação. Sem vocês não temos como ir pra frente", relata a agricultora Maria José da Silva, conhecida como Lia, aos prantos. Moradora da zona rural de Caldeirão, no sertão de Pernambuco, ela ilustra a dor de ver o prato vazio dos filhos que deixaram de frequentar a escola devido à pandemia.

"Nossos filhos tinham café, almoço, tudo na escola; agora, sem aula, passa fome o filho, passa fome o pai. Se não fosse essa cesta básica dos Amigos do Bem todo mundo ia passar fome."

A imagem forte e o depoimento de Lia estão na campanha pró-doações para a ONG que atua no sertão há décadas e enfrenta também seca na captação de recursos para as organizações sociais.

“No sertão nordestino a miséria é secular, é uma batalha diária”, diz Alcione Albanesi, presidente fundadora dos Amigos do Bem. Em 2019, ela foi finalista do Prêmio Empreendedor Social e vencedora da Escolha do Leitor.

A mesma luta compartilhada pelo CEPFS - Centro de Educação Popular e Formação Social, que atua no semiárido paraibano, onde as sobras da produção, que eram vendidas nas feiras livres antes da pandemia, são alojadas dentro das casas dos sertanejos.

“O pouco que os agricultores têm, não arriscam vender, vão comer”, diz José Dias, coordenador executivo da ONG.

O paraibano passou fome quando menino nos anos 1970. “Cheguei a comer folha de umbu”. Em 1989, criou a organização que busca soluções para o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar no semiárido.

mulher sentada em seu quarto no sertão nordestino
Maria Aparecida dos Santos, de Inajá (PE), é uma das beneficiárias das ações dos Amigos do Bem - Renato Stockler

Neste ano, José aponta o agravamento da insegurança alimentar e da miséria nas regiões mais isoladas: “Já calculamos de 150 a 200 famílias passando fome”. Na zona rural, a sobrevivência se dá pela terra, mas nem sempre dá para se nutrir com o que vem da roça.

“Quem mora no sítio pode criar uma galinha, fazer suco de fruta, um cuscuz de milho, mas a ciranda está se complicando porque estão se esgotando os pequenos estoques e possibilidades”, diz o finalista do Empreendedor Social de 2011.

Pesquisa recente da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) apontou que 14% dos lares nordestinos vivem em insegurança alimentar; são 18% no Norte. É mais que o dobro da outras regiões brasileiras. Segundo dados do IBGE de 2020, mais de 24,3 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza na região.

Nos povoados mais distantes dos centros urbanos, a ajuda só chega por meio de ONGs e entidades religiosas. Todos os meses, voluntários dos Amigos do Bem aparecerem nas casas de taipa nos povoados, que ficam a horas de distância das grandes cidades.

Energia elétrica é coisa rara. À vista, só terra seca e casas de barro. As crianças ajudam na roça enquanto as aulas não voltam. Não tem comércio e não sobra dinheiro para o transporte.

As famílias não têm acesso a cartões digitais, que foram essenciais na ajuda humanitária oferecida por ONGs durante a pandemia, e o atendimento de porta em porta é o que garante alimento para aqueles que não têm a quem pedir ajuda. “Quem tem fome não é livre”, diz Albanesi.

A Amigos do Bem distribuiu 200 mil cestas para 300 povoados na primeira onda da pandemia. Precisou paralisar atividades educacionais e de geração de renda –investimento no rompimento do ciclo de miséria no sertão– e colocou energia na ação emergencial, apoiando hospitais locais com a doação de sete ambulâncias e mais de 500 mil itens de saúde.

Albanesi conta que as doações reduziram enquanto o trabalho só aumenta. “Precisamos desenvolver uma cultura onde o ato de doar seja contínuo e não somente uma resposta às grandes crises.”

Na ausência de políticas públicas e de articulação nacional para socorrer o povo sertanejo, José acredita que organizações sociais e a sociedade precisam seguir estendendo a mão aos mais vulneráveis. “Não se pode cruzar os braços.”

Em campanha para arrecadar cestas básicas, José considera o auxílio emergencial insignificante diante da inflação e diz que comerciantes locais temem saques com a escalada da fome.

O sertão nordestino enfrenta um cenário de colapso social que pede mobilização nacional. Mas algo entusiasma José repentinamente: “Estou escutando a chuva. E a chuva sempre anima.”

Veja abaixo como apoiar as duas campanhas de combate à fome no sertão nordestino.

Alimentos para agricultores e agricultoras que têm fome
Centro de Educação Popular e Formação Social – CEPFS
Banco do Brasil
Agência 1156-8
Conta corrente 13015-X
CNPJ 24.226.128-36
www.cepfs.org.br

Amigos do Bem
Pelo site https://doar.amigosdobem.org/acaoemergencialpf
Por depósito bancário ou Pix:
Amigos do Bem Inst. Nac. Contra a Fome e a Miséria
CNPJ 05.108.918.0001/72
Banco Itaú
Agência: 0466
Conta corrente: 64653-6
Chave Pix: itau646536@amigosdobem.org​

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