Produtora rural aponta fome, demissão e êxodo no campo e busca evitar desperdício

Projeto FaçaumBemINCRÍVEL concorre na Escolha do Leitor em que público pode, além de votar em suas preferidas, doar para ações de enfrentamento à Covid-19

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São Paulo

A pandemia tem deixado no campo um rastro de fome, demissão e êxodo rural. A análise é de Simone Silotti, produtora do cinturão verde de São Paulo que criou projeto para evitar desperdício de alimentos durante a crise sanitária.

A fome chegou a 12% dos domicílios rurais neste ano, contra 8,5% na área urbana, segundo pesquisa da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

Outro estudo, coordenado pela Universidade Livre de Berlim em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade de Brasília, apontou que a insegurança alimentar grave atinge 27% das casas no campo.

“Vejo o ciclo se repetindo e pouca solução”, diz Silotti, que produz alimentos no Quintal da Coruja, pequena propriedade em Mogi das Cruzes (SP). “São milhões em insegurança alimentar de um lado e, do outro, produtores rurais que continuam com dificuldades para escoar a produção.”

Em 2020, com o projeto #FaçaumBemINCRIVEL, ela conseguiu destinar 160 toneladas de alimentos a entidades sociais, conectando 80 produtores e duas cooperativas a ONGs, bancos de alimentos, orfanatos e cozinhas solidárias. Em 2021, já são 200 toneladas doadas.

“Embora o projeto tenha nascido no caos e de forma intuitiva, como forma de sobrevivência, conseguimos criar mecanismos para combater o desperdício, apoiar o pequeno produtor e fazer alimentos chegarem a quem precisa”, explica Silotti.

Neste ano, ela conta que o cenário no campo agudizou. O pequeno produtor rural vem diminuindo drasticamente o plantio porque não tem fluxo de caixa para manter a roça. Com isso, precisa reduzir a folha de pagamento e demite trabalhadores, que se deslocam para áreas vulneráveis de grandes cidades.

As hortaliças frescas precisam de 70 a 90 dias para serem ofertadas. “São vendidas a preços muito baixos porque caiu o poder aquisitivo da população e caíram os canais de escoamento, que estão se reinventando”, diz.

Silotti lembra que, com o fechamento de restaurantes por longos períodos na pandemia e o crescimento de pedidos por delivery, caiu a compra de alimentos frescos do campo. “Restaurantes eliminaram o buffet e o delivery se volta à venda de processados. Ninguém pede salada em casa.”

Outra variável que impacta na produção são as mudanças climáticas. “Tivemos chuvas excessivas de granizo no primeiro trimestre do ano”, afirma.

O Brasil é 10° colocado no ranking mundial de desperdício, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Com ajuda de uma planilha e presença em vários grupos no WhatsApp, Silotti ouve as dores dos produtores, que a procuram para escoar mercadoria.

“O desperdício não é só do pé de alface”, diz ela. “É de mão de obra, de água, de nutrientes, de diesel.”

Produtora Simone Silotti é dona do Quintal da Coruja, em Mogi das Cruzes, região do Cinturão Verde de São Paulo - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Um sistema alimentar novo que encurte a cadeia entre produtor e mercado seria fundamental, segundo ela, para evitar perdas e a fome no campo. “A mercadoria chega a ser 200% mais cara no supermercado e produtor rural recebe cada vez menos”, afirma.

Em busca de alternativas para suas "rudimentares planilhas” e para diminuir o desgaste emocional, Silotti vem estudando a criação de uma plataforma de georreferenciamento. Ela conectaria o campo a organizações sociais que coletariam alimentos que seriam desperdiçados.

O pequeno produtor receberia uma recompensa pela doação –algo semelhante a um programa de pontos, bancado por empresas que tenham interesse no setor agrícola.

O projeto #FaçaumBemINCRÍVEL vai à votação popular na categoria Legado Pós-Pandemia, concorrendo com outras nove iniciativas na Escolha do Leitor. "O prêmio abraçou uma solução que não tinha estrutura e que está se fortalecendo a cada dia e fazendo a diferença na vida de muita gente”, afirma Silotti.

O público poderá eleger seu finalista favorito em cada uma das categorias em formato inovador no qual a enquete, no site da Folha, torna-se também plataforma de doação. Os vencedores, tanto os recordistas de votos quanto os líderes na captação de doações, serão anunciados ao longo de 2021.

COMO VOTAR NA ESCOLHA DO LEITOR

Passo 1 Acesse folha.com/escolhadoleitor2021 e escolha a iniciativa que mais fez seus olhos brilharem

Passo 2 Clique no botão "Quero votar" e aguarde a confirmação

Passo 3 Faça uma doação para uma delas clicando em "Doar agora"

Passo 4 Preencha seus dados, valor da doação e clique em "Enviar"

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