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A nova globalização da pandemia

Precisamos, urgentemente, reaprender a pensar de forma empática, de modo que esta seja a nova moeda global

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Valdir Cimino

Fundador e conselheiro administrativo da associação Viva e Deixe Viver e professor de Comunicação e Audiovisual da Faap. Integra a Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

Toda crise gera paralisações e rupturas. É um processo histórico. O reposicionamento diante de crises, sejam políticas, econômicas ou humanitárias, que frequentemente estão associadas, é inevitável.

Nesse momento, o vírus da Covid-19 e suas variantes gera também um rompimento com variantes de impacto, onde repensar um ou outro setor da convivência humana não é mais a solução. Precisamos, urgentemente, reaprender a pensar de forma empática, de modo que esta seja a nova moeda global.

O que isso quer dizer? A grosso modo, quer dizer que o capitalismo liberal acabou. Que um dos profundos efeitos colaterais que a pandemia traz é em relação ao consumo, importações e economia.

E que tudo isso influi diretamente em um estilo de vida que há tempos não é mais sustentável —literalmente— e que de maneira alguma poderá voltar, ou ser disfarçadamente repagindo como “um novo normal”.

Quer dizer também que o contexto associado a esse estilo de vida não pode ser mais como incentivava o capitalismo, ou seja, individualista e egocêntrico.

E, em síntese, quer dizer também que os pressupostos de competitividade e até mesmo de liberdade individual necessitam mudar para que, enquanto sociedade, possamos acompanhar tudo o que já mudou. O estado de bem-estar social e todas as garantias de igualdade e qualidade de vida devem ganhar foco em prol da reconstrução que estamos encarando.

Tal reconstrução é de pensar e de agir: a coesão social e um esforço para pensar no todo é o que nos faz resistir a situações de extrema pobreza, de desemprego, e de tantas outras desigualdades.

Essa resistência, sim, deveria ser mola propulsora para o novo normal que todos precisamos, e que nos tornaria imunes à indiferença, à exclusão, e a isolamentos muito piores do que esse trazido pelo vírus.

Reconhecer, nessa jornada de transformação, que precisamos uns dos outros, torna a solidariedade chave para uma globalização pós-pandêmica. A empatia será moeda valiosa de troca, numa humanidade mais forte, resiliente e, finalmente, consciente de que, em verdade, não veio para competir, e sim para somar.

Falando em somar, um grande passo para essa consciência já foi dado com o Catalyst 2030, movimento global de empreendedores sociais e inovadores de diferentes setores que somam esforços para engajar a sociedade civil na implementação dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Lançado em janeiro de 2020, durante o Fórum Econômico Mundial, o Catalyst 2030 reúne milhares de empreendedores sociais, cujo trabalho impacta diretamente cerca de dois bilhões de pessoas em 180 países.

Acreditamos na força das ações coletivas e na valorização das organizações da sociedade civil como importante instrumento para elaboração de estratégias inovadoras com o objetivo de alcançar as metas previstas até 2030.

Infelizmente 2030 não será o suficiente. Cientistas preveem que se começarmos hoje com envolvimento e a consciência de governos, empresas e pessoas, o ano de 2078 poderá vir a ser um bom planeta para vivermos.

O movimento Catalyst mira três temas necessários para a transformação: conectar, celebrar e acelerar.

Em conectar, o cerne da teoria da mudança prevê que atuemos como conectores entre os diversos integrantes dos ecossistemas dos quais fazemos parte. O objetivo é criar um ambiente que propicie a colaboração num estágio capaz de resultar na cocriação de iniciativas para dar conta das demandas sociais, ambientais e econômicas do nosso tempo.

A celebração é uma boa maneira de nos encorajar, inspirar e reenergizar sobre a relevância do trabalho e o engajamento de cada um. A partir da disseminação de boas práticas e iniciativas exitosas, podemos gerar um efeito cascata positivo em outros agentes sociais interessados em arregaçar as mangas e se engajar neste trabalho.

Em aceleração, ao colocarmos lado a lado stakeholders de diversos segmentos sociais, esperamos que eles acabem funcionando como indutores de mudanças em políticas sociais. Para isso não podemos abrir mão do engajamento de gestores públicos, nem de legisladores.

Afinal, como destacado em diversos documentos e relatórios (Embracing Complexity, Getting from Crisis to Systems Change and New Allies), o suporte de agentes sociais ao setor público é chave para que consigamos implantar todas as iniciativas previstas nos 17 ODS em nível local, nacional e global.

Com esses três pilares e a empatia como base, a consciência se altera de forma proporcional à velocidade que precisamos afinal, nenhuma mudança externa se realiza sem antes modificarmos valores internos.

Sai a competição, entra a cooperação. Que venha esta cura para cada um e todos nós, após tantas crises. Estaremos mais fortes e prontos.

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