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Famílias que vivem em palafitas no Amapá ganham tratamento de água e esgoto de empresa social

Parceria entre Florescer Brasil, Magazine Luiza e Caloi beneficia 550 pessoas que moram sobre o rio Amazonas, em Macapá

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São Paulo

O apagão no Amapá, em 2020, não foi exatamente uma surpresa para as famílias que vivem em palafitas acima do rio Amazonas, no bairro Congós, em Macapá. Acostumados a ficar dias sem luz e água e uma vida inteira sem esgoto, moradores da região começaram a ter acesso a saneamento básico neste mês.

Uma parceria entre a empresa social Florescer Brasil, o Magazine Luiza e a Caloi vai garantir que casas da 22ª passarela do bairro tenham água potável sem intermitências, coleta de esgoto e compostagem. Em torno de 550 pessoas estão sendo beneficiadas.

“Instalamos todo o sistema de água em cinco dias”, conta Felipe Gregório, arquiteto fundador da Florescer, com sede em São Paulo. “Fizemos um mutirão, contratamos encanadores e pedreiros da comunidade.”

Foram instalados um reservatório central de 15 mil litros e um sistema de bombeamento que funciona com captação solar, evitando o impacto das quedas de energia. Caixas d'água foram distribuídas para famílias mais vulneráveis, que chegam a gastar metade da renda com água engarrafada.

Até o final de julho, o esgoto será captado em estruturas acopladas ao fundo das casas. O sistema biodigestor, que decompõe a matéria orgânica, devolve água tratada aos moradores. “Fizemos uma cartilha para que eles beneficiem o lodo que fica no fundo e o destinem à agricultura”, afirma.

Uma das cenas que marcou Gregório em uma visita, em novembro, época do apagão que deixou a população por mais de 20 dias com fornecimento de eletricidade racionado, foi o esgoto a céu aberto.

“Os dejetos do banheiro são jogados no rio onde passa o encanamento da água, logo abaixo das casas. E, como há fissuras na tubulação, você pode imaginar o que eles estão bebendo.”

Uma das lideranças locais, Lilian Braga, diz que a água chega aos moradores dia sim, dia não. “Temos que armazenar para o dia seguinte, e algumas pessoas guardam em baldes, mas não é própria para consumo.”

“É bem difícil o dia que dá água o dia todo. Tem dia que não tem para tomar banho”, diz um morador.

Antes de a Florescer chegar, famílias da passarela rateavam o custo da energia da bomba que capta água do poço artesiano. Como o solo amazônico é rico em minérios, era preciso decantar a água para separar metais pesados como o arsênio. Com o apagão do ano passado, a bomba estava sem funcionar.

Estrutura da 22ª passarela do bairro Congós, em Macapá
Estrutura da 22ª passarela do bairro Congós, em Macapá - Everton Fernando

“É chocante a incidência de câncer na primeira infância em áreas de várzea por contaminação da água”, explica Gregório. No período de desenvolvimento do projeto, ele teve contato com famílias que precisam se deslocar para São Paulo em busca de tratamento médico.

O mar de plástico à beira do rio Amazonas impactou o arquiteto. As empresas estabeleceram pontos de entrega voluntária de material reciclável ao longo da passarela, fomentando a criação de uma cooperativa de reciclagem que possa gerar emprego e renda.

A compostagem será o último passo. A equipe descobriu que o descarte da semente do açaí, base da economia local, contamina o solo. “A ideia é agregar valor à semente, extrair seu óleo e criar um novo mercado”, diz Gregório.

Apenas 7 de 100 amapaenses têm coleta de esgoto, e 1 em cada 3 tem água tratada, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.

A Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa) vai a leilão em setembro. Em junho, a Equatorial Energia venceu o leilão de privatização da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA).

"O maior problema ambiental do Amapá, mesmo estando na Amazônia, não é o desmatamento nem as queimadas, é o saneamento básico”, disse o governador Waldez Góes (PDT) em evento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) neste ano.

Certo de que o projeto da 22ª passarela do Congós é replicável para outras cem passarelas da região, Felipe Gregório aposta em parcerias público-privadas para garantir que a solução ganhe escala.

“Estão pensando cidades tecnológicas que custam bilhões e às vezes você só precisa fazer o essencial com custo baixo”, afirma.

No período em que esteve lá, em junho deste ano, o arquiteto teve encontros com o senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP) e com membros do BNDES, que visitaram as palafitas. A prefeitura mobilizou um mutirão de limpeza e construiu um parquinho no local.

“Tem muito trabalho social a ser feito e, tendo recurso, conseguimos replicar e levar dignidade”, diz Gregório, que desenvolve um aplicativo para ajudar a diagnosticar problemas da comunidade a distância.

Entre as boas recordações que guarda do projeto, ele lembra de uma história: “No meio da instalação, depois que houve a limpeza da prefeitura, começaram a gritar que tinha uma cobra dentro da casa de alguém. Fazia anos que não viam animais por conta da sujeira.”

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