Arquiteta da favela se une a mães sem renda por moradias dignas

Ester Carro supera pobreza, transforma lixão na periferia em parque e insere mulheres na construção civil com projeto Fazendeiras

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São Paulo

As revistas que a avó trazia da casa da patroa eram folheadas enquanto Ester não pegava no sono. O medo dos ratos, que espreitavam seu beliche à noite, não impedia a menina de sonhar. Queria ser arquiteta para mudar a favela onde vivia.

Eram os anos 1990 no Jardim Colombo, região do complexo Paraisópolis, em São Paulo. Nordestinos como Ivanildo de Oliveira, pai de Ester, fizeram morada ali, em barracos de madeira, numa tentativa de dar aos filhos uma infância com mais que água quente e farinha no prato.

Mas viver com lixão na frente de casa, bichos, cheias do córrego Itararé e primos brincando na água suja incomodavam a criança.

"Eu escutava: como uma negra da favela, que mora em casa sem decoração, em que entram ratos quando chove, vai ser arquiteta?", afirma Ester.

mulher negra encostada em parede
A arquiteta Ester Carro transforma lixão no Jardim Colombo em parque para a comunidade - Gabriela Caseff

Com avô marceneiro e pai pedreiro, sabia que tinha algum talento para a construção civil. O caminho era o estudo, direito ao qual os pais não acessaram, e a disciplina para alcançar o sonho.

Essa veio do esporte, com incentivo de Ivanildo, que corria maratonas. "Fiz atletismo dos 8 aos 16 anos em um projeto social", lembra ela.

Na escola, Ester era aluna dedicada, mas tinha medo do bicho-gente. "Uma professora me batia, puxava o cabelo. As crianças falavam dos meus olhos, das roupas, faziam desenhos." Sem dinheiro, a menina e os dois irmãos eram vestidos com peças doadas.

Eu escutava: como uma negra da favela, que mora em casa sem decoração, em que entram ratos quando chove, vai ser arquiteta?

Ester Carro

Projeto Fazendeiras

Pelo seu empenho, a adolescente conquistou bolsas de estudo, ajuda para pagar a faculdade que tanto queria e atraiu interesse de pessoas e instituições com olhar para comunidades vulneráveis.

Aos 26 anos, Ester Carro é arquiteta, urbanista social, pesquisadora no tradicional Insper e presidente do Fazendinhando, movimento de regeneração territorial, cultural e social no Jardim Colombo.

Seu primeiro projeto foi transformar um lixão em parque. "Quando eu era criança, a fazenda do seu Chico era um dos últimos lugares verdes. Ele ficou doente, sem condição de cuidar, e as pessoas começaram a fazer descartes."

A partir de 2017, toneladas de lixo, entulho e móveis foram retirados do espaço, que tem 1.000 m2. O projeto do parque Fazendinha inclui agrofloresta, brinquedos, pavilhão e quadra esportiva. "No começo foi complicado porque os moradores achavam que nada ia acontecer", afirma Ester.

menina negra de vestido rosa posa em mureta que dá de frente para a favela de Paraisópolis, repleta de casas logo acima de avenida movimentada
Ester Carro, 26, é presidente do Fazendinhando - Folhapress

"O desafio é a mudança da percepção do território, na cabeça das pessoas aquilo ainda era um lixão", diz Tomás Alvim, 58, fundador do Arq. Futuro e conselheiro do Fazendinhando.

A mudança envolveu processos participativos e atividades culturais. "O parque traz outra forma de existência, um espaço de fruição, de convívio e sobrevivência a uma vida adversa", diz Tomás.

Em 2020, a pandemia desacelerou o projeto. O Fazendinhando se voltou à ajuda humanitária, em ação com a Associação de Moradores do Colombo, presidida por Ivanildo.

"Fizemos uma vaquinha e só conseguimos 28 cestas", lembra Ester. Pouco tempo depois, com apoio de organizações como Itaú Social, Fundação Tide Setúbal e Fundação Galo da Manhã, seriam distribuídas 25 mil cestas básicas, além de frutas e verduras, kits de higiene e marmitas.

A ajuda extrapolou a favela, beneficiando mais 13 comunidades. "Pessoas que me fizeram mal na escola receberam cestas das minhas mãos."

Era só o começo do trabalho comunitário na pandemia. Levantamento do Núcleo Mulheres e Territórios do Laboratório Arq. Futuro de Cidades do Insper, onde a arquiteta leciona e pesquisa, apontou número alarmante de mães desempregadas e com baixa escolaridade em periferias.

De 949 chefes de família entrevistados, 702 eram mulheres, em sua maioria mães solo. Quase 55% estavam sem ocupação e 28% atuavam na informalidade. Menos de 30% tinham o ensino médio.

Na concretude dos números, Ester enxergou histórias de vizinhas e a sua própria. Ela também era mãe solo.

Engravidou durante a faculdade. "Escondi a barriga, tinha vergonha e medo." Aos quatro meses, contou para a mãe, Gabriela, que a apoiou nos piores momentos. "Tive gravidez de risco e depressão, eu só chorava."

Como sabia que cestas não viriam para sempre, em outubro de 2020, agiu para empoderar mulheres da região. "Começamos com aulas de gastronomia. Elas aprendiam técnicas e produziam na cozinha comunitária. Depois, fomos para a construção civil."

A ideia era atender a duas demandas da comunidade: desemprego e moradia precária. "Entro nas casas e não vejo conforto, vejo agonia", diz Ester. "Elas dizem 'não repara, tô sem dinheiro, pedreiro é caro e não sei o que fazer'. Por que essas mulheres não podem reformar suas próprias casas e empreender?"

Para tirar o projeto Fazendeiras do papel, Ester criou cursos de azulejista, pintura, eletricista e artesanato. Mais de 80 mulheres colocaram a mão na massa e empunharam pincéis, pás e martelos contra goteiras e trincas.

"Aprendi a deixar chão nivelado, mexer massa, assentar azulejo, tudo o que homem faz", diz Maria Gorete Ribeiro, 53.

Os cursos incluem empreendedorismo, empoderamento feminino e sustentabilidade. As aulas práticas são na favela. "Cada dia a gente escolhia um espaço na casa das alunas. Pintamos parede, colocamos piso, somos pau para toda obra", diz Gorete.

"Elas criam vínculos, se ajudam", diz Ester, que esteve recentemente na Casa Cor com as 'fazendeiras'. Parte delas foi inserida na construção civil, que emprega menos de 1% de mão de obra feminina.

Caso de Heide Ferreira, 34, três filhos. Diarista antes da Covid, hoje aplica revestimentos em empreendimentos. "Percebi que sou capaz de desenvolver qualquer atividade."

Com o plano de reurbanização finalmente em execução, o Jardim Colombo vai ganhar um parque linear. E as obras no Fazendinha devem ser retomadas no ano que vem.

"Ester acredita em uma forma de transformar por meio de arte, arquitetura e agricultura urbana", diz Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis. Ele foi destaque no Prêmio Empreendedor Social 2020, quando criou presidentes de rua para encarar a Covid.

"Ela é o rosto dessa nova geração de mulheres da favela que empreendem, se empoderam e ajudam os demais a viver melhor", completa.

Para Tomás Alvim, do Arq. Futuro, o papel da arquiteta extrapola o Colombo. "Temos que criar oportunidades para que pessoas como ela trilhem caminhos semelhantes. Porque as competências estão na comunidade, as oportunidades é que não estão."

A finalista do Prêmio Empreendedor Social 2021 mora hoje em Paraisópolis com Ilias, 6. Acorda às 6h para treinar na rua. De vez em quando recebe revistas da avó. E ainda tem medo de rato. Só que agora eles não atrapalham mais seu sono: Ester tem motivos para sonhar acordada.

"Arquitetura significa dignidade. Traz beleza, mexe com nossos sentidos. E não é só porque está nas classes altas que não pode estar nas moradias das periferias."

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