Engenheiro cria 14 fundos para levar milhões para a emergência na Covid

À frente da Sitawi - Finanças do Bem, Leonardo Letelier inova com parcerias e movimenta R$ 175 milhões para hospitais e Amazonas

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São Paulo

A habilidade de se adaptar foi desenvolvida por Leonardo Letelier desde cedo, quando veio para o Brasil com os pais, professores universitários que deixaram o Chile devido à perseguição da ditadura de Augusto Pinochet, implantada em 11 de setembro de 1973, dois dias após seu nascimento.

"Eu nasci no Chile, mas sou brasileiro. Fiquei lá só até os três meses", diz Leonardo. "Desde criança aprendi que o melhor lugar é onde estamos e que temos que nos virar." Vive no Rio, mas já morou em Brasília, Campinas e São Paulo.

homem de blusa roxa posa em frente a uma biblioteca repleta de livros, com parede amarela ao fundo
Leonardo Letelier, 47, é fundador e CEO da Sitawi - Finanças do Bem - Renato Stockler

O brilho nos estudos o levou a trocar de CEP ao ser aprovado em engenharia na USP. Daí foi um pulo para se tornar consultor na McKinsey.

A facilidade com números e a bagagem na prestigiosa consultoria, onde chegou a gerente sênior, não o distanciaram de um olhar mais humanizado, que aflorou após mochilar na Europa e se encantar pelas pessoas. "Até então via humanos como recursos. Ganhei uma nova visão."

Esse sentimento se solidificou em 1999, quando se aproximou da Ashoka, organização voltada ao empreendedorismo social, e conheceu a médica Vera Cordeiro, que fundou em 1991 o Saúde Criança (hoje Instituto Dara) e já impactou mais de 80 mil pessoas.

"Ele é extremamente inteligente e empreendedor social que sempre quis fazer a diferença na vida das pessoas. Ter atuado na área de negócios, na minha opinião, ajuda a impactar mais pessoas", diz Vera.

E 1999 ainda deu novo sentido à vida de Letelier, já que em fevereiro, no Carnaval de Olinda (PE), ele conheceu e engatou namoro com a mineira Lucimara. Após o contato com Vera e trabalhos voluntários em ONGs, Letelier, 48, se inscreveu para MBA de gestão em Harvard. E chegou aos EUA casado com Lucimara, 44, que é gestora cultural e diretora do Museu Vivo.

"Meu casamento prova que não preciso ter todas as informações para tomar grandes decisões. Eu a amava, ela me amava, e isso bastava", diz ele. Casaram-se após um ano e meio de namoro, no MAM.

E foi ao lado de Lucimara que Letelier teve outra "anunciação". Desta vez, na África, em 2002, quando se desafiaram a subir o Kilimanjaro, um dos sete montes mais altos do mundo, com 5.895 m.

O empreendedor social Leonardo Letelier com a esposa Lucimara, que é gestora cultural e diretora do Museu Vivo, e a filha, Clara
O empreendedor social Leonardo Letelier com a esposa Lucimara, que é gestora cultural e diretora do Museu Vivo, e a filha, Clara - Arquivo Pessoal

Após seis dias de caminhada, ele chegou ao topo e desatou a chorar. Na descida, com a cabeça a mil, sabia que tomaria outro rumo: o empreendedorismo social e a vontade de melhorar a vida das pessoas.
Em 2007, quando abriu seu negócio de impacto social, ele o batizou de Sitawi, que significa florescer ou desenvolver em suaíli, língua dos tanzanianos e quenianos que o ajudaram na subida ao Kilimanjaro. "Esses conceitos pautam a organização. O florescer é o lado mais humano, lúdico, inovativo, e o desenvolver, o lado econômico e regras de negócio."

A missão era atacar um gargalo em projetos sociais: as finanças. Os primeiros dois investimentos da Sitawi - Finanças do Bem foram com dinheiro do próprio Letelier, numa época em que não se falava em finanças sociais no Brasil. Em 2008, esse pioneirismo o levou a apoiar a Solidarium, que beneficiava artesãos, e a Daspu, grife da ONG Da Vida que lutava por direitos das prostitutas.

Mostrava, de cara, que não tinha medo de polêmica, desde que a causa e o impacto estivessem no escopo das ações.

Desde lá a Sitawi é cada vez mais estruturante em seus aportes, seja via doações, empréstimos ou investimentos —já apoiou 1.650 iniciativas em 15 anos. Isso ficou claro na pandemia e em seu líder, que nem liga quando é visto como banqueiro, o que já aconteceu com o pai, falecido em 2011. E também com o economista Armínio Fraga, que brincou: "Ah, isso é papo de banqueiro", quando Letelier narrava como contabilizou calote de uma ONG.

Após proteger a equipe em meio ao temor trazido pelo vírus, Letelier pensou em modelos a serem adotados para que o recurso pudesse chegar mais rápido e que beneficiasse a linha de frente contra a Covid.

"Eu crio mecanismos para atacar os problemas", diz ele.

Assim criou 14 fundos filantrópicos, que somaram R$ 175 milhões, o que o coloca entre os empreendedores sociais que geriram mais recursos no combate à pandemia. Para inovar na aplicação das cifras, ele reforçou o time, que cresceu 63%. Profissionais que ajudam a gerir fundos, como o Matchfunding Salvando Vidas, que se destaca por seu desenho, execução, beneficiados e legado. Nele Letelier juntou banco estatal, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), empresas e doadores pessoa física.

Eu crio mecanismos para atacar os problemas

Leonardo Letelier

empreendedor social, ao explicar seu trabalho à frente da Sitawi

"O modelo de matchfunding foi algo novo para o BNDES. E será replicado em ações com base na COP26. Confiamos na transparência e nos processos da Sitawi, e isso permitiu a todos seguir doações e entregas de ponta a ponta", diz João Pieroni, 37, chefe de departamento do complexo industrial e do serviço de saúde do BNDES.

A cada R$ 1 doado ao fundo, o banco dá R$ 1, o que beneficiou 924 hospitais em 700 cidades. Cada pedido era debatido com Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas, BNDES, Bionexo e E&Y e teve gestão financeira da Sitawi.

"Toda semana a gente se reúne para definir o que comprar e enviar", diz Pieroni, que destaca o legado das ações, em especial para o SUS, com a doação de 12 usinas de oxigênio, 79 milhões de EPIs e equipamentos. "As ações ficam, como o barco-hospital que atenderá a 20 mil ribeirinhos. E a usina que enviamos para hospital de Roraima, que é a única do estado."

Esse fundo de R$ 132 milhões —e outros, como União Amazônia Viva, Seguimos Juntos e Exemplo Arrasta— foi decisivo na crise de oxigênio no Amazonas em janeiro. Assim, Letelier e parceiros impactaram 8 milhões de pessoas. "A parceria da Sitawi foi como bálsamo no meio de um caos enorme", diz a irmã Rosane Ghedin, diretora-presidente da Rede de Saúde e Cultura Santa Marcelina.

Entre planilhas e urgências, o empreendedor social ajudava na lição de casa da filha Clara, 7, e lidou com a tensão de ver a esposa com Covid. "Ele também pegou e ficou assintomático", conta Lucimara.

Mesmo gerindo 14 fundos —e mais dois que criou nos últimos meses— e outros 24 ativos na Sitawi, Letelier não para. "Vamos também trabalhar com fundos patrimoniais. E a ideia é criar caixa e investir em causas órfãs", diz ele, citando entre elas qualidade da morte e temas de direitos humanos. "Não tem bala de prata para resolver todos os problemas. Mas temos que inovar e seguir trabalhando com amor."

Leonardo Letelier, 48, é o vencedor da categoria Emergência Sanitária do Prêmio Empreendedor Social em Resposta à Covid-19 em 2021.

O vencedor na categoria Emergência Sanitária, Leonardo Letelier, com Fundos Filantrópicos contra Covid-19, no momento do anúncio na cerimmônia do Prêmio Empreendedor Social, realizada nesta terça (30 de novembro), no auditório da Folha
O vencedor na categoria Emergência Sanitária, Leonardo Letelier, com Fundos Filantrópicos contra Covid-19, no momento do anúncio na cerimmônia do Prêmio Empreendedor Social, realizada nesta terça (30 de novembro), no auditório da Folha - Jardiel Carvalho/Folhapress

Fundador da Sitawi - Finanças do Bem e pioneiro no desenvolvimento de soluções financeiras de impacto social e de fomento a entidades do terceiro setor, o engenheiro liderou na pandemia os Fundos Filantrópicos contra Covid-19.

Letelier concorreu na categoria que mede mitigação da Covid-19, com a economista Luciana Quintão, que é fundadora da ONG Banco de Alimentos e da campanha Brasil Sem Fome, e as arquitetas Daniela Giffoni e Bianca Russo, que criaram o Coletivo Arquitetos Voluntários.

Ao todo 317 projetos se inscreveram nesta segunda edição com foco no enfrentamento da pandemia da premiação realizada pela Folha em parceria com a Fundação Schwab.

O Prêmio Empreendedor Social tem patrocínio de Gerdau, Ambev, Sesi/Senai, Coca-Cola e Vedacit e parceria estratégica de Ashoka, ESPM, Fundação Dom Cabral, Pacto Global e UOL.

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