'Médica do Zap' leva tecnologia acessível e eficaz para vulneráveis

Pioneira em telemedicina na crise sanitária, Adriana Mallet leva assistência a 320 cidades com organização SAS Brasil

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Rio de Janeiro

Em 2013, Adriana Mallet, 40, e Sabine Zink, 36, entraram no cinema para assistir a um documentário e saíram da sessão com um propósito: melhorar a vida da população brasileira em vulnerabilidade social.

O catalisador desse desejo foi o longa "Quem se Importa". Dirigido por Mara Mourão, o filme apresenta a história de pessoas que desenvolveram iniciativas para impactar o mundo de forma positiva.

O casal resolveu, então, apostar no empreendedorismo social. Juntas há dez anos, elas se conheceram na Unicamp (SP), universidade onde Adriana estudou medicina; e Sabine, educação física. O que as uniu foi justamente a vontade de mudar o mundo.

mulher loira de blusa azul cruza os braços sorrindo em frente a painé laranja escrito SAS Brasil e Sertões
Adriana Mallet Toueg, 40, é coordenadora médica da SAS Brasil - Renato Stockler

"Entendemos que a gente se importava. Tínhamos o desejo e as possibilidades de retribuir os privilégios da nossa formação", diz Sabine, traduzindo um sentimento que é também de Adriana, sua companheira.

Sob a inspiração do documentário, a dupla resolveu fazer uma viagem pelo Norte e pelo Centro-Oeste levando atendimento médico a pessoas desassistidas. Para colocar o projeto de pé, elas reuniram oito voluntários e fizeram um financiamento coletivo, que levantou R$ 14 mil.

Para garantir segurança e suporte logístico, contaram com apoio do Rally dos Sertões, tradicional competição esportiva realizada no semiárido brasileiro desde 1991, que agrega ações socioambientais ao longo do percurso.

No primeiro ano, a SAS Brasil levou atendimento médico a 1.500 pessoas em cidades de Goiás e do Tocantins. A partir daí, a organização passou a desbravar o Brasil profundo.

De forma itinerante, possibilitava consultas com médicos especialistas em cidades com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e de até 30 mil habitantes.

Com a chegada da pandemia, a iniciativa precisou se reinventar. Foi quando a SAS Brasil passou a empreender uma espécie de rali tecnológico na saúde, numa corrida contra o tempo para responder aos desafios da Covid-19 por meio da telessaúde.

Isso foi possível porque, diante da crise sanitária, em março de 2020, o Ministério da Saúde autorizou o uso da telemedicina no país.

Apaixonada pelas áreas de urgência e emergência médica, Adriana encontrou ali a oportunidade para ampliar a atuação da startup social. A médica acionou a equipe de TI para disponibilizar em uma semana tecnologia para os atendimentos.

"Tenho essência empreendedora, paixão por tirar ideias do papel", afirma a paulistana, que tem formação multidisciplinar nas áreas de ciências biológicas e saúde. É pós-graduada em administração de empresas pela FGV/SP e em docência em saúde pelo Instituto Israelita Albert Einstein de Ensino e Pesquisa.

Todo esse conhecimento foi direcionado para o projeto que partiu da ideia de "ser a médica do zap" em plena pandemia. "A gente percebeu que quem tinha um poder aquisitivo melhor teria o médico no WhatsApp. Para quem mora em comunidade e não tem essa chance, como é que vai ser?", questionava-se ela.

"Nossa grande inovação foi pensar simples. O sistema de acolhimento, triagem e agendamento seria feito usando o WhatsApp como via de acesso", explica Adriana.

No caso da SAS Brasil, o programa de saúde a distância funciona assim: os pacientes passam por uma triagem pelo WhatsApp, onde explicam o que estão sentindo a voluntários, a maioria alunos de medicina. Depois, recebem um link que os encaminha para a Sias (Sistema Integrado de Acesso à Saúde), plataforma de telessaúde onde a consulta de fato acontece.

O sistema foi desenvolvido pela startup SAS Smart em parceria com a SAS Brasil.

A organização também instalou nas comunidades cabines para aferir sinais vitais, com prontuário eletrônico e impressora de receitas, que se esterilizam automaticamente após a saída do paciente.

Serviços que já impactaram quase 80 mil pessoas em todo o país. Os atendimentos, que começaram nas periferias de São Paulo, Natal e Rio de Janeiro, espalharam-se por 320 municípios.

Entre os casos monitorados, não houve nenhuma morte por Covid-19. "Isso não foi por acaso. Aprendemos logo que o paciente que chegava cedo ao hospital, mesmo precisando de intubação, tinha chances enormes de sair bem de lá."

Quando percebeu que o sinal de internet nas favelas era um desafio, a equipe da SAS Brasil capacitou técnicos de enfermagem para ir até a porta da casa de moradores sem conexão para aferir sinais vitais. Entenderam cedo também a importância do monitoramento por oxímetros e disponibilizaram aparelhos para atender a necessidade de 1 milhão de habitantes.

O foco inicial da SAS foram as favelas pelo entendimento de que a pandemia iria predominar nos centros urbanos, em um país onde 26,2% das pessoas fazem parte de famílias que têm alguma restrição no acesso a serviços médicos, e 16,4% pertencem a famílias com restrições de acesso a medicamentos.

A falta de dinheiro é o principal entrave, de acordo com pesquisa referente a 2017 e 2018, cujos dados foram divulgados pelo IBGE no ano passado. "Num país como o nosso, a telemedicina representa facilidade de inserir pessoas que provavelmente estariam à margem do cuidado de saúde", afirma Sabine.

Num país como o nosso, a telemedicina representa facilidade de inserir pessoas que provavelmente estariam à margem do cuidado de saúde

Sabine Zink

Telemedicina SAS Brasil

Voluntária da SAS Brasil, a médica generalista Rebeca Linhares, 27, diz ter encontrado um paciente que esperava havia aproximadamente seis anos por uma consulta com alergologista no SUS. A profissional passou o número da startup e, no dia seguinte, ele tinha recebido o atendimento de que precisava.

"Isso é sobre promover acesso à saúde especializada de forma universal", afirma Linhares. "É olhar para todos e entender que todo cidadão tem direito à saúde."

Para ampliar a democratização do acesso, Adriana planeja levar as ações da SAS a 3.800 municípios brasileiros que não têm médicos especialistas.

"Eu resolvi ser médica porque minha tia fez um diagnóstico tardio de câncer de mama. Se ela tivesse tido acesso ao exame antes, poderia ter sido diagnosticada e tratada", afirma a médica, que perdeu a parente após dois anos de luta contra a doença.

Com propósito e inovação como ferramenta, a SAS Brasil deixa o legado pós-pandemia de uma trilha completa de inclusão digital na saúde. "Dar acesso à saúde é essencial. Deveríamos oferecer o básico a todos antes de dar o superavançado a tão poucos."

Adriana Mallet, 40, é a vencedora da categoria Inovação para a Retomada do Prêmio Empreendedor Social em Resposta à Covid-19 em 2021.

A médica intervencionista, que desde 2013 atua para tornar o acesso ao sistema de saúde mais amplo, acessível e justo, foi destaque ao usar tecnologia para combater a pandemia em favelas.

Adriana Mallet e a companheira, que ganhou na categoria Inovação para a Retomada, com a Telemedicina SAS Brasil - Jardiel Carvalho/Folhapress

À frente da iniciativa Telemedicina SAS Brasil, aperfeiçoou plataforma que tratava pacientes com câncer a distância para cuidar de pessoas com sintomas respiratórios no Jardim Colombo (SP), Complexo do Alemão e na Maré (RJ), entre outras comunidades pelo país

A médica venceu na categoria que pensa a crise como aceleradora de futuros e incubadora de inovações para a retomada. Concorreu com Alex Roger Wytt, da Bebyte, que levou cursos a estudantes com a Robótica Espacial nas Escolas, e Suzana e Reinaldo Pamponet (Itsnoon), à frente da NoonApp - Renda e Inclusão Digital, que alia renda e saúde mental na pandemia

Ao todo 317 projetos se inscreveram nesta segunda edição com foco no enfrentamento da pandemia da premiação realizada pela Folha em parceria com a Fundação Schwab.

O Prêmio Empreendedor Social tem patrocínio de Gerdau, Ambev, Sesi/Senai, Coca-Cola e Vedacit e parceria estratégica de Ashoka, ESPM, Fundação Dom Cabral, Pacto Global e UOL.

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