Assistente social desenvolve projeto Mãe e Muito+ para emancipar mulheres em morro no Rio

Stella Maris Monteiro foi além da filantropia na pandemia com iniciativa estruturante voltada para mães

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Luis Antonio Tedesco
São Paulo

Stella Maris Monteiro Moraes, 36, teve uma infância e adolescência tranquilas como integrante de família de classe média alta em Copacabana. "Nunca passei necessidade, não conheço isso."

Estudava num dos melhores colégios do Rio de Janeiro. Porém, filha de mãe negra e pai branco, sentia na pele a discriminação nos ambientes que frequentava, como a própria escola, o clube, e os períodos de férias na casa de veraneio em Búzios. "O meio social era totalmente branco."

Na escola ficava quase o tempo todo sozinha; na casa de praia, enquanto todos estavam na piscina, ela estava brincando de panelinha de barro com os filhos negros do caseiro.

"Aquele espaço era onde eu me entendia; não era nítido para mim, mas era onde me encontrava."

Essa realidade mudou quando veio a adolescência e ela começou a frequentar bailes funk em favelas do Rio. Ali passou a encontrar pessoas parecidas. "Enquanto na escola de elite eu era feia, na favela eu era bonita."

Mulher está sentada sobre mesa de jogos. Usa calça de oncinha e blusa azul, está mostrando o muque com um dos braços e sorrindo
Stella Maris Monteiro Moraes, 36, é presidente da ONG Grupo Anjos da Tia Stellinha - Renato Stockler/Folhapress

Aos 18 anos, fez trabalho voluntário em abrigos, o que logo cresceu para festas anuais em creches, hospitais. E isso viria a mudar radicalmente sua vida, assim como quando seu pai foi à falência. Foi se virar como camelô na rua.

Logo de cara, Stella sentiu empatia pelos menos favorecidos e territórios vulneráveis. E nesse ambiente passou a sentir-se entre os seus.

Em 2014, decidiu montar uma ONG para estruturar o trabalho. Alugou uma sala para guardar as doações, que não cabiam mais em casa. Assim surgiu a Anjos da Tia Stellinha, que atua no Morro dos Macacos, na região de Vila Isabel, zona norte da cidade.

A pandemia trouxe nova mudança radical. "As restrições começaram numa sexta-feira e no sábado já estava recebendo pedidos de ajuda do morro inteiro."

Com os atendimentos interrompidos, o foco virou a arrecadação e a distribuição de alimentos. "A ONG começou a dar uma resposta imediata, assistencialista. Aquela explosão de entrega de cestas básicas no país todo me assustou e não foi no bom sentido."

O temor era parar por ali. "Estava enxugando gelo", afirma, diante da certeza de que a onda de solidariedade do começo da crise sanitária ia passar e os necessitados iriam voltar ao 'ostracismo social'. "Eu me preocupava com o pós. Precisava ir além e fui."

Foi aí que desenvolveu a pesquisa entre 400 mulheres atendidas pela ONG que levou ao projeto Mãe e Muito+. Foi seu "censo particular" que permitiu identificar problemas a serem enfrentados.

Stella queria entender por que elas estavam ali, por que precisavam daquela ajuda alimentar, o perfil e os serviços que faltavam no território e aos quais mulheres não conseguiam acessar.

Chegou ao retrato de uma mulher com ensino fundamental incompleto, em situação de extrema pobreza (renda per capita de R$ 90 a R$ 150), com três filhos em média, morando em uma casa com membros de várias gerações (de bisavós a bisnetos), sem acesso a seus direitos e à educação.

"Elas diziam que, por serem mulheres, negras e moradoras de favela, não acessavam boas vagas no mercado de trabalho."

A ONG começou a dar uma resposta imediata, assistencialista. Aquela explosão de entrega de cestas básicas no país todo me assustou e não foi no bom sentido

Stella Maris

empreendedora social, sobre o que a levou a criar o projeto Mãe e Muito+

Com esses dados em mãos, Stella escreveu o Mãe e Muito +, fundamentado na tecnologia com que já trabalhava na ONG havia anos.

O projeto é baseado em quatro vertentes, que ela chama de quadrilátero de apoio: educação, integração social, proteção social integral e terapia. Conta com apoio de pedagogos e psicólogos voluntários, e de órgãos como Cras (Centro de Referência da Assistência Social), Creas (Centro de Referência Especializado em Assistência Social) e subsecretaria da Mulher e do Conselho Tutelar.

Todas essas pessoas e instituições dão aulas online para as beneficiárias nos três meses de duração de cada turma.

A ONG ainda conseguiu doações de cartão alimentação de organizações parceiras para que as participantes não se vissem obrigadas a abandonar o projeto. "No dia da formatura, as mulheres não queriam deixar a gente de jeito nenhum", conta Stellinha.

Stella Maris Monteiro Moraes, da ONG Anjos da Tia Stellinha, que distribuiu máscaras, alimentos e vale alimentação a populações vulneráveis no Rio de Janeiro
Stella Maris Monteiro Moraes, líder da ONG Anjos da Tia Stellinha, que distribuiu máscaras, alimentos e vale alimentação a populações vulneráveis no Rio de Janeiro - Divulgação

E qual foi a solução? "Bom, fizemos um novo projeto, de dois meses, com mentorias bem focadas", explica. As alunas foram divididas em três grupos com temas específicos, de acordo com a demanda de cada uma: empregabilidade, empreendedorismo e educação continuada. Na primeira turma, teve mãe que voltou a estudar, que entrou para a faculdade e montou negócio. "Aí pensei: cara, isso aqui dá certo", diz a assistente social.

Basta ver o que as mulheres disseram nas entrevistas antes e depois das formações. Antes, 56% desconheciam meios para acessar a educação continuada; depois, 92% conhecem o fluxo para voltar a estudar.

Antes, 73% revelaram estar com a autoestima baixa; depois, 98% disseram ter aumentado a autoestima. Se 87% gostariam de montar seu próprio negócio, mas não sabiam como, agora 91% se sentem aptas a empreender.

No final de 2020, o Instituto Profarma procurou a Anjos da Tia Stellinha para fazer uma parceria e replicar a metodologia para oito ONGs.

E, neste ano, a entidade fechou parceria também com a Gerando Falcões para replicar levar o quadrilátero de apoio para 20 ONGs espalhadas por vários estados do país, envolvendo 6.000 mulheres.

"Conheci o trabalho da tia Stellinha e endosso com vigor. Ela é uma das melhores lideranças que temos na rede", afirma Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões. Por conta dessa parceria, em outubro ela esteve em oito cidades do Nordeste para fazer um diagnóstico social.

"Temos uma metodologia padrão, mas a minha vontade é ter também uma personalizada para cada território", diz a empreendedora social, que se candidatou a um mestrado em desenvolvimento local, para criar estratégias que respeitem peculiaridades de cada comunidade onde for atuar.

Para pendurar na parede o primeiro diploma universitário, a carioca contou com uma bolsa de estudos paga por um fotógrafo, que se encantou ao registrar uma das festas que a jovem organizava em abrigos. Escreveu a tese de graduação "O Terceiro Setor como Executor de Políticas Públicas" grávida do quinto filho.

"Fiz três especializações, faço inglês e continuo me capacitando para crescer e conseguir impactar ainda mais meu território", diz a ex-camelô, que se converteu em exemplo do que é ser mãe e muito mais tanto no morro quanto no asfalto. "Eu sou a mulher mais feliz do Rio de Janeiro", define-se a Tia Stellinha.

Stella Maris Monteiro Moraes, 37, é a vencedora da categoria Soluções Comunitárias do Prêmio Empreendedor Social em Resposta à Covid-19 em 2021.

A empreendedora social Stella Maris Monteiro Moraes, a Tia Stellinha, ganhou na categoria Soluções Comunitárias, com o projeto Mãe e Muito+, em cerimônia do Prêmio Empreendedor Social 2021, realizada nesta terça (30 de novembro), no auditório da Folha
A empreendedora social Stella Maris Monteiro Moraes, a Tia Stellinha, ganhou na categoria Soluções Comunitárias, com o projeto Mãe e Muito+, em cerimônia do Prêmio Empreendedor Social 2021, realizada nesta terça (30 de novembro), no auditório da Folha - Jardiel Carvalho/Folhapress

Fundadora da ONG Anjos da Tia Stellinha, a assistente social foi além do assistencialismo na pandemia, ao criar o projeto Mãe e Muito+ para apoiar as mulheres a conquistar autonomia e emancipação.

escolha de Stellinha como empreendedora social do ano na categoria Soluções Comunitárias foi feita por um júri composto de personalidades e especialistas, que contou, entre outros, com o infectologista Esper Kallás e a escritora e filósofa Djamila Ribeiro.

Ao todo 317 projetos se inscreveram nesta segunda edição com foco no enfrentamento da pandemia da premiação realizada pela Folha em parceria com a Fundação Schwab.

O Prêmio Empreendedor Social tem patrocínio de Gerdau, Ambev, Sesi/Senai, Coca-Cola e Vedacit e parceria estratégica de Ashoka, ESPM, Fundação Dom Cabral, Pacto Global e UOL.

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