Negócios focados nos mais velhos são inexplorados, dizem painelistas no Fiis

Economia prateada e empreendedorismo em ciência encerraram programação do Auditório Folha

Everton Lopes Batista
Poços de Caldas (MG)

O mercado de produtos e soluções voltados para pessoas com mais de 60 anos têm demonstrado grande potencial para crescer, mas ainda são escassos empreendedores preparados para encarar o ramo e ficar com essa fatia inexplorada, de acordo com participantes de um painel realizado nesta terça-feira (6) durante o Fiis Festival de Inovação e Impacto Social), em Poços de Caldas (MG). 

“O mercado para os mais velhos gera propósito, lucro e resolve problemas que muitas vezes o poder público não consegue solucionar”, afirmou Ricardo Podval, co-fundador do Civi-co, centro que reúne iniciativas de impacto cívico e social.

“Essas pessoas querem usufruir e pertencer. Querem ir ao teatro, querem transporte e serviços diferenciados, como um aplicativo de celular com letra maior, por exemplo. As grandes empresas não estão preparadas para isso”, acrescentou.

Há ainda o problema do preconceito, segundo Podval, que lembrou que as companhias já desenvolvem produtos para públicos específicos, como jovens e adultos, mas se esquecem dos mais velhos.

Um exemplo de iniciativa brasileira para o público com mais de 60 anos é a plataforma EuVô. Criada em São Carlos, interior de São Paulo, o serviço, voltado a pessoas com problemas de mobilidade, oferece acompanhamento personalizado para atividades como compras e consultas médicas.

“Já recebemos relatos de pessoas que mudaram de vida, que não saíam mais de casa porque os filhos não conseguiam acompanhar”, disse Victória Barboza, uma das fundadoras do EuVô.

Segundo a empreendedora, foi necessário separar um tempo de cerca de seis meses para fazer os testes com potenciais clientes para adequar o serviço. O treinamento dos motoristas acompanhantes também foi necessário.

O projeto piloto já está em finalização em São Carlos e, até o início de 2019, deve ser expandido também para a região da cidade de São Paulo, de acordo com Victória.

Para Layla Vallias, fundadora da Hype60+, trazer o público alvo para testar e dar feedback é um dos triunfos da nova empresa. “Quando empreendedores tiram as ideias apenas da própria cabeça, acabam cometendo erros muito grandes de mercado”, concluiu.

Vale da morte da inovação

Negócios de base científica, que têm potencial para transformar a realidade social, trazendo maior comodidade e soluções tecnológicas para problemas do cotidiano, também são um campo pronto para o crescimento, defenderam participantes de um debate sobre empreendedorismo na ciência durante o Fiis.

Para Guilherme Rosso, presidente da Emerge, que apoia novos negócios de base científica, a área tem algumas características próprias que travam seu avanço no empreendedorismo.

Segundo ele, o desenvolvimento desses produtos precisa de investimentos mais altos, infra-estrutura mais sofisticada e mão de obra com alta qualificação, provida por mestres e doutores.

Além disso, os empreendimentos costumam ter um tempo de maturidade mais longo, de cerca de dez anos.

“É difícil ser cientista e é difícil ser empreendedor. Há um vale da morte da inovação entre universidade e mercado”, afirmou Rosso.

De acordo com Mirella Domenich, diretora da Ashoka Brasil, existe uma tendência de que cientistas se tornem empreendedores, mas ainda é necessário estimular jovens para seguir carreira científica.

A Braincare é um exemplo de empreendedorismo de base científica com impacto social que já está em operação.

A companhia se baseia em um dispositivo criado pelo físico brasileiro Sérgio Mascarenhas, que monitora pressão intracraniana a partir da leitura de impulsos elétricos feitas por um chip. Esse tipo de medição é necessário em portadores de algumas doenças neurológicas, mas, geralmente, é feita com cirurgias invasivas.

“A Braincare mostra o potencial criativo que as pessoas têm. Mostra que investir em educação e tecnologia para a inovação é um caminho digno para a sociedade brasileira”, afirmou Plinio Targa, diretor da Braincare. 

Festival

O Fiis ​conteceu entre os dias 2 e 7 de novembro no Palace Cassino, em Poços de Caldas (MG). O evento agregou o encontro anual da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais, formada por cem líderes, o Congresso Sorriso do Bem, da Turma do Bem, correalizadora desta edição, e o Fórum Melhores Práticas para Saúde no Terceiro Setor, da Aliança Latina.

Temas como o futuro dos negócios sociais e das ONGs, captação, mobilização e conexão, inovação e novo significado do voluntariado foram discutidos durante masterclasses, workshops e painéis que contaram com a participação de empreendedores, investidores e empresas que atuam por impacto positivo.

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