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Óleo de coco não é veneno, como diz pesquisadora dos EUA, nem panaceia

Produto não tem benefícios comprovados e pode ser prejudicial se for consumido em excesso

Phillippe Watanabe
São Paulo

Sai ano, entra ano, e o óleo de coco​ continua envolvido em discussões sobre seus riscos e benefícios.

O burburinho, dessa vez, surgiu após uma pesquisadora da Universidade Harvard, nos EUA, ter afirmado que a substância “é puro veneno” e “uma das piores coisas que você pode comer”.

Óleo de coco em estado líquido; em temperatura ambiente costuma ser sólido
Óleo de coco em estado líquido; em temperatura ambiente costuma ser sólido - Gabriel Cabral/Folhapress

Karin Michels, do departamento de epidemiologia da Universidade Harvard e diretora da mesma área na Universidade da Califórnia, é a responsável pelas fortes declarações durante uma palestra em alemão, que virou um vídeo com mais de um milhão de visualizações no YouTube.

Contudo, segundo os especialistas ouvidos, a afirmação de Michels é radical, aproximando-se das posições defendidas por aqueles que dizem que esse tipo de óleo consegue curar doenças como o câncer e trazer outros benefícios de saúde

“Há tanta apologia para se usar óleo de coco que às vezes a contrapartida acaba sendo violenta”, afirma Marcio Mancini, chefe do grupo de obesidade do Hospital das Clínicas (HC) da USP.

É fato que o óleo de coco é rico em gordura saturada (82% de sua composição) —mais do que banha de porco—, “não emagrece e aumenta o colesterol LDL [considerado ruim], então é uma moda, como tirar lactose e glúten da alimentação”, diz Mancini.

“A cada três meses há um surto de comentários que dizem respeito ao óleo de coco”, diz Maria Edna de Melo, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica). O modismo continua no mundo mesmo com todas as recomendações em sentido contrário.

Uma das mais recente partiu da American Heart Society, em julho de 2017. O posicionamento —baseado em 139 estudos— apresenta fatos nutricionais e suas relações com doenças cardiovasculares. 

Ao citar o óleo de coco, a entidade afirma que por causar aumento do LDL —associado a eventos cardiovasculares—, e “por não apresentar efeitos benéficos conhecidos, não aconselhamos o uso”.

Também em 2017, alguns meses antes, a Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) já havia se posicionado especificamente sobre o óleo e o perigo de sua prescrição para tratar doenças —sim, isso estava e continua acontecendo.

Pode-se voltar mais ainda no tempo e chegar a 2015, quando um posicionamento conjunto da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e da Abeso alertou sobre uma das indicações costumeiras para uso do óleo, o emagrecimento.

“A Sbem e a Abeso também não recomendam o uso regular de óleo de coco como óleo de cozinha”, diz o documento, que possui indicações de uso moderado de óleos com gorduras insaturadas (como soja, oliva e canola).

Por que, então, mesmo com tantos questionamentos da comunidade científica, o óleo de coco continua tão popular?

A aposta de Melo é o apelo de produtos diferentes, anunciados como naturais e saudáveis. “Quando alguém defende uma dieta diferente, fala de bem-estar, qualidade de vida.”

De fato, a confusão quanto os supostos benefícios do óleo de coco parece residir na população leiga. Em 2016, o jornal The New York Times fez um questionário com 672 nutricionistas e 2.000 americanos para saber o que os dois grupos consideravam saudável.

Enquanto 72% público considerava o óleo de coco saudável, apenas 37% dos nutricionistas seguiam essa linha.

Ouvi dizer que o óleo de coco

  1. ...previne contra alzheimer e doenças do coração

    Não há estudos sérios e conclusivos que demonstrem qualquer caráter terapêutico

  2. ...emagrece

    Também não há nenhum estudo conclusivo que o ligue ao emagrecimento

  3. ...é bom para o cabelo

    Sim, assim como vários tipos de óleo. Pessoas com caspa ou couro cabeludo oleoso podem ter condições pioradas

  4. ...se usado como bochecho deixa o dente branco

    Não há evidência disso –funcionaria no máximo como um sabão. A prática pode levar à ingestão de óleo

  5. ...é bom para a pele

    A substância não possui ação antibacteriana, antifúngica ou antiviral e pode agravar a acne e outras condições

“Quando surge algum estudo sobre a nutrição humana, em geral é muito pequeno, in vitro, com modelo animal, ou com populações muito específicas. E às vezes as pessoas podem ler esses achados e extrapolar como uma orientação válida”, diz Clarissa Hiwatashi Fujiwara, pesquisadora do HC da USP e membro da Abeso.

O importante é o equilíbrio, segundo os especialistas ouvidos. Ou seja, o óleo de coco até pode ser usado, mas não vale a pena substituir o óleo de canola, o de soja, a manteiga e o azeite de oliva —associados a benefícios de saúde— por ele. 

Uma análise recente publicada na revista especializada BMJ afirma que as evidências mostram que o risco de doenças cardíacas pode ser diminuído pela substituição de gorduras saturadas por poli-insaturadas. A publicação também diz que a alimentação deve ser guiada pelo consumo de alimentos e padrões dietéticos, não por nutrientes isolados.

“Mas meu amigo/blogueira disse que com óleo de coco emagreceu/ficou com a pele melhor”, alguém pode dizer. 

É prudente ter cuidado com as possíveis notícias falsas. Vale, inclusive, questionar a pessoa que passou a informação errada e verificar suas credenciais profissionais e acadêmicas. 

Mesmo assim, é possível que a pessoa em questão defenda um posicionamento sem qualquer respaldo —o conhecimento científico acumulado pela humanidade continua sem poder dizer que qualquer  um desses alegados benefícios realmente procedem. 

Procurada pela reportagem, Karin Michels não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.


O óleo nosso de cada dia

Algumas características dos óleos e gorduras que usamos diariamente

Óleo de coco

Negativo
Rico em ácidos graxos saturados

Negativo
Estudos mostram aumento do colesterol e o ponto de fumaça não é alto (177ºC)

Negativo
Mesmo possuindo substâncias antioxidantes, especialistas sugerem limitar ingestão

Óleo de Palma/Azeite de Dendê

Negativo
Rico em ácidos graxos saturados

Negativo
Especialistas sugerem limitar ingestão e possui ponto de fumaça alto (232ºC)

Positivo
Rico em Ômega 9, pobre em Ômega 6, rico em vitamina E

Manteiga

Negativo
Rica em ácidos graxos saturados

Negativo
Ponto de fumaça baixo (150ºC) e por isso não é indicada para frituras

Positivo
Possui algumas vitaminas, como A, por exemplo

Azeite de oliva

Positivo
Grande proporção de ácidos graxos monoinsaturados

Negativo
Quando aquecido, pode perder parte das propriedades antioxidantes

Positivo
Presença de Ômega 9 e compostos antioxidantes

Óleo de soja

Positivo
Composição predominante de ácidos graxos insaturados

Positivo
Ponto de fumaça elevado (234ºC) –bom para frituras longas, de imersão

Positivo
Costuma ser barato

Óleo de girassol

Positivo
Predominância de ácidos graxos insaturados

Positivo
Ponto de fumaça elevado (209ºC) –bom para frituras longas, de imersão

Positivo
Boa proporção de Ômega 9

Óleo de canola

Positivo
Proporção alta de ácidos graxos insaturados

Positivo
Ponto de fumaça elevado (220ºC - 230ºC) –bom para frituras longas, de imersão

Positivo
Presença de Ômega 3 e vitamina E


GLOSSÁRIO

Saturado/insaturado
Ácidos graxos (gorduras) saturados (moléculas mais “retas”) estão associados a doenças cardiovasculares

Ponto de fumaça
Temperatura a partir 
da qual há produção de fumaça tóxica –quanto 
menor, pior para frituras longas

Ômegas
Molécula Ômega 3 protege coração e é anti-inflamatória; o Ômega 6, sem o Ômega 3, é inflamatório. 
O equilíbrio entre os dois ajuda na regulação da resposta inflamatória. O Ômega 9 diminui risco cardiovascular

Vitamina E
Geralmente é desejável; a molécula tem característica antioxidante e protege contra os radicais livres

Fontes: "Vegetable oils in food technology composition properties and uses"; Trending Cardiovascular Nutrition Controversies, publicado no "Journal of the American College of Cardiology"; Ana Lúcia dos Anjos Ferreira, pesquisadora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e da Unesp, Clarissa Fujiwara, nutricionista da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), Leonardo Spagnol, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Marco Manfredini, secretário do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp)

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