Como lidar com o luto de mães que perderam bebês? Um novo livro ensina

Guia ajuda profissionais da saúde com dicas de humanização, como permitir que a família fique com o bebê nos seus últimos momentos em espaço privativo

Cláudia Collucci
São Paulo

Nunca me senti tão desamparada quanto nas duas ocasiões em que sofri abortos retidos (quando o embrião morre e não é expulso do útero) e fui internada em uma maternidade de São Paulo para a realização de curetagem.

O sentimento de que nesses ambientes não há lugar para a mulher que perde seu bebê, seja lá qual for o tempo gestacional ou os dias de vida, surgiu no exato momento em que voltava do centro cirúrgico para o quarto.

No corredor, vi um casal de avós olhando o netinho através do vidro do berçário. Em seguida, foram um, dois, três, quatro quartos com enfeites na porta, dando boas-vindas ao neném, até chegar ao meu, que destoava dos demais.

 
Ao me ver chorando, pela perda e pelas cenas que havia acabado de presenciar, a enfermeira tentou me consolar com frases do tipo “logo você engravida de novo”, “ainda bem que foi no começo da gestação”, “foi melhor assim, imagine se nascesse com malformação”. Fecho parênteses.
Cristiane Nascimento e o filho Lucas, na UTI da Divisão de Neonatologia do Caism, na Unicamp. Ela sussurra para ele e o coração do bebê acelera
Cristiane Nascimento e o filho Lucas, na UTI da Divisão de Neonatologia do Caism, na Unicamp; ela sussurra para ele e o coração do bebê acelera - Marcelo Min

Por anos, a psicóloga Heloisa de Oliveira Salgado ouviu relatos de mães sobre os traumas vividos em hospitais após a perda de seus bebês.

Entre eles estão os de mulheres em trabalho de parto com seus bebês já sem vida no útero internadas no mesmo quarto com outras ainda gestantes, mães que não puderam se despedir dos filhos mortos e até casos em que os corpos dos bebês foram encontrados no necrotério com etiqueta e código de barras.

Foi a partir da experiência de uma amiga que vive no Canadá que Heloisa descobriu que havia saídas, que a dor da mãe enlutada pode ser acolhida e cuidada nos hospitais.

“O que ela me contou era muito diferente de tudo o que eu já tinha ouvido. Lá, existe protocolo para uma assistência empática, as mães são atendidas reservadamente, podem se despedir do bebê, fazem fotos, têm apoio psicológico e espiritual”, conta.

Surgiu então a ideia de escrever um guia que pudesse auxiliar profissionais da saúde a lidar com essas situações e poderem, assim, oferecer uma assistência mais adequada às mães enlutadas.

Na obra “Como lidar com o luto perinatal - Acolhimento em situações de perda gestacional e neonatal” (Ema livros), escrita em parceria com a obstetra Carla Andreucci Polido, há uma revisão da literatura científica, relatos de mães e dicas aos profissionais de saúde.

Os estudos confirmam o que grupos de mães já defendem há tempos: nas situações de mortes de bebês, ter a oportunidade de pegar o filho ou a filha nos braços é importante para o bem-estar futuro e para a elaboração do luto.

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza, que viveu apenas sete horas; na sala de luto do Caism, na Unicamp, o marido, Giovani, a ampara e acaricia seu rosto
Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza, que viveu apenas sete horas; na sala de luto do Caism, na Unicamp, o marido, Giovani, a ampara e acaricia seu rosto - Marcelo Min

Segundo Carla, as equipes médicas não são treinadas para lidar com o luto e, quando o fazem, tendem a adotar uma postura paternalista, acreditando que seja o melhor para a mãe. “Nas perdas iniciais, é sempre aquele discurso vazio: ‘foi melhor assim, a natureza é sábia’, diz ela.

Quando a morte do bebê ocorre no fim da gestação, a tendência é decidir por procedimentos sem ouvir as mães.

Por exemplo, opta-se por uma cesárea sem perguntar se a mulher deseja um trabalho de parto normal ou uma indução com medicamentos. Também costuma-se prescrever medicação para inibir a lactação sem discutir alternativas como a doação do leite.

“Não há treino ou um procedimento padrão para lidar com a situação. A principal dica que queremos passar aos profissionais é: escutem primeiro a mãe antes de propor qualquer coisa. É uma questão de dignidade humana.”

Entre as propostas do guia estão a adoção de protocolos e o treinamento de profissionais e equipes para agir de forma coletiva e homogênea.

“A ideia é estabelecer um fluxograma humanizado, desde o atendimento na recepção até o médico da UTI, todo mundo falando a mesma língua. Não adianta, por exemplo, isolar essa mulher das outras gestantes, mas manter o berço no quarto.”

Entre as sugestões estão comunicar às equipes que, ali, naquele leito, quarto ou prontuário há uma mulher se recuperando de uma perda e possibilitar que a família possa permanecer junto ao bebê nos seus últimos momentos num espaço privativo.

Segundo Heloisa, a perda de um bebê durante a gravidez ou logo após o parto envolve o luto pela morte em si somado ao luto pelo o que não foi vivido. “É um sentimento diferente daquele em relação à morte de um ente querido que fez parte do convívio social.”

Uma proposta, inspirada em experiências internacionais, é que a instituição faça uma caixa de lembranças do bebê onde serão guardados itens como mecha de cabelo, digitais do pé e da mão, pulseiras de identificação, fotografias, que vão colaborar para a preservação da sua memória.

Porém, relatos em grupos de mães mostram que essa ideia ainda está distante de serviços de saúde no Brasil.

Magda Christie, de Valinhos (SP), diz ter ficado horrorizada com como a prima Ágata foi tratada em uma maternidade pública de Sorocaba (SP) nos três dias de trabalho de parto para expulsar o bebê que havia morrido no útero, na 27ª semana de gestação.

“Se a viam chorando, falavam: ‘chora não, ano que vem você volta’ [supostamente para ter outro bebê]. Como se um bebê substituísse o outro. Pedi para trocarem a camisola e o lençol dela, ensanguentados, e disseram que não tinha mais roupa limpa. Pedi analgésico, disseram que ela tinha aguentar a dor. Uma falta de empatia com a dor do outro.”

Há quase dois anos, Magda perdeu o filho Gustavo, que nasceu prematuro e morreu 42 dias depois vítima de um surto de vírus respiratório que atingiu a UTI neonatal.

“Ninguém na época me incentivou a ficar mais tempo com ele, a tirar uma foto ou mesmo guardar uma digital da mão ou do pezinho dele. Essas lembranças poderiam ter ajudado no luto”, diz.

Em UTIs neonatais que trabalham com cuidados paliativos, como a da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), algumas práticas sugeridas no livro já são rotina.

Os pais têm apoio psicológico e podem ficar o tempo todo com os bebês. Quando morrem, são vestidos e colocados num bercinho em uma sala isolada para que os pais se despeçam com privacidade.

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