Descrição de chapéu The New York Times

Avós vivem alegria e angústia ao pensar no futuro dos netos

Escritora conta experiência de ser avó e ter a consciência de que seu tempo está se esgotando

Robin Marantz Henig
Nova York | The New York Times

Eu estava na sala de parto quando meu primeiro neto nasceu. Eu sabia o que não fazer —não tocar, não falar — mas eu não sabia exatamente o que eu deveria fazer. Eu me sentia grata por ter sido convidada para fazer parte daquele momento e, ao mesmo tempo, com medo de estragar as coisas de algum jeito.

O parto gira ao redor da mulher em trabalho de parto, é claro, e todos os outros ao redor são coadjuvantes. Mas eu me sentia mais fora de lugar do que eu esperaria.

Qual deveria ser o meu papel? De repente eu me vi lidando com a minha própria incerteza, tentando encontrar o equilíbrio entre ficar invisível e me tornar uma mãe coruja. 

Hoje, três anos depois, eu vejo que aquela experiência é uma metáfora para a vida de avó: a alegria de ver de perto seus filhos se tornarem pais junto com uma sensação de mãos atadas enquanto a nova família se desenvolve.

Ilustração mostra mãos segurando bebê, uma criança e uma mulher segurando bebê
Tornar-se avó é um momento de felicidade com um toque de consciência dos aniversários que você perderá - NYT

Essa é a verdade amarga de ser avó: essa é seu último “desenvolvimento”. Enquanto seus filhos e netos crescem, eles devem crescer para longe, para que permaneçam e perdurem mesmo depois que você se for. Mesmo que você os veja de perto, você estará sempre do lado de fora, com seu nariz pressionado contra a janela —e você tem cada vez mais consciência de quantas histórias deles acontecerão sem você.

Eu aguardei aquele momento na sala de parto durante uma eternidade. Conforme meus 60 anos se aproximavam, o desejo de ter um neto aumentava. Eu queria segurar um bebê —e não qualquer bebê, mas um bebê com quem eu pudesse ter aquela conexão primitiva que eu senti ao segurar minhas duas filhas.

Eu queria o cheiro, o toque e o peso de um bebê nos meus braços; eu queria que aquele pequeno ser me conhecesse, confiasse em mim e me procurasse quando quisesse conforto; eu queria um bebê para dar forma e sentido aos meus dias.

Não estava sozinha nesse desejo. Toda uma geração de mulheres fortes e bem-sucedidas sentia algo parecido, ou pelo menos era assim que eu via o mundo.

Mas por que eu me sentia assim? Estamos tentando reviver a nossa própria juventude, quando nós e nossos bebês éramos um monte de infinitas possibilidades? Esse nosso desejo é algo altruísta, uma esperança de que nossos filhos experimentem a alegria de serem pais e mães? Estamos apenas entediadas e à procura de algo com sentido para fazer?

A vontade de ter um neto é, de muitas formas, como a vontade das mulheres mais jovens de ter um bebê, com as mesmas incertezas sobre fertilidade, desejo e compromisso. Mas com uma diferença brutal: essas incertezas não são suas. Elas são do seu filho ou da sua filha, que geralmente pensam que têm todo o tempo do mundo, enquanto nós, avôs e avós, sabemos que nosso tempo está se esgotando.

Como a escritora Edwidge Danticat observou, o maior objetivo ao criar uma criança é dar a ela tudo de que ela precisa para deixar você um dia, “ficar maior, mais esperta, engatinhar, balbuciar, andar, falar, fazer aniversários que você espera viver para ver”. 

Eu sabia de tudo isso enquanto criava minhas filhas, mas eu sabia na minha cabeça, não nas minha entranhas. Eu tinha 26 anos quando a mais velha nasceu e 30 quando veio a segunda, e eu tinha a expectativa de viver por muito, muito tempo, mesmo depois que elas já tivessem aprendido a andar para longe de mim. Eu planejava viver para ver aniversário após aniversário.

Mas, como avó, eu não tenho essa esperança; a angústia finalmente está nas minha entranhas. Eu internalizei o conhecimento dolorido de que, por trás do encorajamento que você dá para que seus filhos cresçam e andem e falem e saiam de casa, por trás de todos os momentos maravilhosos que você pode ter a sorte de ver e viver, a vida do seu neto será uma longa lista de aniversários que você não acompanhará.

Minha amiga Barbara mora na cidade de Nova York e tenta ir para Washington uma vez por mês para visitar seus dois netos. Em uma dessas visitas, o mais novo começou a brincar com suas joias e pediu pra olhar de perto sua aliança de casamento.

“Posso ficar com ela quando eu casar?”, ele perguntou. Ele tinha quatro anos de idade.

“Claro”, ela disse.

Ele olhou para o anel de noivado dela. “Minha esposa pode ficar com esse?”

“Claro”, ela disse de novo.

“E aí me dei conta —eu nunca vou vê-lo se casar”, Barbara me disse depois. “Nunca vou conhecer sua esposa.”

Essa é a faca de dois gumes de ser avó: nossos pensamentos se voltam com força para o futuro, que inclui agora netos que você adora, ao mesmo tempo em que você é lembrada de sua própria ausência nesse futuro. É uma mistura estranha de nascimento e morte, que dá beleza e dor pungente à vida de avó. 

Robin  Marantz  Henig é colaboradora da New York Times Magazine e autora dos livros “Pandora’s  Baby” e “The  Monk  in  the  Garden”

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