Celebridades se abrem mais sobre saúde mental, mas campanhas genéricas ainda têm entraves

Lady Gaga, príncipe William e Mariah Carey foram alguns dos que já falaram abertamente sobre o tema

Phillippe Watanabe Aurélie Mayembo
São Paulo | AFP

Em janeiro, o príncipe William, do Reino Unido, falou, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, sobre como é importante conversar sobre problemas e emoções. No último domingo (10), foi a vez de Lady Gaga, durante a cerimônia do Grammy, falar que estava "orgulhosa por fazer parte de um filme ("Nasce uma Estrela") que trata de problemas de saúde mental", com um herói sofrendo de vícios e pensamentos suicidas.

Não é a primeira vez que os dois tocam no assunto. Gaga já havia revelado que sofria de estresse pós-traumático. William vem falando sobre seus próprios problemas durante o tempo em que trabalhou com transporte aeromédico.

O príncipe também já falou abertamente, junto com seu irmão, Harry, sobre os sentimentos após a morte de sua mãe, a princesa Diana, em um acidente de carro em Paris, em 1997. À época, William tinha 15 anos e Harry, 12.

William, sua esposa Kate Middleton e Harry estão entre os responsáveis pela campanha “Heads Together” (cabeças juntas, em tradução livre), com foco em saúde mental.

 

“Uma geração inteira [que enfrentou o período de guerras] decidiu que essa era a melhor maneira de tratar o assunto. Acidentalmente, acabaram passando isso adiante para a próxima geração, que herdou a ideia de que essa era a maneira de lidar com seus problemas: não falando sobre eles”, disse William, em Davos, no início deste ano.

Durante o painel em que o príncipe falava, os palestrantes pediram para que, na plateia, levantasse a mão quem tivesse em sua vida —considerando inclusive a si mesmo— alguém com problemas de saúde mental. Quase todo mundo levantou a mão, segundo a repórter Kalyeena Makortoff, do jornal The Guardian.

“Nós precisamos começar a atacar o problema agora, porque ainda há muita gente sofrendo em silêncio. Precisamos acabar com o estigma em relação à saúde mental antes de seguir em frente”, disse William, que também afirmou que inicialmente, em 2017, foi ignorado por celebridades as quais pediu apoio para sua campanha.

Atletas, que lidam com pressão e busca constante por resultados positivos, começaram recentemente a se abrir sobre suas situações mentais. O jogador de basquete Kevin Love, do Cleveland Cavaliers, campeão da NBA na temporada 2015-2016 jogando com LeBron James, revelou, em um artigo em 2018 na revista The Players’ Tribune, os problemas mentais pelos quais passou na temporada 2017-2018 da liga americana.

O atleta, durante um evento do jornal The New York Times em novembro do ano passado, disse considerar sua abertura ao público sobre o assunto como o maior feito de sua carreira. Outro jogador da NBA, DeMar DeRozan, do San Antonio Spurs, também já falou publicamente sobre a depressão pela qual passava.

O tema começou a ser mais abertamente tratado também no mundo da música. Além de Gaga, Mariah Carey falou de sua bipolaridade pela primeira vez no ano passado. "Eu não queria me deixar levar pelo estigma de uma doença crônica que me definiria e acabaria com a minha carreira", declarou a cantora à revista People.

"Eu estava com medo de perder tudo", disse ela, sobre a doença que atinge 60 milhões de pessoas e que é considerada a sexta mais incapacitante, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). Ela também afirmou estar sob tratamento médico e de psicoterapia.

Trata-se de um avanço considerável, segundo o psiquiatra Jean-Victor Blanc, observador das relações entre cultura pop e psiquiatria, assunto de suas conferências e, em breve, de um livro.

"Os distúrbios psíquicos são tão estigmatizados que é bom ter exemplos positivos", ressalta o médico. O exemplo de Mariah Carey é "inspirador para meus pacientes", porque depois que ela se pronunciou, retornou às suas atividades normais como artista.

Também corresponde às "recomendações atuais" em termos de tratamento, enquanto os filmes às vezes pintam quadros muito distantes da realidade médica, com pacientes que são capazes de lidar com a doença graças a um encontro romântico ou religião, disse ele. 

Esses discursos ajudam a reduzir o estigma, mas nem sempre são bem expostos (como o álbum de Kanye West, com "eu odeio ser bipolar, é ótimo", escrito na capa) e beneficia alguns distúrbios mais do que outros.

Esse, inclusive, pode ser considerado um dos possíveis problemas de campanhas de massa e de declarações de famosos: costumam ser muito abrangentes ou genéricas, podendo deixar de lado complexidades das diversas condições que são parte do assunto.

A bipolaridade tornou-se lugar-comum na ficção (a série "Homeland" ou o filme "O Lado Bom da Vida", que rendeu à atriz Jennifer Lawrence um Oscar em 2013) e é um pouco mais conhecida do público em geral. Ao contrário da esquizofrenia, que afeta 23 milhões de pessoas mas permanece extremamente estigmatizada.

Mesmo que os artistas falem de seus males, o trabalho continua considerável. Talvez porque tais doenças são vistas como parte da vida de artista.

"Dar uma imagem glamourosa para algumas doenças não é algo novo, mas ainda é um problema", diz Philip Auslander, professor de comunicação no Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), citando a imagem romântica do artista autodestrutivo. "A ideia de que a criatividade se paga a um alto preço em um nível pessoal é algo que é implicitamente aceito, mas muito prejudicial."

Buscando expandir ainda mais os efeitos de falar abertamente sobre o assunto, publicitários lançaram uma campanha, no início de janeiro, no Instagram, com a foto de um ovo (Eugene Egg). Um dos objetivos era destronar o recorde de "likes" detido por Kylie Jenner. Recorde batido em poucos dias. 

Outras fotos, em seguida, apareceram com a casca do ovo se rachando e um link para dezenas de organizações que trabalham pela saúde mental em todo o mundo.

"Por causa de um ovo", 5.000 pessoas visitaram em um único dia o site da Mental Health America (MHA)", comemorou Paul Gionfriddo, chefe da associação. Entre eles, um público relativamente jovem, um terço de homens e 63% de pessoas que nunca foram diagnosticadas.

"Podemos tirar sarro desse ovo, mas a verdade é que é importante porque nos permitiu alcançar uma população que precisa e abrir o debate em escala global", diz a MHA.

Também em janeiro, mas no Brasil, o mês foi dedicado à saúde mental, com a campanha Janeiro Branco, que promove conversas em locais públicos, visitas a escritórios e panfletagem.

Segundo Leonardo Abrahão, criador da campanha, por aqui, assim como no resto do mundo, o tema é cercado de tabus e desinformação. “Isso tem produzido profundos prejuízos para a sociedade”, diz. “A sociedade não discute saúde mental.”

Abrahão diz que a campanha visa falar não só de doenças, como a depressão, a ansiedade e a esquizofrenia, mas também de sentimentos do dia a dia. “As pessoas não são educadas, elas escondem sentimentos, pensamentos e sofrimentos. E aí vemos isso no interior das salas, dos carros, das empresas, nas famílias. As pessoas têm medo de falar que estão sofrendo.”

Segundo Antônio Geraldo, coordenador da campanha Setembro Amarelo, para prevenção do suicídio, e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o remédio contra o estigma é relativamente simples: a conversa sobre saúde mental. “Quanto mais falamos disso, mais protegemos a população”, diz.

No Brasil, o jornalista Ricardo Boechat, que morreu nesta segunda (11), na queda de um helicóptero, foi um dos que falou abertamente sobre depressão. Ele relatou seus problemas na rádio Bandnews FM. “É importante aceitá-la e combatê-la. Todo o silêncio do doente e de quem está a sua volta dificulta a recuperação”, disse à época.

Além das campanhas e comentários sobre o assunto, a saúde mental também necessita de estruturas de tratamento e dinheiro. Em Davos, o Wellcome Trust, que financia projetos de pesquisa, anunciou um investimento de 200 milhões de libras (mais de R$ 900 milhões) na área.

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