Ministério da Saúde confirma segundo caso de febre do Nilo no país

Mulher que mora no interior do Piauí sofreu um quadro de paralisia muscular flácida aguda em junho de 2017

Natália Cancian
Brasília

O Ministério da Saúde confirmou o segundo caso registrado no país de doença neurológica pelo vírus da febre do Nilo Ocidental, tipo de arbovirose ainda pouco conhecida no Brasil.

Assim como a dengue e a zika, o vírus da febre do Nilo Ocidental é transmitido por meio da picada de mosquitos infectados, principalmente do gênero Culex (pernilongo).

Pernilongo (Culex), que transmite o vírus da febre do Nilo ocidental
Pernilongo (Culex), que transmite o vírus da febre do Nilo ocidental - Reuters

Assim como a dengue e a zika, o vírus da febre do Nilo Ocidental é transmitido por meio da picada de mosquitos infectados, principalmente do gênero Culex (pernilongo).


O caso é de uma jovem que mora na zona rural de Picos, no interior do Piauí, e que sofreu um quadro de paralisia muscular flácida aguda em junho de 2017. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, os exames foram coletados na época, mas o ministério liberou os resultados apenas no início deste ano.

Os exames apontaram a presença de anticorpos contra o vírus no sangue da paciente. Em nota, a pasta atribui a demora à necessidade de laudos conclusivos. 

Esse é o segundo caso confirmado da doença no país. Até então, o Brasil só havia registrado um caso de febre do Nilo em agosto de 2014. O paciente, um vaqueiro de 52 anos de Aroeiras do Itaim, no interior do Piauí, foi internado na UTI à época após apresentar febre, dor de cabeça, paralisia nos braços e pernas, confusão mental e rigidez na nuca.

De acordo com Marcelo Vieira, neurologista do Instituto de Doenças Tropicais Natan Portela que acompanhou o caso, o paciente teve alta, mas ficou com sequelas, como dificuldades para andar.


Já a jovem atendida em 2017 se recuperou completamente. Em nota, o Ministério da Saúde diz que a confirmação do segundo caso no Piauí “revela a recorrência da circulação do vírus do Nilo Ocidental na região e ressalta a importância das ações de vigilância e investigação”.

Para Vieira, que também faz parte da equipe de vigilância da secretaria estadual de saúde do Piauí, a probabilidade é de que haja outros casos da doença.


Dados da secretaria estadual de saúde apontam que, até o agora, exames de 32 outros casos suspeitos tiveram resultado indeterminado. 

Segundo Vieira, o problema ocorre devido à dificuldade do diagnóstico, com possibilidade de reações cruzadas para vírus semelhantes, como dengue e zika.

Outro fator, diz, é a tendência de que apenas casos graves sejam encaminhados às redes de saúde. Em geral, cerca de 80% das pessoas infectadas com o vírus do Nilo não apresentam sintomas, e menos de 1% tem sintomas graves.

Nesses casos, pode haver também tremores, fraqueza muscular e paralisia. Também pode desenvolver encefalite ou meningite (inflamação das membranas do cérebro ou da medula espinhal).

“Como a forma branda da doença é semelhante a várias outras arboviroses, dificilmente se pede um exame”, afirma Vieira. 

Atualmente, não há tratamento específico para a febre do Nilo. Nos casos leves, é indicado repouso. Já nas formas graves, o paciente deve ser atendido em UTI em observação para suporte e controle de infecções secundárias.

Transmitida pela picada de mosquitos infectados com o vírus a partir de aves migratórias infectadas, a febre do Nilo não “passa” pelo contato com outras pessoas ou animais.

O vírus é transmitido por mosquitos comuns, principalmente do gênero Culex. Para isso, no entanto, é preciso o contato dele com uma ave infectada —diferentemente do Aedes aegypti, por exemplo, que pode picar um doente e passar a carregar o vírus.

Para Vieira, essa característica torna mais difícil que haja uma epidemia. Ele ressalta, no entanto, que um aumento na transmissão não pode ser desconsiderado —daí a necessidade de manter a vigilância.

Outra expectativa é que, por ser um flavivírus, família que abarca vírus da dengue, zika, parte da população brasileira esteja menos suscetível a formas graves da doença. Embora haja discussão do tema entre especialistas

Descrita inicialmente na África, a febre do Nilo manteve-se durante décadas restrita aos continentes europeu, africano e asiático, sendo registrada pela primeira vez nas Américas em 1999. Dos EUA, o vírus se disseminou e atingiu o Canadá e o México. A suspeita é que esse avanço tenha ocorrido por aves silvestres.

A situação fez o Brasil criar em 2003 um sistema de vigilância, com monitoramento de possíveis sinais da circulação do vírus em cavalos e aves e vigilância de casos em humanos. No ano passado, o vírus foi detectado no cérebro de cinco cavalos que morreram após apresentar sintomas neurológicos no Espírito Santo. Não houve, porém, confirmação de casos humanos.


Conheça a febre do Nilo ocidental

Causa
Vírus da família dos flavivírus

Transmissão
Picada de mosquitos Culex (pernilongo) ou Aedes aegypti

Sintomas

  • febre de início abrupto
  • perda de peso
  • náusea e vômitos
  • dor nos olhos, cabeça e nos músculos
  • exantema máculo-papular linfoadenopatia

1 em cada 150 pessoas desenvolve doença neurológica grave, como meningite

Tratamento
Não há vacina ou tratamento antiviral específico, só sintomático

Fonte: Ministério da Saúde

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.